Prioridades das Nações Unidas para 2026
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, sobre as prioridades das Nações Unidas para 2026.
Excelências,
Feliz Ano Novo.
Desejo a vocês e às suas famílias paz e saúde em 2026.
É tradição que o secretário-geral compareça perante à Assembleia Geral e apresente as prioridades para o ano que se inicia.
Hoje, faço isso pela última vez.
Gostaria de garantir a vocês que farei com que cada dia de 2026 valha a pena.
Estou totalmente comprometido e determinado a continuar trabalhando, lutando e pressionando por um mundo melhor, que sabemos ser possível.
Já tivemos o privilégio de ouvir a presidente da Assembleia Geral apresentando ontem a agenda para este ano.
E não faltam tarefas urgentes diante de nós – especialmente à medida que desenvolvemos o Pacto para o Futuro e a Iniciativa ONU80.
Portanto, hoje, quero usar este momento tradicional para algo um pouco não tradicional.
Quero olhar não apenas para este ano, mas para além dele — e falar com sinceridade sobre as forças e as megatendências que moldam nosso mundo, bem como os desafios mais profundos que devemos enfrentar.
Em vez de uma lista de controle, quero me concentrar em três princípios que devem orientar nosso trabalho.
Mas deixem-me começar pelo contexto.
Excelências, sejamos claros.
O contexto é caótico.
Vivemos em um mundo repleto de conflitos, impunidade, desigualdade e imprevisibilidade.
Um mundo marcado por divisões geopolíticas autodestrutivas... violações descaradas do direito internacional... e cortes generalizados no desenvolvimento e na ajuda humanitária.
Essas e outras forças estão abalando os alicerces da cooperação global e testando a resiliência do próprio multilateralismo.
Esse é o paradoxo da nossa era: num momento em que mais precisamos da cooperação internacional, parecemos estar menos inclinados a utilizá-la e a investir nela.
Alguns procuram colocar a cooperação internacional em estado terminal.
Posso garantir para vocês: não vamos desistir.
Estamos totalmente comprometidos com a causa da paz em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e muito além — e incansáveis em fornecer ajuda vital àqueles que precisam desesperadamente de apoio.
E reconheçamos que, mesmo nesta turbulência, conseguimos conquistar espaço para as Nações Unidas onde isso não era garantido:
- Demos um passo à frente para ajudar a moldar o debate global sobre inteligência artificial – insistindo que essas forças poderosas sirvam à humanidade e defendam a dignidade humana.
- Temos estado na linha de frente dos esforços para garantir um financiamento justo e sustentável para o desenvolvimento, pressionando por reformas e novos mecanismos para não deixar nenhum país para trás.
- Temos sido francos sobre a necessidade urgente de ação climática, exigindo ambição e trabalhando para mobilizar governos, empresas e a sociedade civil.
Em todos os lugares, buscamos destacar as necessidades das pessoas e dos países mais vulneráveis.
E continuaremos pressionando em todas essas áreas e muito mais este ano.
Somente nas próximas semanas, faremos o seguinte:
- Lançar o Painel Científico Independente sobre Inteligência Artificial para fornecer avaliações imparciais e baseadas em evidências sobre as oportunidades, riscos e impactos da IA;
- Apresentar as recomendações do Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre Além do PIB para oferecer novas maneiras de medir o progresso e o bem-estar e refletir melhor o que realmente importa para as pessoas e o planeta;
- Iniciar uma série de reuniões mensais com vocês sobre a Iniciativa UN80 para promover nosso diálogo e cooperação contínuos, a fim de melhor preparar a ONU para o futuro;
- Apresentar avaliações iniciais sobre as possíveis fusões do PNUD com o UNOPS, bem como da ONU Mulheres com o UNFPA, para aumentar a eficiência e a coerência em nosso trabalho de desenvolvimento;
- E avançar na revisão das operações de paz para torná-las mais eficazes, responsivas e adequadas aos complexos desafios atuais.
Esta é apenas uma pequena amostra de algumas das próximas etapas imediatas.
Em todos os setores, estamos avançando a todo vapor.
Excelências,
Estamos trabalhando em uma época de mudanças dramáticas – e precisamos refletir o mundo como ele é.
As rupturas não precisam ser destrutivas.
Elas também podem ser uma força construtiva.
A Iniciativa UN80 visa construir um sistema da ONU que funcione de forma mais eficaz, mais coerente e com maior impacto, num contexto de recursos cada vez mais escassos e necessidades crescentes.
