Guterres: “Precisamos de vocês mais do que nunca”
Discurso do secretário-geral da ONU à Associação das Nações Unidas do Reino Unido no 80º aniversário da Assembleia Geral, em Londres, em 17 de janeiro de 2026.
Excelências,
Caros amigos,
É uma honra juntar-me à Associação das Nações Unidas do Reino Unido para comemorar este aniversário especial.
Gostaria de começar expressando minha profunda gratidão.
Gratidão ao Reino Unido por seu papel decisivo na criação das Nações Unidas.
E, mais ainda, gratidão por ser um pilar tão forte do multilateralismo e um defensor das Nações Unidas nos dias de hoje.
A UNA-UK é uma das principais razões para isso.
Saúdo seus 80 anos de defesa, conscientização e compromisso inabalável em manter o Reino Unido global.
Meus agradecimentos a vocês e a todos os membros da sociedade civil aqui presentes hoje por comparecerem à ONU — e por honrarem a história com os olhos firmemente fixos no futuro.
Precisamos de vocês mais do que nunca.
Caros amigos,
Estamos aqui para celebrar os “80 anos da Assembleia Geral da ONU ” — quando delegados de 51 países se reuniram neste salão para a primeira sessão da Assembleia Geral.
Também marcamos outro momento — exatamente há 80 anos — quando o Conselho de Segurança se reuniu pela primeira vez.
Para chegar a este salão, os delegados tiveram que passar por uma cidade marcada pela guerra.
O Palácio de Buckingham, a Abadia de Westminster e a Câmara dos Comuns foram bombardeados pela Luftwaffe.
E enquanto as bombas caíam, civis aterrorizados se amontoavam aqui, no porão do Methodist Central Hall — um dos maiores abrigos públicos contra ataques aéreos de Londres.
Durante o Blitz, cerca de 2.000 pessoas se reuniram aqui em busca de segurança, esperando com toda esperança que este prédio resistisse à noite.
Cada pedra deste salão está impregnada dos desejos e orações, por vezes desesperados, de pessoas comuns — pela paz.
Foi logo acima desse abrigo, onde tantos buscaram proteção, que as nações do mundo se reuniram para “salvar as gerações futuras do flagelo da guerra”.
De muitas maneiras, este Salão é uma representação física do que são as Nações Unidas: um lugar onde as pessoas depositam sua fé — pela paz, pela segurança, por uma vida melhor.
A Assembleia Geral está no centro desse trabalho.
Mais adiante, fica a “Mãe dos Parlamentos”.
A Assembleia Geral é o parlamento da família das nações.
É um fórum para que todas as vozes sejam ouvidas, um molde para o consenso e um farol para a cooperação.
A primeira resolução da Assembleia Geral — adotada poucos dias após a primeira reunião — concentrou-se no desarmamento e na eliminação das armas atômicas como objetivo global.
E, por oito décadas, a Assembleia Geral tem sido o lugar onde o mundo se reúne para ajudar a promover a paz, o desenvolvimento sustentável e a salvaguarda dos direitos humanos.
Por sua natureza, o trabalho da Assembleia Geral pode nem sempre ser simples ou tranquilo.
Mas é um espelho do nosso mundo, das suas divisões e das suas esperanças.
E é o palco onde se desenrola a nossa história comum.
Hoje, estamos a entrar num novo capítulo dessa história.
Caros amigos,
No meu primeiro ano como secretário-geral, estive neste mesmo lugar para me dirigir à UNA-UK.
Era 2017, após eleições e referendos que abalaram sociedades em todo o mundo.
Falei dos riscos que enfrentávamos:
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Conflitos locais tornando-se regionais;
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Novas tecnologias, incluindo inteligência artificial, ameaçando perturbar profundamente as economias;
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Soberania nacional sendo invocada como pretexto para minar os direitos humanos.
Na última década, tudo isso e muito mais se desenrolou em alta velocidade:
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Os conflitos em Gaza, na Ucrânia e no Sudão foram violentos e cruéis além da medida;
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A inteligência artificial tornou-se onipresente quase da noite para o dia;
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E a pandemia jogou lenha na fogueira do nacionalismo — paralisando o progresso no desenvolvimento e nas ações climáticas.
Se este período nos ensinou alguma coisa, é que nossos desafios são cada vez mais sem fronteiras e cada vez mais interconectados.
A única maneira de enfrentá-los é juntos.
E isso requer um sistema multilateral robusto, responsivo e com bons recursos.
No entanto, neste momento, esse sistema está sob ameaça.
2025 foi um ano profundamente desafiador para a cooperação internacional e os valores da ONU:
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A ajuda foi drasticamente reduzida.
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As desigualdades aumentaram.
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O caos climático se acelerou.
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O direito internacional foi pisoteado.
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A repressão à sociedade civil se intensificou.
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Jornalistas foram mortos com impunidade.
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E funcionários das Nações Unidas foram repetidamente ameaçados — ou mortos — no cumprimento do seu dever.
