Em São Paulo, gêmeos Guarani unem saneamento e tradição ancestral
Dois irmãos se dedicam a garantir a segurança hídrica em aldeias Guarani na maior cidade do Brasil
A cena já faz parte do cotidiano dos Guarani Mbya que vivem nas aldeias da Terra Indígena Jaraguá Kwaray Djekupe, na zona norte de São Paulo. Logo cedo, quando os primeiros raios de sol dissipam a neblina sobre a vasta vegetação, os gêmeos Karai Poty e Karai Mirim, de 37 anos — conhecidos em português como Anderson Augusto Vilar Martim e André Augusto Vilar Martim — caminham entre as casas e as matas. Com atenção e cuidado, observam as condições de saneamento, em atividades que unem o trabalho técnico ao respeito pela cultura Guarani.
Munidos de pás, enxadas, luvas de borracha e peças hidráulicas, eles atuam como agentes de saneamento indígenas. Porém, o cuidado com a água não se limita à saúde pública: é entendido também como uma conexão espiritual fundamental para a vida no território.
“Acreditamos que há espíritos em tudo: nos objetos, na mata, em cada ser. Cada elemento da natureza nos fortalece quando entramos em contato com ele. E com a água não é diferente”, explica André. “A água é vida, é parte de nós. Diante de uma cachoeira ou de uma nascente, mergulhamos logo cedo para renovar o espírito e começar bem o dia”, completa Anderson.
Vocação para o saneamento
A vida da comunidade, que utiliza a terra para o cultivo e a criação de animais, sempre foi ritmada pelo córrego Ribeirão Vermelho, que atravessa a mata e servia como fonte de água, alimento e força espiritual. Atualmente o ribeirão encontra-se poluído e está impróprio para banho e consumo, realidade que motivou os gêmeos a transformar a lamentação em ação.
O trabalho dos irmãos com o saneamento começou de formas diferentes. Anderson foi o primeiro: iniciou sua trajetória em 2016, quando foi selecionado para a vaga de agente de saneamento indígena na Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) Aldeia Jaraguá Kwaray Djekup, unidade da Secretaria Municipal da Saúde voltada à população indígena e administrada pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM/PAIS). Desde então, sua rotina envolve a implementação e o monitoramento de sistemas de saneamento básico, como nascentes e poços artesianos, fossas sépticas, banheiros comunitários, vias de drenagem e soluções de coleta de resíduos.
Muitas pessoas que vivem na Terra Indígena Jaraguá não falam português. Por isso, e pelo fato de serem membros das aldeias, os agentes de saneamento conquistam a confiança dos habitantes e desempenham um papel essencial no cuidado com as estruturas domiciliares e na comunicação com o poder público. “Conversamos com os moradores na língua guarani mbya e temos acesso às casas para avaliar os problemas e pensar juntos nas melhores soluções”, explica Anderson.
Outro aspecto importante de seu trabalho é a busca de recursos junto a órgãos públicos, organizações de saúde e comunidades parceiras. “O papel de agente de saneamento dá legitimidade para participar de reuniões, correr atrás e resolver problemas”, comenta.
“Posso ir a autoridades, políticos e outras lideranças para pedir recursos e apoio. Não dá para ficar parado esperando.”
Sua trajetória ganhou um novo capítulo com a chegada de André. Inspirado pelo trabalho do irmão, decidiu seguir o mesmo caminho e, desde agosto, passou a atuar como o segundo agente de saneamento da unidade de saúde indígena. Antes disso, André trabalhava como auxiliar de limpeza no mesmo local, e foi ali, entre corredores e pátios, que começou a perceber com mais clareza a ligação entre o saneamento e a saúde da comunidade — e entendeu que poderia ser um multiplicador de boas práticas.
“Eu via o quanto as pessoas sofriam com surtos de dengue e outros problemas. Agora posso organizar grupos para fazer mutirões de limpeza e eliminar focos. É diferente quando a gente atua junto, mobilizando as aldeias e envolvendo todo mundo nesse cuidado”, conta André.
Outra motivação é integrar a educação ambiental às tradições do povo Guarani. “Falamos principalmente sobre cuidar do território e da água, manter as nascentes limpas, zelar pelas fossas e não jogar resíduos nos rios, sempre pensando na nossa conexão com os elementos da terra”, explica.
“Quando a água está limpa e o lugar está em equilíbrio, o espírito da comunidade também se fortalece.”
Laços com o território
O empenho dos irmãos tem como inspiração sua avó, Kerexu, chamada em português de Jandira Augusta Venício, uma das fundadoras da Terra Indígena Jaraguá e reconhecida como uma das primeiras mulheres a ocupar o papel de cacica no Brasil.
Ao longo das décadas de 1970 e 1980, outras famílias Guarani Mbya vindas do Paraná, do litoral e do sul do país se juntaram a eles, consolidando a presença indígena na região. Com o avanço da urbanização no entorno e a morte do marido, Jandira assumiu a liderança da aldeia, articulando demandas por educação, saúde e reconhecimento territorial em meio à pressão crescente da cidade.
Um dos marcos de sua luta ocorreu em 1987, com a primeira demarcação da terra. Porém, de forma insatisfatória, apenas 1,7 hectare foi oficialmente demarcado, o equivalente a pouco mais de dois campos de futebol, o que transformou a área na menor terra indígena do país. Após diversas tentativas na Justiça para ampliar essa área, um importante avanço aconteceu 37 anos depois, em 2024, quando o Ministério da Justiça declarou a posse de 532 hectares. Trata-se, porém, da segunda de cinco etapas do processo de demarcação almejado.
