Nações Unidas e COP30 mobilizam Mutirão Global contra o Calor Extremo
Entidades da ONU Brasil estão desenvolvendo parcerias em todo o país para acelerar soluções locais contra o calor extremo e promover o resfriamento sustentável.
Liderado pela presidência brasileira da COP30, o Mutirão Global contra o Calor Extremo é uma mobilização internacional para proteger as pessoas, as cidades e o planeta das consequências devastadoras de ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes.
O ano de 2024 entrou para a história — e não pelos motivos de que gostaríamos. Foi o ano mais quente já registrado no planeta. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), pela primeira vez, a temperatura média da superfície da Terra ficou 1,55°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando o limite de 1,5°C definido pelo Acordo de Paris. E o mais alarmante: não foi um evento isolado. A última década também foi a mais quente desde que há registros.
As consequências estão em toda parte. Ondas de calor que antes eram raras agora se tornaram frequentes. Elas colocam em risco a saúde das pessoas, ameaçam a segurança alimentar, danificam infraestruturas urbanas e tornam o trabalho ao ar livre cada vez mais perigoso. Nas cidades, onde o concreto e o asfalto retêm o calor, os impactos recaem de forma desigual — afetando sobretudo idosos, crianças e moradores das periferias urbanas.
Diante dessa realidade, surge também um movimento de união. Em junho de 2025, a Presidência brasileira da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30), em parceria com a Cool Coalition do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), lançou o Mutirão Global contra o Calor Extremo — uma mobilização internacional para transformar preocupação em ação concreta.
A iniciativa é parte estratégica da COP30, que acontece de 10 a 21 de novembro em Belém do Pará. Seu objetivo é acelerar soluções locais para o calor extremo e promover o resfriamento sustentável, fortalecendo a resiliência das cidades frente à crise climática.
“(Beat the Heat) é uma dessas iniciativas que mostra que o mutirão funciona, ou seja, as pessoas têm que se juntar e trabalhar naquilo que elas entendem. E o Beat The Heat é isso. Levantou um tema de uma maneira atraente e que vai trazer as pessoas para realizar o esforço que a gente tem que fazer pra combater a mudança do clima”, disse o Embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30.
Entre os compromissos do Mutirão estão:
- Avaliar a vulnerabilidade ao calor urbano e integrar soluções aos planos climáticos municipais;
- Implementar projetos de resfriamento passivo e soluções baseadas na natureza;
- Adotar tecnologias eficientes de resfriamento em prédios públicos;
- Promover códigos de construção e energia que aumentem a resiliência urbana.
No Brasil, o Mutirão está inserido no Programa Cidades Verdes Resilientes, uma iniciativa do Governo Federal coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Ministério das Cidades e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
O programa busca dar visibilidade a soluções inovadoras de resfriamento sustentável, mapear iniciativas que precisam de apoio técnico ou financeiro e impulsionar ações locais alinhadas às metas climáticas nacionais e ao Compromisso Global pelo Resfriamento Sustentável - uma iniciativa da COP28 que visa reduzir as emissões relacionadas com a refrigeração em 68% até 2050, aumentar significativamente o acesso à refrigeração sustentável até 2030 e aumentar a eficiência média global dos novos aparelhos de ar condicionado em 50%.
Países, cidades, parceiros técnicos e organizações estão convidados a participar
Diante do avanço do calor extremo, não há tempo a perder. A adesão ao Mutirão está aberta a todos os países, sejam ou não signatários do Compromisso Global de Resfriamento. Cada governo é convidado a indicar ao menos uma cidade para participar — e municípios, parceiros técnicos e organizações locais também podem se inscrever diretamente. Os interessados devem preencher o formulário disponível na página da iniciativa.
A transformação começa em cada cidade, em cada bairro, em cada iniciativa.
ONU trabalha para mitigar os impactos do calor extremo em todo o Brasil
Das cidades amazônicas às capitais do sudeste, o aumento das temperaturas transforma rotinas, desafia os serviços públicos e ameaça vidas. Em resposta a esta situação, agências, fundos e programas da ONU estão unindo forças para apoiar soluções concretas que ajudem o país a se adaptar e resistir ao calor extremo.