Sim, a reforma diz respeito aos recursos – e à utilização eficaz e eficiente desses recursos.
Os orçamentos são importantes – mas apenas se todos os Estados-membros pagarem as suas contribuições na totalidade e em tempo útil.
A situação atual é totalmente insustentável.
Ou todos os países, sem exceção, honram suas obrigações financeiras nos termos da Carta — o que parece não ser mais o caso. Ou os Estados-membros devem reformular nossas regras financeiras para evitar um colapso orçamentário.
Escreverei a vocês com mais detalhes sobre esse assunto.
Mas a reforma deve ser muito mais do que números em uma planilha.
A reforma deve incidir sobre instituições que reflitam o mundo atual.
A resolução de problemas de 1945 não resolverá os problemas de 2026.
Se as estruturas não refletirem os nossos tempos, o nosso mundo, as nossas realidades – elas perderão legitimidade.
Considere os fatos:
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Todos os dias, a parte do PIB mundial detida pelas economias desenvolvidas diminui, pouco a pouco.
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Todos os dias, as economias emergentes crescem — em tamanho, em força, em influência.
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Todos os dias, o comércio Sul-Sul ultrapassa cada vez mais o comércio Norte-Norte.
Nossas estruturas devem refletir esse mundo em transformação.
É por isso que reformar as instituições financeiras e comerciais internacionais não é apenas importante; é essencial.
O mesmo vale para o Conselho de Segurança.
E eu acrescentaria que é claramente do interesse daqueles que detêm mais poder estar na linha de frente da reforma.
Aqueles que tentam se agarrar aos privilégios hoje correm o risco de pagar o preço amanhã.
Portanto, todos nós devemos ser ousados o suficiente para mudar. O mundo não está esperando. Nós também não devemos esperar.
Excelências,
À medida que avançamos nas reformas, nossa missão maior deve ser encontrar nosso rumo neste mundo desorientador.
Deixe-me resumir isso em três princípios que devem ser a base de todas as nossas ações — não apenas para este ano, mas para os nossos tempos.
1. Primeiro, devemos aderir à Carta das Nações Unidas – de forma plena e fiel. Sem “se”, sem “mas”, sem “poréns”.
A Carta é um pacto que nos une a todos e todas.
Não é um menu à la carte; é um menu fixo.
A Carta é a base das relações internacionais – o alicerce da paz, do desenvolvimento sustentável e dos direitos humanos.
Tenho a honra de servir como guardião da Carta.
Mas cada um de vocês também se comprometeu a ser um guardião da Carta.
Quando os líderes ignoram o direito internacional — quando escolhem quais regras seguir — eles não estão apenas minando a ordem global, mas também estabelecendo um precedente perigoso.
E sejamos claros:
A erosão do direito internacional não está acontecendo nas sombras.
Está se desenrolando diante dos olhos do mundo, em nossas telas, ao vivo em 4K.
Pessoas em todos os lugares estão testemunhando, em tempo real, as consequências da impunidade – o uso ilegal e a ameaça da força; ataques a civis, trabalhadores humanitários e funcionários da ONU; mudanças inconstitucionais de governo; o atropelo dos direitos humanos; o silenciamento da oposição; a pilhagem de recursos.
E os perigos não se limitam aos Estados ou às partes beligerantes.
Eles estão sendo amplificados pela ganância e pela desigualdade sem limites.
Os 1% mais ricos detêm 43% dos ativos financeiros globais. E somente no ano passado, as 500 pessoas mais ricas aumentaram suas fortunas em US$ 2,2 trilhões.
Cada vez mais, vemos um mundo em que os ultra-ricos e as empresas que eles controlam estão tomando as decisões como nunca antes – exercendo uma influência desproporcional sobre as economias, as informações e até mesmo as regras que nos governam.
Quando um punhado de indivíduos pode distorcer narrativas globais, influenciar eleições ou ditar os termos do debate público, não estamos apenas enfrentando a desigualdade – estamos enfrentando a corrupção das instituições e dos nossos valores compartilhados.
Basta olhar para a inteligência artificial e os algoritmos que moldam nossas vidas.
Eles são importantes demais para serem controlados apenas por algumas empresas ou otimizados apenas para monetizar a atenção e a indignação.
Por exemplo, como protegemos nossas crianças da tirania do algoritmo?
Devemos garantir que a humanidade conduza a tecnologia, e não o contrário.