Os gêmeos cresceram acompanhando a liderança da avó, cuja força e determinação seguem como referência. “Ela tinha um modo de lutar pela terra e de ir diretamente às autoridades em busca da demarcação. E fazia isso em plena ditadura militar”, recorda Anderson. “Ela lutou por cada pedaço desta terra e pela vida do povo. Ela nos inspira”, emenda André.
Jandira e seu marido, Kuaray Augusto (Joaquim Augusto Martins), fundaram no final dos anos 1950 a primeira aldeia da Terra Indígena Jaraguá: a Tekoa Ytu, o “Lugar da Cachoeira”, em referência às nascentes e córregos então abundantes.
A ação do casal marcou a reocupação do território Guarani Mbya na região, após séculos de expulsões desde a colonização portuguesa. A terra, situada ao lado do Pico do Jaraguá — o ponto mais alto de São Paulo —, tem um significado central na cosmologia guarani, sendo considerada uma “terra de passagem” na busca ancestral pela terra sem males, um espaço mítico de plenitude e harmonia espiritual.
Lições para o saneamento de São Paulo
O trabalho dos gêmeos foi essencial para conectar as demandas da aldeia ao processo de diagnóstico do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado, que está sendo desenvolvido em uma parceria do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) e da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo. Recentemente, representantes das instituições visitaram a Terra Indígena Jaraguá para conhecer de perto a situação local.
O plano vai orientar as ações de saneamento da cidade nos próximos anos, oferecendo diretrizes para o planejamento, a execução e o monitoramento de políticas públicas relacionadas à água, esgoto, drenagem urbana e resíduos sólidos. O documento vai incluir pareceres técnicos, indicadores socioambientais e propostas construídas junto à população para enfrentar desafios históricos e avançar em soluções mais eficientes, sustentáveis e inclusivas.
A elaboração do plano envolve diversas etapas de participação social. Entre julho e setembro, foram realizadas 33 oficinas presenciais em toda a capital paulista. Ao todo, 1.199 pessoas participaram das atividades, que resultaram em 615 contribuições sobre diversos temas do saneamento. Nesse contexto, ouvir os diferentes grupos que compõem a população, como os indígenas, é essencial.
“As práticas, os saberes indígenas e sua relação com a água nos ajudam a repensar a abordagem do saneamento de forma mais integrada, considerando o território, a cultura e o modo de vida de cada comunidade. Essa escuta é essencial para construir soluções que respeitem as diferentes realidades da cidade”, afirma o coordenador do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado no ONU-Habitat, Lucas Daniel Ferreira.
Outra diretriz do plano é a atenção especial aos territórios em situação de vulnerabilidade socioambiental, como a Terra Indígena Jaraguá, catalisando o trabalho dos agentes de saneamento e incorporando suas preocupações no planejamento da cidade. Além da poluição no córrego Ribeirão Vermelho causada pela ocupação urbana no entorno, a região enfrenta interrupções no fornecimento de água pela rede pública, vazamentos e falta de conservação em fossas sépticas.
“Há fossas que ficam entupidas e precisam de bombeamento para serem esvaziadas. Algumas ficam muito cheias, acabam vazando e gerando mau cheiro”, comenta André.
Esses desafios reforçam a necessidade de políticas públicas integradas e de ações contínuas de prevenção, manutenção e investimento em infraestrutura. “A realidade da Terra Indígena Jaraguá evidencia tanto os desafios quanto as oportunidades relacionadas à universalização do acesso à água de qualidade, ao tratamento e à destinação correta do esgoto, e à requalificação dos corpos d’água em articulação com o meio ambiente e seus múltiplos usos”, destaca a coordenadora de Segurança Hídrica da SMUL-SP, Amanda de Almeida Ribeiro.
Além do plano de saneamento, o ONU-Habitat também apoia a Prefeitura na elaboração do Plano de Gestão Integrada de Resíduos, que reúne diretrizes para a geração, separação, coleta, transporte, tratamento e destinação final dos resíduos sólidos urbanos. O plano abrange ainda a limpeza pública, a gestão de resíduos especiais, o trabalho de catadores e cooperativas, a reciclagem e a logística reversa.
O olhar para o futuro
O saneamento na Terra Indígena Jaraguá também traz exemplos de inovação no saneamento em sintonia com a sustentabilidade. Entre as casas e o verde do território, Anderson e André constroem banheiros comunitários equipados com sistemas de vermifiltro, uma solução ecológica que utiliza minhocas para transformar resíduos orgânicos em biofertilizante, filtrando a água por meio de camadas de pedra e areia.
De olho no futuro, mas guiados pelas memórias, os irmãos acompanham o planejamento de um novo projeto que busca atender às necessidades hídricas das aldeias e resgatar tradições: um lago comunitário. Além de servir ao plantio e ao abastecimento, a iniciativa responde a um desejo coletivo do povo Guarani Mbya de restabelecer a relação ancestral com a água.
“No passado, todo indígena sabia nadar. Mas hoje alguns jovens já não sabem, porque não têm acesso às águas. É um grande impacto para a nossa cultura não poder ensinar as crianças a mergulhar e pescar do jeito ancestral”, lamenta Anderson.
O córrego Ribeirão Vermelho, cuja degradação despertou nos irmãos a vocação para o saneamento, continua servindo de inspiração, agora em forma de sonho: o de vê-lo despoluído. “Cuidamos do rio, tentamos mantê-lo limpo. Já buscamos várias formas de recuperação, mas é difícil”, conta André.
“Mas os espíritos continuam ali. Um dia, o rio renascerá.”
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