Guterres: “Estamos caminhando para um mundo multipolar. Esta é uma realidade – e uma oportunidade.”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), em Tianjin, na China, em 1° de setembro de 2025.
Excelentíssimo Presidente Xi Jinping,
Excelências,
É um privilégio dirigir-me à Organização de Cooperação de Xangai – a maior organização regional do mundo em termos de população e geografia.
Estamos caminhando para um mundo multipolar.
Esta é uma realidade – e uma oportunidade.
As economias emergentes estão remodelando o comércio, a diplomacia e o desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, vemos injustiças e divisões cada vez maiores.
Precisamos de uma liderança baseada em princípios para fortalecer o multilateralismo, defender o Estado de Direito e atender às necessidades das pessoas – conforme refletido no Pacto para o Futuro.
A Organização de Cooperação de Xangai está em uma posição única para ajudar a moldar um futuro mais pacífico, inclusivo e sustentável.
Permitam-me destacar quatro prioridades.
Primeiro – paz e segurança.
Em Gaza, a escala de mortes e destruição é terrível – e a fome agora está devastando a população.
Precisamos de um cessar-fogo imediato e permanente; da libertação imediata e incondicional de todos os reféns; e de acesso humanitário sem obstáculos, seguro e sustentável.
Chega de obstáculos. Chega de desculpas. Chega de mentiras.
E devemos avançar com medidas concretas e irreversíveis em direção a uma solução de dois Estados — o único caminho para uma paz justa e duradoura tanto para os palestinos como para os israelenses.
Na Ucrânia, já é mais do que tempo de um cessar-fogo que conduza a uma paz justa, abrangente e sustentável — em conformidade com a Carta das Nações Unidas, o direito internacional e as resoluções da ONU.
Do Sudão a Mianmar, ao Sahel, ao Afeganistão e além... devemos proteger a população civil, promover o diálogo e garantir a paz.
A liderança da Organização de Cooperação de Xangai na diplomacia e na redução das tensões é essencial, assim como seus esforços contra o terrorismo e as ameaças transnacionais.
Segundo – desenvolvimento sustentável e finanças.
A dívida, a desigualdade e outras crises estão revertendo os ganhos do desenvolvimento.
A Organização de Cooperação de Xangai está trabalhando para catalisar investimentos sustentáveis.
Mas os esforços regionais devem ser acompanhados por reformas globais.
Já não estamos em 1945 – e as nossas instituições devem refletir as realidades atuais.
Isso significa:
- Uma reforma da arquitetura financeira internacional que garanta uma representação justa dos países em desenvolvimento.
- Triplicar a capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento.
- Proporcionar um alívio real da dívida e mobiliza capital privado em grande escala.
Sua voz coletiva pode ajudar a transformar essas reformas em realidade.
Terceiro – ação climática.
Esta região abriga mais de três bilhões de pessoas – incluindo muitas comunidades vulneráveis à mudança climática.
Calor extremo. Derretimento de geleiras. Inundações. Secas.
Estamos chegando a um ponto crítico e precisamos de reduções significativas nas emissões.
Os países do G20 — responsáveis por 80% das emissões globais — devem liderar.
O princípio de responsabilidades comuns, mas diferenciadas, deve ser respeitado — mas todos os países devem fazer um esforço extra.
Isso significa apresentar novas Contribuições Nacionalmente Determinadas antes da COP30 – alinhadas com o limite de 1,5 grau e com as metas globais de duplicar a eficiência energética e triplicar as energias renováveis até 2030.
Convidei os líderes a apresentarem planos climáticos nacionais ambiciosos num Evento Especial sobre Ação Climática, a 24 de setembro. Espero vê-los lá.
Também devemos definir um caminho claro para entregar US$ 1,3 trilhão até 2030.
Os países desenvolvidos devem honrar seus compromissos.
E precisamos de um avanço na adaptação.
Dobrar o financiamento para adaptação.
Ampliar os sistemas de alerta precoce.
Construir infraestruturas resilientes.
E devemos buscar uma eliminação gradual justa dos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que aceleramos a revolução das energias renováveis.
Sua cooperação é fundamental para essa transição.
Quarto – e último – cooperação digital.
As novas tecnologias trazem oportunidades – e riscos.
Precisamos de barreiras de proteção para garantir segurança, inclusão e confiança.
A Assembleia Geral acaba de criar um Painel Científico Internacional Independente – para conectar ciência e política – e um Diálogo Global sobre Governança da IA – para dar voz a todos os países e evitar a fragmentação.
Esses mecanismos representam um avanço para a cooperação global em IA – aproveitando o poder de convocação único das Nações Unidas.
Também apresentamos opções inovadoras de financiamento voluntário para fortalecer a capacidade de IA nos países em desenvolvimento.
Mais uma vez, suas iniciativas podem ajudar a moldar abordagens baseadas na inclusão, interoperabilidade e direitos humanos.
Excelências,
Ao comemorarmos o 80º aniversário das Nações Unidas, devemos fortalecer a cooperação internacional para o século 21 e sempre colocar as pessoas em primeiro lugar.
Nesse espírito, saúdo a Iniciativa de Governança Global da China, anunciada hoje, e o fato de ela estar ancorada no multilateralismo e ressaltar a importância de salvaguardar o sistema internacional com a ONU em seu núcleo e a ordem internacional sustentada pelo direito internacional.
Juntos e juntas, vamos dar vida à promessa da Carta da ONU e trabalhar por um futuro de paz, dignidade e solidariedade.
Obrigado.