Ao mesmo tempo, vemos forças poderosas se alinhando para minar a cooperação global.
No ano passado, a ONU informou que os gastos militares globais atingiram 2,7 trilhões de dólares — mais de 200 vezes o orçamento atual do Reino Unido para ajuda humanitária, ou o equivalente a mais de 70% de toda a economia britânica.
Enquanto o planeta batia recordes de calor, os lucros dos combustíveis fósseis continuavam a aumentar.
E no ciberespaço, algoritmos recompensaram falsidades, alimentaram o ódio e forneceram aos autoritários poderosas ferramentas de controle.
No entanto, apesar desses mares agitados, seguimos em frente.
Basta olhar para as notícias deste mesmo dia:
Hoje, entra em vigor o Acordo sobre Diversidade Biológica Marinha em Áreas além da Jurisdição Nacional (BBNJ).
Este tratado estabelece a primeira estrutura jurídica para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade marinha em dois terços do oceano além dos limites nacionais.
As negociações foram um modelo de diplomacia moderna: lideradas pela ciência, com a participação não apenas de governos, mas também da sociedade civil, povos indígenas e comunidades locais.
Essas vitórias silenciosas da cooperação internacional — guerras evitadas, fome evitada, tratados vitais garantidos — nem sempre chegam às manchetes.
No entanto, elas são reais. E são importantes.
Se quisermos garantir mais vitórias como essas, devemos assegurar o pleno respeito ao direito internacional e defender o multilateralismo, fortalecendo-o para os nossos tempos.
O mundo de 2026 não é o mundo de 1946.
À medida que os centros de poder globais mudam, temos o potencial de construir um futuro mais justo — ou mais instável.
Se quisermos torná-lo mais justo, é fundamental que o sistema internacional reflita a realidade atual.
Esse é o espírito da nossa Iniciativa ONU80 e a essência do Pacto para o Futuro — um plano para garantir que as Nações Unidas sejam mais ágeis, mais coordenadas e mais responsivas.
Isso também está no centro de nossos esforços para atualizar o Conselho de Segurança e reformar a arquitetura financeira internacional injusta e desigual.
E eu acrescentaria que é claramente do interesse daqueles que detêm mais poder estar na linha de frente da reforma.
Aqueles que tentam se agarrar aos privilégios hoje correm o risco de pagar o preço amanhã.
Portanto, devemos ser ousados o suficiente para mudar.
Ousadia suficiente para encontrar a coragem daqueles que vieram a este salão há 80 anos para construir um mundo melhor.
As circunstâncias não exigem nada menos do que isso.
Caros amigos,
Neste momento em que os valores do multilateralismo estão sendo minados, cabe a nós — em nossa capacidade como profissionais, eleitores e membros de organizações como a UNA-UK — tomar uma posição.
Mais do que nunca, o mundo precisa de movimentos da sociedade civil que sejam destemidos e persistentes — que tornem impossível para os líderes desviar o olhar.
A Assembleia Geral que celebramos hoje existe por causa de uma verdade simples: a humanidade é mais forte quando nos unimos.
Mas essa unidade não começa na Assembleia Geral — ela começa aqui, com movimentos populares como o seu.
Todos os anos, a UNA-UK concede o Prêmio Sir Brian Urquhart por Serviços Distintos às Nações Unidas.
Gostaria de deixar vocês com uma reflexão sobre o próprio Sir Brian.
Quando as Nações Unidas abriram suas portas pela primeira vez, muitos de seus funcionários carregavam feridas visíveis da guerra — um mancar, uma cicatriz, uma queimadura.
O major Urquhart era um deles:
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Ele estava em um navio que explodiu no Canal da Mancha;
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Testemunhou a libertação de Bergen-Belsen;
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E carregou, pelo resto da vida, um mancar devido a um paraquedas que não abriu.
Existe um mito persistente — que ecoa cada vez mais forte a cada dia — de que a paz é ingênua.
Que a única política “real” é a política do interesse próprio e da força.
Mas os fundadores das Nações Unidas não estavam alheios à realidade.
Pelo contrário, eles tinham visto a guerra e sabiam:
A paz, a justiça e a igualdade são as buscas mais corajosas, mais práticas e mais necessárias de todas.
Em uma cidade marcada pela devastação, os primeiros delegados nesta sala compreenderam o que estava em jogo.
O mesmo aconteceu com as pessoas naquele abrigo antiaéreo.
O mesmo aconteceu com os primeiros funcionários, como Sir Brian.
Nosso dever é servir com o mesmo senso de urgência.
Agradeço a cada um de vocês por escolherem viver uma vida de engajamento e participação.
Juntos e juntas, vamos continuar a lutar:
Pela justiça.
Pela humanidade.
E pela paz.
Obrigado.
Para saber mais, visite a página especial da ONU Brasil sobre os 80 anos das Nações Unidas e acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/story/2026/01/1852101