Recuperar corais pode salvar um dos ecossistemas mais vulneráveis à mudança climática?

  • O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Iniciativa Internacional de Recifes de Corais (ICRI) lançaram na segunda-feira (18) um novo relatório que concluiu que se a restauração dos recifes de coral for bem planejada, bem financiada e de longo prazo pode ser uma ferramenta útil para apoiar a sua resiliência.
  • O relatório visa ajudar profissionais, gestores e tomadores de decisão a considerar se usar e como usar a restauração de recifes de coral como uma estratégia para proteger os recifes de coral em escala local, regional e global.
  • Os recifes de coral são alguns dos ecossistemas de maior valor ecológico e econômico no planeta. Cobrindo menos de 0,1% do oceano mundial, eles sustentam mais de 25% da biodiversidade marinha e servem pelo menos um bilhão de pessoas com uma ampla gama de serviços ecossistêmicos. No entanto, eles também estão na linha de frente da crise climática devido à sua sensibilidade ao aquecimento dos mares.
Os corais estão na linha de frente da crise climática devido à sua sensibilidade ao aquecimento dos mares. Até 50% dos recifes de coral já foram perdidos.
Os corais estão na linha de frente da crise climática devido à sua sensibilidade ao aquecimento dos mares. Até 50% dos recifes de coral já foram perdidos.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Iniciativa Internacional de Recifes de Corais (ICRI) lançaram na segunda-feira (18) um novo relatório que concluiu que se a restauração dos recifes de coral for bem planejada, bem financiada e de longo prazo pode ser uma ferramenta útil para apoiar a sua resiliência.

Os recifes de coral são alguns dos ecossistemas de maior valor ecológico e econômico no planeta. Cobrindo menos de 0,1% do oceano mundial, eles sustentam mais de 25% da biodiversidade marinha e servem pelo menos um bilhão de pessoas com uma ampla gama de serviços ecossistêmicos, tais como proteção costeira, produção pesqueira, fontes de medicamentos, benefícios recreativos e rendimento turístico.

No entanto, eles também estão na linha de frente da crise climática devido à sua sensibilidade ao aquecimento dos mares. Até 50% dos recifes de coral já foram perdidos. De acordo com relatórios recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), até 90% dos recifes de coral podem ser perdidos até 2050, mesmo que o aquecimento da temperatura seja limitado a um aumento de 1,5°C.

O relatório intitulado Restauração de recifes de coral como estratégia para melhorar os serviços ecossistêmicos (do inglês, Coral reef restoration as a strategy to improve ecosystem services) visa ajudar profissionais, gestores e tomadores de decisão a considerar se usar e como usar a restauração de recifes de coral como uma estratégia para proteger os recifes de coral em escala local, regional e global.

"Dada a escala espacial limitada, os altos custos e as provas limitadas de sucesso a longo prazo e ecologicamente relevantes, a necessidade de aplicar a restauração de recifes de coral deve ser cuidadosamente pensada. Se implementado, deve ser integrado dentro de uma estrutura de gerenciamento abrangente baseada na resiliência dos recifes de coral", diz o relatório, que também observa que houve um investimento considerável em pesquisa e desenvolvimento da restauração de recifes de coral para melhorar o custo, a eficiência e a escalabilidade.

Este ano inicia-se a Década das Nações Unidas de Restauração de Ecossistemas e a Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Segundo a coordenadora do Departamento de Água Doce e Ecossistema Marinho do PNUMA, Leticia Carvalho, este relatório fornece uma diretriz útil e inovadora para os especialistas no momento em que inicia-se as décadas da Ciência Oceânica e da Restauração de Ecossistemas.

"Mas também mostra claramente que nada pode substituir uma rápida transformação para uma melhor conservação dos sistemas naturais que foram formados ao longo de bilhões de anos em nosso planeta. Intervenções críticas, recriar e restaurar sempre será mais caro e mais complicado do que preservar, por isso devemos fazê-lo com sabedoria", afirmou a coordenadora do PNUMA.

