ARTIGO: As Operações de Paz da ONU são uma ferramenta que salva vidas — e um investimento inteligente
29 maio 2025
As Operações de Paz da ONU possuem um legado de sucesso, desde a Namíbia até os atuais pontos de tensão no mundo. Mas, para continuarem eficazes, precisam de investimento e adaptação.
Artigo de Jean-Pierre Lacroix* publicado pelo Devex em 28 de maio de 2025.
Neste mês de março, cerca de 35 anos depois que as Nações Unidas encerraram um capítulo histórico de sua atuação em operações de paz, a Namíbia empossou Netumbo Nandi-Ndaitwah como sua primeira mulher presidente eleita democraticamente.
Em 1989, mesmo diante de uma crescente instabilidade global e de uma crise financeira na ONU, os Estados-membros se uniram para lançar o Grupo de Assistência de Transição das Nações Unidas (UNTAG) — uma missão de paz multidimensional que ajudou a conduzir a Namíbia à independência.
O UNTAG não se limitou a monitorar um cessar-fogo na Namíbia. A missão ajudou a organizar e garantir as primeiras eleições livres e justas do país, protegeu civis, verificou a retirada de tropas e apoiou a transição democrática em um território vasto e remoto. Foi uma missão pioneira em abordagens que hoje são pilares das operações modernas de paz, como policiamento da ONU, monitoramento de direitos humanos, apoio eleitoral e uma robusta campanha de informação pública.
Atualmente, as Operações de Paz da ONU estão em um ponto crítico. O cenário global é perigoso e complexo. Crises surgem rapidamente e se espalham ainda mais depressa, agravadas pela polarização política internacional, pelo crime transnacional, pelo terrorismo, por um crescente senso de impunidade e pelo enfraquecimento do direito internacional.
Os capacetes azuis — reconhecidos mundialmente — contam com amplo apoio internacional. Agora, mais do que nunca, continuam na linha de frente — protegendo civis, mantendo posições estratégicas e criando o espaço necessário para que a diplomacia funcione. Mas, diante da crescente instabilidade e das crescentes pressões financeiras, a eficácia das operações de paz depende de investimentos em seu futuro.
Capacetes azuis na linha de frente
O trabalho dos nossos capacetes azuis — homens e mulheres que servem longe de seus lares para ajudar outras pessoas a viverem em paz — é exigente e complexo, mas também é perigoso. Desde janeiro de 2024, sofremos 78 fatalidades. Muitos outros ficaram feridos. O sacrifício deles, assim como o serviço prestado por mais de 68 mil militares, policiais e civis sob a bandeira da ONU — incluindo forças uniformizadas de 119 países — representa um compromisso real com a paz e a segurança.
Em 11 missões, grandes e pequenas, os capacetes azuis atuam em alguns dos contextos mais voláteis do mundo. Na República Democrática do Congo, nossa missão, a MONUSCO, ajuda a proteger civis da violência e apoia o diálogo e o desarmamento.
No Líbano, a UNIFIL continua sendo uma presença estabilizadora ao longo da Linha Azul, mesmo em meio a constantes trocas de fogo. No Sudão do Sul, a UNMISS trabalha para evitar o retorno à guerra civil, reforçando a segurança e promovendo o diálogo e a negociação nos âmbitos local e nacional. Na República Centro-Africana, a MINUSCA continua protegendo populações vulneráveis em todo o país e apoia os preparativos para as primeiras eleições locais em décadas. E, em Chipre, os(as) capacetes azuis da UNFICYP seguem reduzindo tensões e mantendo uma faixa de segurança para promover a estabilidade e a confiança entre comunidades.
Muitas dessas missões enfrentam desafios que refletem complexidades mais profundas: mandatos confusos ou de difícil execução, apoio político ambíguo em níveis local e internacional, ausência de uma definição clara sobre os resultados finais e um crescente desequilíbrio entre expectativas e recursos disponíveis.
Investir nas operações de paz
O ano de 2025 é decisivo. Enquanto celebramos o 80º aniversário da ONU, a Alemanha — parceira histórica das operações de paz — sediou, neste mês, uma Reunião Ministerial de Operações de Paz da ONU, em Berlim. Ministros(as) da Defesa e das Relações Exteriores de todo o mundo se reuniram para declarar seu apoio inequívoco e concreto aos capacetes azuis. Mais da metade das 130 delegações presentes fizeram promessas tangíveis para fortalecer as missões, torná-las mais seguras e mais eficazes.
Foram debatidos o futuro das missões de paz e formas de reformar esse instrumento para garantir que nossas operações sigam sendo adaptáveis, inovadoras, economicamente eficientes e resilientes. Assim como aconteceu na Namíbia no início dos anos 1990, as operações de paz da ONU sempre se adaptaram e alcançaram resultados em contextos em constante mudança. A partir de agora, será necessário aproveitar esse impulso para garantir que as operações sejam mais enxutas, eficientes e adequadas às necessidades atuais.
É fundamental destacar que as operações de paz não são apenas uma ferramenta que salva vidas — são um investimento inteligente. Geram retorno, reduzem a violência e ajudam a construir uma paz duradoura. Do Camboja ao Timor-Leste, de El Salvador à Libéria, as operações de paz da ONU apoiaram transições da guerra para a paz, a um custo ínfimo se comparado aos gastos militares globais. Essas conquistas não são apenas registros históricos: são a base da estabilidade regional.
As operações de paz da ONU precisam — e vão — continuar evoluindo. As missões poderão ser implantadas em parceria ou com o apoio de organizações regionais, como a União Africana. Poderão ser menores, mais tecnológicas e mais especializadas. Mas seu propósito central continuará sendo o mesmo: apoiar soluções políticas, proteger os mais vulneráveis e abrir caminho para uma paz sustentável.
Se a história nos ensina algo, é que as operações de paz podem alcançar resultados quando recebem os investimentos necessários e quando mantemos o compromisso. O sucesso se mede não apenas pelo que acontece, mas também pelo que é evitado: violências que não ocorreram, escaladas que foram prevenidas e espaços que foram abertos para a diplomacia funcionar.
Ignorar essa verdade, conquistada com muito esforço, seria um erro com consequências graves — o fechamento das missões no Mali, no Sudão e no Haiti, e a escalada da violência nesses países, são exemplos claros. Para não cair nessa armadilha, é essencial manter prontidão e capacidade para atuar rapidamente, sempre que formos chamados.
Há 35 anos, o mundo se uniu para lançar o UNTAG, uma missão de paz inovadora que ajudou a Namíbia a trilhar seu caminho como nação independente. Hoje, esse mesmo espírito de unidade, inovação e determinação é mais uma vez necessário. Se falharmos agora, corremos o risco de colocar a perder décadas de progresso e as esperanças de milhões de pessoas que dependem das operações de paz para proteger seu futuro.
Para saber mais, siga @unpeacekeeping nas redes e visite a página especial da ONU Brasil sobre as Forças de Manutenção da Paz das Nações Unidas.