No coração da Amazônia, o município de Barcarena (PA) é um exemplo dessa transformação. Ali, o calor deixou de ser apenas um incômodo para se tornar um risco diário. As temperaturas mais altas afetam o trabalho, a saúde e o descanso das famílias. Profissionais de saúde relatam um aumento de casos de desidratação, doenças de pele e crises respiratórias. À noite, o calor sufocante impede o sono; durante o dia, atividades simples se tornam um desafio.
Apesar dos desafios, Barcarena também se tornou símbolo de resiliência e está entre os signatários do Compromisso Global pelo Resfriamento. O município é parte da iniciativa Construindo Cidades Resilientes, do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR) — uma rede global que apoia governos locais na prevenção e adaptação aos riscos climáticos.
Em 2023, Barcarena foi reconhecida como o primeiro Hub de Resiliência da Amazônia, um marco histórico para a região. A cidade vem implementando políticas públicas alinhadas à Agenda 2030 e ao Marco de Sendai, fortalecendo sua capacidade de enfrentar eventos extremos, desde enchentes até ondas de calor.
A pouco mais de 100 quilômetros dali, na Ilha de Caratateua, vive João Victor, de 16 anos. O calor na escola, os incêndios que ameaçam as casas e as chuvas torrenciais que alagam as ruas fazem parte de sua rotina. Mas João transformou a dor em propósito.
Conhecido como João do Clima, ele se tornou Conselheiro Jovem do UNICEF Brasil, representando a juventude amazônica em espaços nacionais e internacionais. Sua luta é por justiça climática — pelos rios, pelas florestas e pelas pessoas que, como sua mãe, perderam a vida em meio às desigualdades e aos impactos ambientais. Sua história ecoa o grito de uma geração que enfrenta, na pele, a desigualdade e a crise ambiental.
Enquanto histórias como a de João se multiplicam pelo país, a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) trabalha lado a lado com o Ministério da Saúde para preparar o sistema de saúde brasileiro frente às emergências provocadas pelo calor extremo. O trabalho inclui oficinas técnicas com secretarias estaduais e municipais de saúde, planos de contingência e a incorporação do evento de “exposição ao calor extremo” (EHF) nos sistemas de vigilância.
A OPAS/OMS também tem apoiado a elaboração de diretrizes nacionais e o desenvolvimento de evidências científicas que fortalecem os sistemas de alerta e resposta às ondas de calor, promovendo uma abordagem integrada para proteger as pessoas mais vulneráveis.
O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) também atua para integrar a perspectiva de gênero, a saúde sexual e reprodutiva e a igualdade de gênero nas políticas e debates sobre mudança climática. A agência tem liderado pesquisas e ações que evidenciam como eventos extremos — como ondas de calor — impactam de forma desproporcional a saúde e os direitos de mulheres e meninas, especialmente gestantes.
Um estudo, desenvolvido em parceria com a Agenda Teresina 2030, mostra que a exposição prolongada ao calor intenso aumenta os riscos de complicações na gravidez, como parto prematuro e pré-eclâmpsia. Além da produção de evidências, o Fundo tem promovido advocacy global e nacional por meio de iniciativas como o Chamado à Ação de Brasília, que demanda mais financiamento climático direcionado a mulheres e meninas e a inclusão da saúde sexual e reprodutiva nos planos de ação climática, incluindo a COP30.
Do Pará ao Planalto Central, das comunidades ribeirinhas às grandes cidades, o país aquece — mas também reage. Essas iniciativas — da resiliência urbana à saúde pública, passando pela mobilização da juventude — mostram que enfrentar o calor extremo no Brasil exige mais do que adaptação: exige um Mutirão, colaboração, conhecimento e coragem para transformar o futuro.
Para saber mais, siga @onubrasil nas redes e visite a página especial da ONU Brasil sobre a COP30.