Cessar-fogo não esconde escala de destruição em Gaza; especialistas pedem investigação no TPI
21 maio 2021
- Funcionários e agências da ONU saudaram o cessar-fogo acordado no Território Palestino Ocupado e em Israel, mas advertiram que a destruição em Gaza levará anos, senão décadas, para ser reparada.
- Com a trégua, a ajuda humanitária pode chegar aos palestinos. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) entregou 18 contêineres de ajuda na sexta-feira (21), através da passagem de Kerem Shalom, para apoiar crianças e famílias necessitadas.
- Ainda na sexta-feira, especialistas em direitos humanos da ONU instaram uma investigação pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) sobre os ataques a populações civis, as "graves violações dos direitos humanos" e outros "crimes de guerra" cometidos.
A comunidade humanitária recebeu bem o cessar-fogo acordado no Território Palestino Ocupado e em Israel, mas advertiu que a destruição em Gaza levará anos, senão décadas, para ser reparada.
O oficial sênior da agência de ajuda da ONU para os palestinos (UNRWA), Matthias Schmale, disse na sexta-feira (21) que não havia "volta ao normal" no enclave, após mais de 10 dias de disparos de foguetes e trocas de ataques aéreos entre as partes em conflito que mataram mais de 250 pessoas e feriram milhares.
“Voltar à vida normal significa ter que observar com muito cuidado por onde estamos indo por dispositivos não detonados. Sabemos de pelo menos uma escola, uma das nossas 278 escolas, onde enterramos profundamente duas bombas, e alertamos as autoridades israelenses”, disse ele. “Obviamente, não podemos simplesmente voltar correndo para nossos prédios e escolas, temos que nos certificar de que eles estão seguros”.
Schmale observou que funcionários da UNRWA, principalmente os residentes na região, relataram que a violência tinha sido "pior em intensidade e terror do que em 2014", antes de ecoar o apelo do secretário-geral da ONU por um processo político significativo para resolver as queixas de ambos palestinos e israelenses.
Guerra ainda próxima - “Normalidade aqui também significa 50% de desempregados e crescendo. Estou convencido, depois de estar aqui por dois anos e meio, que estaremos de volta à guerra, a menos que as causas subjacentes sejam abordadas. Da perspectiva de Gaza, isso significa dar às pessoas e especialmente aos jovens uma perspectiva de uma vida digna”, disse.
“Se você tem seu próprio dinheiro e pode comprar comida para levar para casa, ao invés de depender de esmolas da ONU, é menos provável que você entre para grupos como o Hamas”, afirmou Schmale.
UNICEF entrega ajuda - O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) entregou 18 contêineres de ajuda na sexta-feira (21) após a retomada da relativa calma na Faixa de Gaza, através da passagem de Kerem Shalom, para apoiar crianças e famílias necessitadas.
Entre os itens entregues estavam kits de primeiros socorros, bolsas e soluções de sangue, extintores de incêndio, antibióticos e outros kits de controle de infecção, além de 10 mil doses da vacina Sinopharm contra a COVID-19.
“Estamos extremamente gratos que um acordo de cessar-fogo na faixa de Gaza entrou em vigor às 2 horas nesta manhã, porque o número de perdas foi enorme”, disse a representante especial do UNICEF na Palestina, Lucia Elmi.
“Isso permitirá que as famílias tenham uma pausa muito necessária e possibilitará a entrega da assistência humanitária e do pessoal tão necessários para a Faixa de Gaza”, acrescentou ela.
Especialistas da ONU pedem investigação do TPI - Ainda na sexta-feira, especialistas em direitos humanos da ONU pediram para todas as partes envolvidas no conflito em Gaza e Israel respeitarem o cessar-fogo e instaram uma investigação pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) sobre os ataques a populações civis e outras "graves violações dos direitos humanos" de acordo com um comunicado divulgado pelo escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH).
Os especialistas apontaram os despejos forçados de famílias palestinas que vivem em Sheikh Jarrah e Silwan, na ocupada Jerusalém Oriental, como o estopim que desencadeou a guerra.
Eles disseram que pelo menos 222 pessoas, incluindo 63 crianças, foram mortas em Gaza e 12 pessoas morreram em Israel como resultado dos combates.
Além disso, mais de 450 edifícios na Faixa de Gaza foram completamente destruídos ou danificados por mísseis, de acordo comunicado. Entre eles estavam seis hospitais, nove centros de saúde e uma usina de dessalinização de água, abastecendo cerca de 250 mil palestinos com água potável, além de uma torre que abrigava veículos de comunicação, incluindo a rede Al Jazeera e a Associated Press (AP).
“Assimetria de poder” - “Devido à vasta assimetria de poder, as vítimas deste conflito são desproporcionalmente palestinos em Gaza, dos quais mais de 74 mil foram deslocados à força e desabrigados, a maioria mulheres e crianças”, disseram os especialistas independentes.
“O conflito levou a uma nova onda de destruição em massa sem precedentes de residências e infraestrutura de civis, incluindo redes elétricas em Gaza e ataques indiscriminados ou deliberados de mísseis contra civis e áreas residenciais em Israel e Gaza, que violam não apenas os padrões internacionais de direitos humanos, mas também são crimes no direito internacional, pelos quais existe responsabilidade individual e do estado”, prosseguiram os especialistas.
Os especialistas disseram que todos os “bombardeios indiscriminados ou deliberados de civis e torres que abrigam civis, organizações de mídia e campos de refugiados em Gaza e Israel são crimes de guerra que, à primeira vista, não são justificados pelos requisitos de proporcionalidade e necessidade do direito internacional. Todas as partes envolvidas em tais ataques devem assumir a responsabilidade individual e do estado, como apropriado”, afirma o comunicado conjunto.
Papel dos especialistas da ONU - Os especialistas independentes são nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para monitorar questões específicas relacionadas ao cumprimento dos direitos humanos. Eles não são funcionários da ONU, nem recebem um salário da Organização.