Guterres: “A desigualdade se tornou um câncer em nossas sociedades”
Coletiva de imprensa com o secretário-geral da ONU, António Guterres, na Cúpula de Líderes do G20, em Johannesburgo, África do Sul, em 21 de novembro de 2025.
Senhoras e senhores da imprensa,
Agradeço ao presidente Ramaphosa e ao povo da África do Sul pela calorosa recepção e por sediar a Cúpula do G20.
Minha mensagem aos líderes do G20 nos próximos dois dias é simples: Agora é hora de liderança e visão.
Estamos vivendo tempos turbulentos.
Conflitos, caos climático, incerteza econômica, dívida crescente, desigualdade e colapso da ajuda global estão causando sofrimento em grande escala em todo o mundo.
E o aumento dos gastos militares está desviando recursos do desenvolvimento.
Como as maiores economias do mundo, o G20 pode exercer uma enorme influência para aliviar o sofrimento, garantir que o crescimento econômico seja amplamente compartilhado e colocar nosso mundo em um caminho melhor e mais pacífico para o futuro.
O tema da reunião deste ano – “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade” – aponta o caminho.
Nos próximos dois dias, pedirei aos membros do G20 que usem sua influência para liderar as ações de que precisamos.
Primeiro – precisamos de ação econômica.
Os países em desenvolvimento — em particular na África — estão sofrendo com uma tempestade perfeita de redução do espaço fiscal, dívidas esmagadoras e uma arquitetura financeira global que não consegue apoiá-los — ou mesmo representá-los — adequadamente.
A África foi duplamente vítima do colonialismo.
Primeiro, através de séculos de exploração e pilhagem.
E, novamente, quando as instituições internacionais foram criadas — quando a maioria dos países africanos ainda estava sob domínio colonial e suas vozes estavam ausentes da mesa.
Hoje, a África continua lamentavelmente sub-representada nas instituições globais.
Isso precisa mudar.
O Pacto para o Futuro, adotado pelos Estados-membros no ano passado, apelou a uma reforma das instituições financeiras globais.
Muitas decisões estão desproporcionalmente nas mãos de alguns dos membros do G20 nos órgãos de governança dessas instituições.
A África deve ter um lugar justo em todos os fóruns onde as decisões são tomadas – desde os conselhos das instituições financeiras internacionais até o assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e outros órgãos globais.
O G20 pode ajudar a reparar esta injustiça histórica e impulsionar reformas que dêem aos países em desenvolvimento — e à África em particular — uma voz real na definição das políticas globais e tornem a governança econômica global mais inclusiva, representativa, equitativa e eficaz nos próximos anos.
Também solicitarei aos membros do G20 que cumpram os compromissos assumidos em junho na Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, em Sevilha, para liberar mais financiamento para os países em desenvolvimento:
-
Triplicar o poder de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento.
-
Aumentar seu papel na alavancagem de mais financiamento privado.
-
Aliviar o peso da dívida com novos instrumentos para reduzir os custos e riscos dos empréstimos e acelerar o apoio aos países que enfrentam dificuldades com a dívida, com base nas recomendações do meu grupo de especialistas em dívida.
-
Ajudar os países em desenvolvimento a fortalecer sua capacidade de mobilizar recursos internos.
-
E construir pontes comerciais, não barreiras comerciais.
Muitos países em desenvolvimento — especialmente na África — encontram-se na base das cadeias de valor ou excluídos das oportunidades comerciais.
Os membros do G20 podem liderar o caminho, desmantelando as barreiras comerciais e garantindo o acesso livre ao comércio em seus mercados para os países mais pobres.
Enquanto isso, a desigualdade se tornou um câncer em nossas sociedades, concentrando o poder e corroendo a confiança na democracia.
Elogio a Presidência do G20 por encomendar um relatório ousado sobre a desigualdade global.
Segundo – precisamos de ação climática.
A conferência climática COP30 demonstra quanto trabalho ainda precisa ser feito.
Os países não conseguiram manter o aumento da temperatura dentro do limite de 1,5 grau.
A ciência nos diz que agora é inevitável uma ultrapassagem temporária desse limite.
Devemos tornar essa ultrapassagem o menor, mais curta e mais segura possível.
Evitar mais caos climático significa preencher a lacuna de adaptação – com urgência.
Isso requer um aumento massivo do financiamento.
Os países desenvolvidos devem cumprir suas promessas:
-
Dobrando o financiamento para adaptação para pelo menos US$ 40 bilhões este ano – e dando confiança de que o financiamento para adaptação, significativamente aumentado, acessível e a preços razoáveis, será ampliado após 2025.
-
Mobilizando os US$ 300 bilhões por ano prometidos aos países em desenvolvimento até 2035.
