Guterres: “mal pernicioso” do racismo está difundido em todas as sociedades

  • Muito do racismo atual está “profundamente enraízado em séculos de colonialismo e escravidão”.
  • A afirmação é do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em evento alusivo ao Dia Internacional para a eliminação da Discriminação Racial, 21 de março.
  • “Hoje, o Apartheid está morto. Mas, tristemente, o racismo vive - em todas as regiões e em todas as sociedades”, disse Guterres.
Crianças na África do Sul, país que sofreu com Aparthaid
Crianças na África do Sul, país que sofreu com Aparthaid (1982)

Muito do racismo atual está “profundamente enraízado em séculos de colonialismo e escravidão”. A afirmação é do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em evento alusivo ao Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, 21 de março.

“Hoje, o Apartheid está morto. Mas, tristemente, o racismo vive - em todas as regiões e em todas as sociedades”, disse Guterres. Ele apresentou um quadro de discriminação difundida e exclusão sofrida por pessoas de ascendência africana, injustiças e opressão suportadas por pessoas indígenas, antissemitismo, ódio islamofóbico, além da recente violência contra pessoas de origem asiática, que estão se tornando, injustamente, alvos devido a COVID-19.

“Nós também vemos isso nos preconceitos construídos dentro dos códigos de reconhecimento facial e inteligência artificial” assim como nas “visões repugnantes dos supremacistas brancos e outros grupos extremistas”, acrescentou o chefe da ONU.

Pandemia do ódio - Guterres relembrou que, no ano passado, pessoas do mundo todo protestaram contra a injustiça racial, reconhecendo o racismo como uma “pandemia global cruel”.

Para ele, o racismo é um “mal profundamente enraizado”. "Perigoso. Abominável. Horrível. E em todos os lugares”,  que transcende gerações e perpetua desigualdade, opressão e marginalização.

Ao classificá-lo como “um complexo fenômeno cultural”, Guterres defendeu que todos “devem ser proativamente anti-racistas” para erradicar o racismo.

Reverter “erros de longa data” - Marcando o 20º aniversário da Declaração de Durban e do Programa de Ação da Conferência Mundial contra o Racismo, o chefe da ONU disse que 2021 oferece uma oportunidade de “fazer uma avaliação honesta de onde nós estamos e para onde precisamos ir”.

“O racismo se manifesta de muitas formas - conscientemente e inconscientemente”, afirmou. “O combate demanda ações todos os dias, em todos os níveis”.

Refletindo sobre as injustiças históricas que contribuíram para a pobreza, o subdesenvolvimento, a marginalização, a exclusão e a instabilidade de pessoas e países, o secretário-geral disse que está na hora de “reconhecer e reparar os erros de longa data e reverter suas consequências”. 

Ele afirmou que “justiça reparadora” é essencial para a reconciliação, a prevenção de conflitos e a criação de sociedades justas e igualitárias, acrescentando que isso também pode “ajudar a melhorar o contrato social entre as pessoas e o estado”.

Juventude - O chefe da ONU destacou o papel importante dos jovens no combate ao racismo, dizendo que as atitudes e o comportamento deles “vão ditar o futuro formato e a aparência das nossas sociedades”.

Ele apelou para que os jovens, líderes e educadores “ensinem ao mundo que todas as pessoas nascem iguais”. “Supremacia é uma mentira maligna. Racismo mata. Vamos trabalhar juntos para livrar o mundo do mal pernicioso do racismo para que todos possam viver em um mundo de paz, dignidade e oportunidade”, afirmou o secretário-geral.

O preço da COVID - O presidente da Assembleia Geral da ONU, Volkan Bozkir, também observou que afrodescendentes “frequentemente têm acesso desigual a cuidados médicos e são vulneráveis a maiores taxas de infecção de coronavírus e mortalidade relacionada”.

Em alguns contextos, ele apontou que eles têm duas vezes mais probabilidade de morrer em consequência da COVID-19 do que seus pares, e para aqueles que se recuperam, o custo dos cuidados médicos e o impacto sócio-econômico da pandemia ameaçam “forçar pessoas de descendência africana para a pobreza”.

Para ele, quando saúde e outros sistemas como justiça, moradia e educação falham para pessoas afrodescendentes, injustiças e desigualdades são perpetuadas. “Vidas. Negras. Importam”, afirmou. 

“A responsabilidade está em cada um de nós, de defender os direitos humanos fundamentais das pessoas de ascendência africana. Deixe- me falar aqui hoje, na Assembleia Geral: Vidas. Negras. Importam”, reforçou Bozir.

A data - Em 21 de março de 1960, a polícia matou 69 manifestantes pacíficos por protestarem contra o Apartheid em Sharpeville, na África do Sul.  

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade
ONU
Organização das Nações Unidas