Há uma sensação crescente de que a ação para proteger os corais precisa acontecer rapidamente.

Um relatório do PNUMA de novembro de 2020, Projeções de futuras condições de branqueamento de coral usando os modelos CMIP6 do IPCC  (do inglês, Projections of Future Coral Bleaching Conditions Using IPCC CMIP6 Models), diz que o branqueamento dos corais está acontecendo mais rápido do que o previsto e que a saúde futura dos recifes do mundo é indissociável da redução das emissões de gases de efeito estufa.

Desafios

"A restauração dos recifes de coral enfrenta desafios associados à relativa novidade do campo e ao senso de urgência para sua aplicabilidade", explicou a principal autora do relatório, Margaux Hein.

No entanto, ela ressaltou que este senso de urgência está criando uma energia positiva para colaborações locais e globais para melhorar a eficácia da restauração de recifes de coral. "A restauração de recifes de coral não é uma solução isolada, mas é potencialmente uma ferramenta muito útil para complementar estratégias de manejo baseadas na resiliência".

Os esforços de restauração de ecossistemas precisam ser planejados e financiados como estratégias de longo prazo por pelo menos 10 a 20 anos e exigem projetos "inteligentes" que respondam por incertezas e mudanças futuras.

O relatório sugere estratégias de restauração de recifes de coral seguindo quatro princípios críticos: 1) planejamento e avaliação em torno de metas e objetivos específicos, 2) identificação de estratégias adaptativas para mitigar riscos, 3) envolvimento das partes interessadas e comunidades locais em todos os estágios dos esforços de restauração, e 4) desenvolvimento de planos de monitoramento de longo prazo para permitir a gestão adaptativa e melhorar a compreensão da eficácia da restauração para metas específicas.

"A restauração de recifes de coral é complexa", afirmou o coordenador da ICRI, Francis Staub. "É muito mais complicado do que plantar corais". É preciso levar em consideração os aspectos socioeconômicos nos diferentes estágios da restauração, custo-benefício e escalabilidade, bem como metas a serem incluídas nos compromissos assumidos para a Década das Nações Unidas de Restauração de Ecossistemas.  

"Políticas, planos e financiamento específicos para a restauração de recifes de coral são necessários para ajudar na implementação em escala global, regional e local", acrescentou ele.

Em 2019, a Assembleia do Meio Ambiente das Nações Unidas adotou a Resolução 4/13 solicitando ao PNUMA e ao ICRI que definissem as melhores práticas para a restauração de corais para a manutenção dos serviços ecossistêmicos. A Década das Nações Unidas sobre Restauração de Ecossistemas (2021-2030) e Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), oferecem oportunidades para destacar o trabalho já em andamento e traçar um caminho de ações futuras.

A Década da ONU para a Restauração de Ecossistemas 2021-2030, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e parceiros, abrange ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Uma chamada global à ação, ela reunirá apoio político, pesquisa científica e força financeira para ampliar em grande escala a restauração. Saiba mais.

Década das Nações Unidas da Ciência do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), proclamada em dezembro de 2017, proporcionará uma estrutura comum para garantir que a ciência dos oceanos possa apoiar plenamente as ações dos países para administrar os oceanos de forma sustentável e, mais particularmente, para alcançar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

A Quinta Sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-5) também coloca a restauração dos ecossistemas no centro das atenções. O órgão decisório de maior nível do mundo sobre o meio ambiente, reúne representantes dos 193 Estados membros da ONU, empresas, líderes da sociedade civil e outras partes interessadas para chegar a um acordo sobre políticas que abordem a mudança climática, a poluição e a perda de ecossistemas. Uma reunião virtual acontecerá de 22 a 23 de fevereiro de 2021, enquanto uma sessão presencial está agendada para fevereiro de 2022 em Nairobi, Quênia.

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade
PNUMA
Programa das nações Unidas para o Meio Ambiente