-
Cumprindo o plano de Baku a Belém, mobilizando todos os parceiros relevantes para alcançar US$ 1,3 trilhão anualmente em financiamento climático e no mesmo prazo para os países em desenvolvimento.
Simultaneamente, é hora de capitalizar o Fundo de Perdas e Danos – incluindo a exploração de possibilidades de financiamento inovadoras.
Também precisamos impulsionar a transição justa para a energia renovável.
No ano passado, 90% da nova capacidade energética veio de fontes renováveis.
O investimento global em energia limpa atingiu US$ 2 trilhões – US$ 800 bilhões a mais do que os combustíveis fósseis.
Mas apenas uma proporção insignificante foi para a África.
A África deve estar no centro dessa revolução da energia limpa.
O continente possui um imenso potencial solar e eólico – mas carece dos investimentos necessários para aproveitá-los.
Uma transição energética justa também deve significar a eletrificação total da África – fornecendo energia para residências, escolas, clínicas e indústrias, e criando empregos decentes para seus jovens.
Ninguém deve ficar à margem da era da energia limpa – muito menos um continente que menos contribuiu para a crise climática.
A economia está do nosso lado.
Mas a vontade política precisa acompanhar.
Os combustíveis fósseis ainda recebem vultuosos subsídios.
As empresas estão embolsando lucros recordes com a devastação climática.
E os lobistas continuam fazendo greenwash/enganação verde para encobrir a verdade, enquanto os países em desenvolvimento são excluídos de um futuro mais verde.
Garantir que todos os países possam fazer essa mudança significa alinhar as políticas e os orçamentos nacionais com uma transição energética justa.
Significa fornecer recursos e tecnologia para ajudar os países em desenvolvimento a investir em redes, armazenamento e eficiência.
Significa apoiar os trabalhadores e as comunidades afetadas para fazer a transição, por meio de treinamento, proteção e novas oportunidades.
E significa desbloquear financiamento em grande escala para os países em desenvolvimento, reduzindo o custo do capital e atraindo investimentos privados.
Discutirei essas questões em detalhes com os líderes do G20 amanhã.
Por fim – precisamos de ações pela paz.
Pedirei aos membros do G20 que usem sua influência e suas vozes para acabar com os conflitos que estão causando tanta morte, destruição e desestabilização em todo o mundo.
Precisamos de paz no Sudão:
-
Pondo fim à carnificina e cessando imediatamente as hostilidades.
-
Através da entrega segura, sem impedimentos e rápida de ajuda humanitária aos civis necessitados em todo o Sudão.
-
Pondo fim ao fluxo de armas e combatentes para o Sudão por parte de entidades externas.
-
E com as Forças Armadas sudanesas e as Forças de Apoio Rápido sentando à mesa das negociações.
Precisamos de paz na República Democrática do Congo – através de uma solução duradoura que respeite a soberania e a integridade territorial do país, ao mesmo tempo que aborda as causas profundas da instabilidade e da violência.
Precisamos de segurança e paz no Sahel:
-
Grupos armados e redes terroristas continuam explorando a governança frágil e as tensões intercomunitárias, alimentando ciclos de violência que deslocaram milhões de pessoas e desestabilizaram comunidades inteiras.
-
Os alarmantes desenvolvimentos no Mali estão agravando ainda mais uma situação dramática, apresentando novos riscos para toda a região e para todo o continente.
-
Para fazer frente a esta situação de segurança grave, é necessário tomar medidas urgentes para restaurar a confiança e reforçar a cooperação entre os países da região.
É hora de os países da região se unirem e proporcionarem a estabilidade, a esperança e a paz que as populações do Sahel precisam e merecem.
Precisamos de uma paz justa, sustentável e abrangente na Ucrânia – em conformidade com a Carta das Nações Unidas, o direito internacional e as resoluções da Assembleia Geral.
Precisamos de paz em Gaza:
-
Respeitando o cessar-fogo, pondo fim às suas contínuas violações e implementando plenamente os compromissos do acordo de paz.
-
Estabelecendo um caminho político confiável para o fim da ocupação.
-
E realizando o direito à autodeterminação do povo palestino, levando a uma solução de dois Estados que permita que israelenses e palestinos vivam em paz e segurança, ancorada no direito internacional.
E em todos os lugares – do Haiti ao Iêmen, passando por Mianmar e além – devemos escolher a paz ancorada no direito internacional.
Senhoras e senhores da imprensa,
Espero que esta cúpula seja produtiva e agradeço ao governo e ao povo da África do Sul por suas calorosas boas-vindas.
Para saber mais, siga @nacoesunidas e @onubrasil nas redes e acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/tags/g20