Agradeço o apoio ao Painel Científico Independente sobre IA e ao Diálogo Global sobre Governança da IA. Precisamos continuar trabalhando para construir barreiras de proteção, responsabilidade, padrões compartilhados e a capacidade de superar a divisão da IA.
A concentração de poder e riqueza em tão poucas mãos é moralmente indefensável.
Mais do que isso, é um perigo claro e presente para a Carta e a promessa de direitos iguais e dignidade para todos.
2. Isso nos leva ao segundo princípio. Devemos ser incansáveis em nosso trabalho pela paz com justiça – paz entre as nações e paz com a natureza.
A paz está no centro de tudo o que fazemos.
No entanto, enquanto nos reunimos hoje, as armadilhas do conflito prendem milhões de membros da família humana em ciclos miseráveis e prolongados de violência, fome e deslocamento.
O sofrimento não pode continuar.
Em Gaza – saúdo o início da Fase Dois do cessar-fogo, anunciado pelos EUA – e reitero que a ajuda humanitária deve fluir sem impedimentos, o cessar-fogo deve ser implementado na íntegra e o caminho deve ser aberto para uma solução irreversível de dois Estados, de acordo com o direito internacional.
Na Ucrânia – onde não devemos poupar esforços para parar os combates e alcançar uma paz justa e duradoura, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, o direito internacional e as resoluções da ONU.
No Sudão – onde as partes devem chegar a acordo sobre a cessação imediata das hostilidades e o reinício das negociações para alcançar um cessar-fogo duradouro e um processo político abrangente, inclusivo e liderado pelo Sudão. A população civil deve ser protegida.
Do Iêmen à República Democrática do Congo, do Haiti ao Sahel, passando por Mianmar e em todo o mundo, nunca devemos desistir da busca pela paz.
Ao longo de todo esse processo, devemos reconhecer que silenciar as armas não é suficiente.
A paz é mais do que a ausência de guerra.
As causas profundas dos conflitos devem ser abordadas. Caso contrário, qualquer solução será precária.
Não é por acaso que nove dos dez países com os indicadores de desenvolvimento humano mais baixos se encontram atualmente em estado de conflito.
A paz sustentável requer desenvolvimento sustentável.
No entanto, dez anos após a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, dois terços das metas estão atrasadas.
O mundo está ficando aquém em mais de 4 trilhões de dólares por ano nos recursos de que os países em desenvolvimento necessitam para cumprir estas promessas até 2030.
E os países em desenvolvimento estão sendo atingidos e prejudicados pelo espaço fiscal limitado, pelo peso esmagador da dívida e pela alta dos preços.
Devemos avançar no Compromisso de Sevilha do ano passado, que estabeleceu uma agenda ambiciosa para ampliar o financiamento, lidar com a crise da dívida e reformar a arquitetura financeira internacional para que os países em desenvolvimento possam investir nos sistemas que apoiam o desenvolvimento e a paz.
E paz com justiça significa paz baseada no direito internacional e nos direitos humanos — econômicos, sociais, culturais, civis e políticos — que são inalienáveis, indivisíveis e interdependentes.
Devemos salvaguardar a liberdade de expressão e o espaço cívico. Nesse sentido, estou profundamente preocupado com a repressão violenta no Irã.
Devemos abrir as portas da oportunidade para mulheres e meninas em todo o mundo.
E quero enfatizar que não podemos — e não vamos — ceder à perturbadora resistência aos direitos das mulheres — metade da humanidade — e às conquistas duramente alcançadas em matéria de igualdade, participação e proteção.
Tenho orgulho de termos alcançado, pela primeira vez na história da ONU, a paridade de gênero nos níveis seniores. Estamos mais fortes por isso e continuaremos avançando.
Também aproveitaremos o progresso para expandir o envolvimento significativo com os jovens – a inclusão total das pessoas com deficiência – e oportunidades reais para os povos indígenas.
Tudo isso é essencial para construir um futuro mais equitativo, pacífico, justo e sustentável.
Excelências,
Paz com justiça também significa paz com a natureza.
Um mundo em caos climático não pode ser um mundo em paz.
A mudança climática é um multiplicador de ameaças — inflamando tensões sobre terra, água e alimentos;
Forçando as pessoas a deixar suas casas;
E destruindo os ecossistemas dos quais dependemos.
É também uma profunda injustiça que os menos responsáveis estejam pagando primeiro e mais caro.
Os líderes falharam em manter as temperaturas abaixo de 1,5 grau.
