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Guterres aponta prioridades da ONU para retomada econômica

18 janeiro 2022

Durante a abertura da edição deste ano do Fórum Econômico Mundial, o secretário-geral da ONU, António Guterres, ressaltou a desigualdade entre países na recuperação, pediu compromisso na redução da lacuna vacinal, reforma nos sistemas financeiros e ações para conter a mudança climática.

O chefe da ONU apontou que os países de baixa renda estão em grande desvantagem no que diz respeito às estatísticas de recuperação. As taxas de vacinação nos países de alta renda são sete vezes maiores do que nos países africanos. Mais de oito em cada dez dólares de recuperação estão sendo gastos em países desenvolvidos. Além disso, nas últimas duas décadas, o custo econômico dos desastres relacionados ao clima disparou em 82%.

Em todas essas áreas, argumentou Guterres, a comunidade internacional precisa de apoio, ideias e financiamento. Segundo ele, o mundo não pode replicar as desigualdades e injustiças que continuam condenando dezenas de milhões de pessoas.

fachada do fórum economico mundial
Legenda: Este ano o encontro em Davos foi substituído por uma série de eventos online
Foto: © Benedikt von Loebell/WEF

A edição deste ano do Fórum Econômico Mundial começou na segunda-feira (17). Por causa da pandemia, pelo segundo ano consecutivo, o Fórum substituiu a reunião presencial em Davos, na Suíça, por uma série de plenárias e discussões online ao longo do ano. O secretário-geral da ONU, António Guterres, ao discursar na abertura do evento, destacou disparidades na recuperação, pediu compromisso na redução da lacuna vacinal, reforma nos sistemas financeiros e ações para conter a mudança climática. Para ele, o evento deste ano acontece “à sombra de um período extremamente difícil para economias, pessoas e nosso planeta”.

De acordo com a principal previsão econômica da ONU divulgada na semana passada, o mundo está emergindo das profundezas de uma crise econômica paralisante, mas a recuperação continua frágil e desigual. Com desafios persistentes no mercado de trabalho, interrupções na cadeia de suprimentos, inflação crescente e armadilhas da dívida iminente, a recuperação agora está desacelerando drasticamente.

“Os últimos dois anos demonstraram uma verdade simples, mas brutal – se deixarmos alguém para trás, deixamos todos para trás”, alertou Guterres. 

Equidade da vacina - Durante o discurso de abertura, ele também exortou todos os participantes do Fórum a se concentrarem em três áreas urgentes. 

A primeira é enfrentar a pandemia com equidade e justiça. Lembrando a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de vacinar 40% das pessoas em todos os países até o final do ano passado e 70% até meados deste ano, Guterres disse que o mundo não está nem perto disso. Na verdade, acrescentou, as taxas de vacinação nos países de alta renda são “vergonhosamente” sete vezes maiores do que nos países africanos.

Além do foco na equidade das vacinas, ele argumentou que o mundo deve se preparar para a próxima pandemia com investimentos em monitoramento, detecção precoce e planos de resposta rápida em todos os países. Guterres também defendeu que a autoridade da OMS deve ser fortalecida.

Reforma financeira global - A segunda área que precisa de ação urgente é o sistema financeiro global. “Precisamos reformar o sistema financeiro global, para que funcione para todos os países”, explicou Guterres. “Neste momento crítico, estamos definindo uma recuperação desigual.”

Com mais de oito em cada dez dólares de recuperação sendo gastos em países desenvolvidos, o chefe da ONU acredita que os países de baixa renda estão em grande desvantagem.

"Eles [os países de baixa renda] estão vivenciando o crescimento mais lento em uma geração - e tentando se desenterrar com orçamentos nacionais lamentavelmente insuficientes", constatou.

Guterres apontou inflação recorde, espaço fiscal reduzido, altas taxas de juros e preços crescentes de energia e alimentos, dizendo que esses problemas estão atingindo todos os cantos do mundo, especialmente países de baixa e média renda. Para ele, “o sistema financeiro global falhou com eles quando mais precisavam”.

Reestruturação da dívida - Além disso, a autoridade máxima das Nações Unidas, acredita que esses países estão “algemados por dívidas crescentes e taxas de juros extorsivas” e inelegíveis para o alívio da dívida, apesar do aumento da pobreza, do desemprego e das perdas de desenvolvimento. 

Enfatizando a necessidade de um sistema adequado à situação, o chefe da ONU pediu uma reestruturação urgente da dívida, reformas na arquitetura do sistema de dívidas de longo prazo e uma expansão do Quadro Comum para o Tratamento da Dívida para países de renda média.

Guterres também pediu aos governos e instituições para ir além do Produto Interno Bruto (PIB) para medir os riscos de investimento, além de combater a corrupção e os fluxos financeiros ilícitos e garantir que os sistemas tributários sejam “justos e projetados de uma maneira que realmente reduza as desigualdades”.

Ação climática real - A terceira e última área destacada pelo secretário-geral foi a ação climática nos países em desenvolvimento. Mesmo que todos os países desenvolvidos cumpram suas promessas de reduzir drasticamente as emissões até 2030, as emissões globais ainda serão muito altas para manter a meta de 1,5 ºC ao alcance. 

De acordo com uma pesquisa apoiada pela ONU, o mundo precisa de uma redução de 45%  nas emissões globais nesta década, mas deve aumentar em 14% até 2030. 

Guterres argumentou que 1,2 ºC de aquecimento “já trouxe consequências devastadoras e preços crescentes medidos em dólares e desespero”.

Nas últimas duas décadas, o custo econômico dos desastres relacionados ao clima disparou em 82%. Apenas no ano passado, o clima extremo causou 120 bilhões de dólares em perdas e matou 10 mil pessoas.

Em 2020, os choques climáticos forçaram 30 milhões de pessoas a fugir de suas casas, três vezes mais do que os deslocados pela guerra e pela violência. E um bilhão de crianças correm um risco extremamente alto de sofrer os impactos das mudanças climáticas. 

“Virar este navio exigirá imensa força de vontade e engenhosidade de governos e empresas, em todas as grandes nações emissoras”, insistiu Guterres. 

Prioridades - Para o secretário-geral, a primeira prioridade deve ser a eliminação gradual do carvão. Nenhuma nova usina de carvão deve ser construída.

Os governos da Indonésia e do Vietnã acabaram de anunciar sua intenção de abandonar o carvão e fazer a transição para as energias renováveis. A África do Sul agora tem uma parceria de transição energética justa para ir além do carvão. 

Na semana passada, o chefe da ONU participou de uma reunião da Glasgow Financial Alliance for Net Zero, um grupo que mobilizou mais de 130 trilhões de dólares em torno da meta de zerar emissões. Para ele, a aliança “estabeleceu o padrão-ouro” e “todo o sistema financeiro deve seguir seu exemplo”.

Em todas essas três áreas, argumentou Guterres, a  comunidade internacional precisa do apoio, ideias, financiamento e voz da comunidade empresarial global. Segundo ele, o mundo “não pode se dar ao luxo de replicar as desigualdades e injustiças que continuam condenando dezenas de milhões de pessoas a uma vida de carência, pobreza e saúde precária”.

“Não podemos continuar a construir muros entre os que têm e os que não têm”, concluiu.

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