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FAO reconhece contribuições indígenas, afrodescendentes e migrantes na luta contra a mudança climática

01 junho 2021

  • A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) promoveu um evento internacional do qual participaram os governos da Costa Rica, Espanha e Vaticano. O seminário discutiu os impactos da mudança climática, com foco nos ensinamentos de povos indígenas, populações afrodescendentes e migrantes latino-americanos
  • Um estudo da FAO relata que as florestas comunitárias na América Latina, onde os povos indígenas têm posse coletiva e segura da terra, estão sujeitas a taxas de desmatamento quatro vezes mais lentas do que as de áreas protegidas estaduais em países vizinhos
  • Hoje, existem mais de 476 milhões de povos indígenas que vivem em mais de 90 países e falam cerca de 4.000 dos 6.700 idiomas. Os impactos das mudanças climáticas por vezes os forçam a migrar e se realocar nacional e internacionalmente. Mais de 50% dos membros dos povos indígenas da América Latina agora vivem em áreas urbanas.
Legenda: Uma família Cakchiquel no vilarejo de Patzutzun, Guatemala
Foto: © John Isaac/Nações Unidas

Na tarde da última quinta-feira (27) a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) promoveu um evento internacional para o qual convocou os governos da Costa Rica, Espanha e Vaticano. O seminário foi virtual e reuniu especialistas de alto nível para discutir sobre os impactos da mudança climática, com foco nos ensinamentos de povos indígenas, populações afrodescendentes e migrantes latino-americanos.

Por meio do evento, a FAO proporcionou um espaço de diálogo onde representantes de governos, povos indígenas, afrodescendentes, organizações de migrantes, agências da ONU e organizações internacionais se reuniram para identificar soluções para enfrentar os efeitos da mudança climática em grupos populacionais específicos.

"Os povos indígenas, afrodescendentes e migrantes dão grandes contribuições para transformações positivas. No entanto, eles têm sido negligenciados no desenho de estratégias globais para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas", disse o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, em seu discurso de abertura.

“Não devemos deixar para trás aqueles que sabem tanto sobre biodiversidade, diversidade alimentar e diversidade cultural”, acrescentou.

Também discursaram na abertura do seminário Epsy Campbell Barr, Primeira Vice-Presidente da Costa Rica e primeira afrodescendente a ocupar esse título, e Teresa Ribera Rodríguez, Quarta Vice-Presidente do Governo da Espanha.

Anne Nuorgam, presidente do Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas (UNPFII), disse: “Os povos indígenas não são vulneráveis, estamos sendo colocados em situações de vulnerabilidade”, disse ela. “Somos agentes de mudança. Não precisamos que outros falem em nosso nome.”

"A maneira como tratamos o meio ambiente reflete a maneira como tratamos a nós mesmos", disse o cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério do Vaticano para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, que cresceu na zona rural de Gana. Ele pediu uma nova "cultura de cuidado" que permeie toda a sociedade e implique mudanças nos padrões de crescimento, produção e consumo. “É hora de aproveitar as novas oportunidades”.

Menores taxas de desmatamento - O seminário aumentou a conscientização sobre o que é necessário para garantir o bem-estar desses grupos populacionais e promover a proteção de seus direitos, ao mesmo tempo em que reconhece suas contribuições para a preservação da biodiversidade. Um exemplo notável disso, relatado em um estudo importante da FAO, é que as florestas comunitárias na América Latina, onde os povos indígenas têm posse coletiva e segura da terra, estão sujeitas a taxas de desmatamento quatro vezes mais lentas do que as de áreas protegidas estaduais em países vizinhos.

Alguns fatos importantes - Os povos indígenas e afrodescendentes ocupam uma vasta extensão de territórios caracterizados por abundantes riquezas naturais. Existem mais de 476 milhões de povos indígenas que vivem em mais de 90 países e falam cerca de 4.000 dos 6.700 idiomas restantes no mundo.

Seus territórios cobrem apenas 25% da superfície do planeta, mas –graças à sua cosmogonia, crenças, governança, gestão territorial e circularidade, solidariedade e reciprocidade de seus sistemas socioeconômicos e seus conhecimentos e sistemas alimentares únicos– eles possuem 80% da biodiversidade restante.