Um excedente temporário agora é inevitável – mas não é irreversível.
Nossa missão é manter esse excedente o menor, mais curto e mais seguro possível – e reverter a curva de volta para 1,5 sem demora.
Isso significa:
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Ir além dos planos climáticos nacionais para reduzir as emissões agora – e continuar reduzindo.
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Acelerar uma transição justa, ordenada e equitativa dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.
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Duplicar a eficiência energética até 2030; construir redes e armazenamento para conectar energia limpa a todos; reduzir o metano; e deter o desmatamento.
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Cumprir as promessas de adaptação e de perdas e danos.
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E garantir financiamento acessível e previsível que chegue àqueles que precisam, quando precisam.
A justiça climática é um investimento em paz e segurança, porque a vulnerabilidade em qualquer lugar se torna um risco em todos os lugares – repercutindo nos sistemas financeiros, nas cadeias de abastecimento e na estabilidade global.
3. Em terceiro e último lugar, nossa prioridade deve ser construir a unidade em uma era de divisão.
Em todo o mundo, vemos o risco de as sociedades entrarem em colapso sob o peso do racismo, da xenofobia nacionalista e do fanatismo religioso.
Esses venenos estão corroendo a estrutura das comunidades, alimentando a divisão e a desconfiança.
Os perigos não são abstratos; eles são visíveis na vida cotidiana de milhões de pessoas, alimentados pela retórica e desinformação que buscam excluir em vez de abraçar.
E não basta denunciar esses impulsos ideologicamente ou simplesmente dizer “isso é errado”.
Muitas pessoas se sentem deixadas para trás. Elas veem riqueza ao seu redor, mas ainda assim lutam para sobreviver.
Elas sentem que a rápida globalização — juntamente com o progresso tecnológico — minou suas perspectivas.
Elas observam grandes movimentos de pessoas e ouvem — falsamente — que a identidade é um jogo de soma zero.
As tendências demográficas aumentam a urgência.
O dividendo demográfico não pode se concretizar se os jovens não perceberem os dividendos em suas próprias vidas.
Ao mesmo tempo, as sociedades em envelhecimento não podem se dar ao luxo de se fechar, de construir muros – literal ou figurativamente. Fazer isso é uma receita para a estagnação e coisas piores.
Todos os países têm o direito soberano, dentro da lei, de gerenciar suas fronteiras e garantir sua segurança.
Mas as pessoas migrantes e refugiadas também têm direitos — direitos que devem ser respeitados e protegidos, onde quer que estejam.
Nosso desafio — e nossa prioridade — deve ser construir sociedades acolhedoras, não cidadelas isoladas.
Sociedades que investem na coesão social, inclusão, educação e habilidades, empregos decentes e proteção social com um novo contrato social.
Sociedades que constroem comunidades onde a identidade de todas as pessoas é respeitada e todas as pessoas sentem que pertencem e que estão ligadas por valores cívicos comuns.
A harmonia nunca é acidental. Ela requer políticas deliberadas, recursos e coragem política.
Se não colocarmos nossa humanidade comum em primeiro lugar, corremos o risco de perder tudo o que nos torna fortes.
A escolha é clara: inclusão ou isolamento, renovação ou declínio.
Devemos construir sociedades unidas num mundo de nações unidas.
Excelências,
Falei com franqueza porque os tempos assim o exigem.
Não podemos nos dar ao luxo da complacência, da negação ou da procrastinação.
Não podemos ser espectadores da injustiça, da indiferença ou da impunidade.
E temos o poder de traçar um caminho diferente.
A Carta nos dá nossa bússola. Nossa busca pela paz com justiça nos dá nosso propósito. E nossa humanidade comum nos dá o imperativo de agir.
O mundo está mudando – muitas vezes de maneiras inquietantes, mas também de maneiras inspiradoras.
As forças da divisão e da desigualdade são poderosas – mas também é nossa capacidade de solidariedade e justiça.
Mesmo nos mares agitados de hoje, podemos ancorar nossa ação na paz, na dignidade e na esperança.
Isso requer o melhor esforço de todas as pessoas.
Nunca nos esqueçamos de quem somos e do que representamos.
As Nações Unidas são uma promessa viva – uma promessa de que, apesar de nossas diferenças, resolveremos os problemas juntos.
Vamos manter essa promessa.
Nunca desistamos.
Os riscos não poderiam ser maiores, e o tempo não poderia ser mais curto.
Obrigado.
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