A extração ilegal de madeira, mineração e atividades extrativistas aumentaram a violência e o assassinato de lideranças indígenas e afrodescendentes.

Os impactos das mudanças climáticas estão corroendo sua resiliência e forçando-os a migrar e se realocar nacional e internacionalmente. Mais de 50% dos membros dos povos indígenas da América Latina agora vivem em áreas urbanas.

Aprender ouvindo - Myrna Cunningham, Presidente do Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (FILAC), enfatizou a importância da plena participação de todos –idosos e jovens, mulheres e homens– nas discussões de questões-chave, listando cinco em particular: posse da terra, governança territorial; pagamentos por serviços ambientais; silvicultura comunitária; conhecimentos tradicionais e sistemas alimentares.

Richard Moreno Rodríguez, Coordenador do Conselho Nacional Afro-Colombiano para a Paz, destacou a notável intensidade mútua da relação entre um povo e seu território para as comunidades étnicas de seu país. “Nós sentimos isso, sofremos e vivemos isso”, disse ele.

Alexis Neuberg, presidente da Plataforma de Desenvolvimento da Diáspora África-Europa (ADEPT), destacou, ao falar dos migrantes, a “marginalização de pessoas que são de fato um ativo”, incluindo aquelas que são obrigadas a deixar seus países de origem devido à mudança climática ou conflito.

Vozes no debate - Outros participantes do seminário foram Beatriz Argimón, Vice-presidente do Uruguai; Pearnel Patroe Charles Jr., Ministro da Habitação, Renovação Urbana, Meio Ambiente e Mudança Climática da Jamaica; Kluane Adamek, Chefe Regional de Yukon da Assembleia Canadense das Primeiras Nações; Bruno Oberle, Diretor Geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN); Lisa Famolare, vice-presidente de Natureza para o Clima para as Américas da Conservação Internacional; Máximo Torero, economista-chefe da FAO; O Vice-Diretor Geral da FAO, René Castro-Salazar; e Yon Fernández-de-Larrinoa, Chefe da Unidade de Povos Indígenas da FAO.

“Um tema que foi deixado claro pelos povos indígenas e afrodescendentes é que suas comunidades são as primeiras a enfrentar as consequências das mudanças climáticas devido à sua dependência direta e estreita relação com a terra e os recursos naturais”, disse Torero. "Construir parcerias benéficas com eles, incluindo o reconhecimento de seus direitos coletivos de posse, é essencial para criar estratégias coletivas para mitigar as mudanças climáticas e contribuir para a biodiversidade."

Para se aprofundar - O relatório da FAO e FILAC, Povos indígenas e comunidades tradicionais e a governança florestal, fornece uma grande quantidade de dados que indicam o alto potencial dessa abordagem. Os territórios dos povos indígenas cobrem 28% da bacia amazônica, mas geram apenas 2,6% das emissões brutas de carbono da região. Garantir a posse da terra indígena pode ser até 42 vezes mais barato como forma de reduzir as emissões de dióxido de carbono do que capturar e armazenar carbono fóssil de usinas de carvão e gás (mais fatos e números aqui).

“É essencial combinar o conhecimento tradicional dos povos indígenas, inovação e tecnologia e estabelecer um diálogo de conhecimento que seja adequado e beneficie a humanidade”, disse Torero. As novas tecnologias e plataformas devem ser utilizadas para difundir os seus conhecimentos tradicionais, o que também reconheceria a contribuição dos jovens dessas comunidades, acrescentou.

O que a FAO anda fazendo - A FAO lançou um Centro Mundial sobre Sistemas Alimentares Indígenas que, no âmbito da Cúpula dos Sistemas Alimentares das Nações Unidas, elaborou o documento White/Wiphala sobre os Sistemas Alimentares dos Povos Indígenas, que será um dos documentos que informarão a Cúpula.

Em 2019, a FAO também estabeleceu o Grupo informal de Roma de Amigos dos Povos Indígenas, presidido pelo Canadá.

O Diretor-Geral, Qu Dongyu, também destacou o ambicioso Programa de Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM). "Esses sistemas antigos formam a base para tecnologias e inovações agrícolas contemporâneas e futuras", disse ele.

Saiba mais sobre o trabalho da FAO nesta área aqui.

 

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