Guterres: “Os problemas globais não serão resolvidos por uma única potência que toma as decisões”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, em coletiva de imprensa sobre as prioridades das Nações Unidas para 2026, em 29 de janeiro.
Caros membros da imprensa, Feliz Ano Novo!
Este é um momento especialmente significativo para mim, pois é minha última oportunidade para nossa tradicional troca de ideias no início do ano.
Ainda é cedo, mas 2026 já se configura como um ano de surpresas constantes e caos.
Antes de entrar na vida pública, eu me especializei em física.
E em tempos de profunda mudança, volto a alguns dos princípios fixos que explicam como as forças atuam sobre o mundo.
Um deles se destaca: a Terceira Lei de Newton: para cada ação, há uma reação igual e oposta.
Na física, essa lei é um princípio estabilizador.
Na geopolítica atual, é um fator desestabilizador.
Vivemos em um mundo onde as ações, especialmente as imprudentes, provocam reações perigosas.
E, ao contrário da física, essas reações não são simétricas ou previsíveis.
Elas estão sendo multiplicadas por divisões geopolíticas e ampliadas por uma epidemia de impunidade.
A lei do poder está prevalecendo sobre o poder da lei.
O direito internacional é pisoteado. A cooperação está se deteriorando. E as instituições multilaterais estão sob ataque em muitas frentes.
Quando ações perigosas não encontram a reação adequada, o sistema se desestabiliza.
A impunidade está impulsionando os conflitos atuais, estimulando a escalada, ampliando a desconfiança e abrindo as portas para que poderosos sabotadores entrem por todas as direções.
Enquanto isso, o corte da ajuda humanitária está gerando suas próprias reações em cadeia de desespero, deslocamento e morte.
Ao mesmo tempo, as desigualdades estão se aprofundando e agitando as sociedades.
A mudança climática é a ilustração mais literal e devastadora do princípio de Newton.
Cada ação que aquece o planeta desencadeia uma reação feroz — tempestades, incêndios florestais, furacões, secas, aumento do nível do mar.
E depois há a tecnologia.
Estamos testemunhando talvez a maior transferência de poder de nossos tempos, não dos governos para as pessoas, mas dos governos para empresas privadas de tecnologia.
Quando tecnologias que moldam comportamentos, eleições, mercados e até mesmo conflitos operam sem barreiras, a reação não é inovação, é instabilidade.
Ao analisar o espectro dos desafios globais, uma verdade se torna inequivocamente clara: nossos sistemas de resolução de problemas globais enfrentam um acerto de contas.
Esses sistemas estão ultrapassados.
Eles ainda refletem as estruturas econômicas e de poder de 80 anos atrás.
Mas o mundo está mudando.
A cada dia, a participação do grupo tradicional de economias desenvolvidas na atividade econômica global diminui, de forma silenciosa, gradual, mas inegável.
A cada dia, as economias emergentes expandem-se em escala, influência e confiança.
A cada dia, o dinamismo do comércio Sul-Sul ultrapassa ainda mais os fluxos tradicionais Norte-Norte.
No entanto, nossas estruturas, nossas instituições, nossas suposições, nossos hábitos de cooperação permanecem presos a outra época.
Isso precisa mudar.
Nossas estruturas e instituições devem refletir a complexidade, e a oportunidade, desses novos tempos e realidades.
Os problemas globais não serão resolvidos por uma única potência que toma as decisões.
Tampouco serão resolvidos por duas potências que dividem o mundo em esferas de influência rivais.
É importante acelerar, de forma deliberada e determinada, a multipolaridade, uma multipolaridade interligada, inclusiva por natureza, e capaz de criar equilíbrio por meio de parcerias.
Parcerias no comércio, na tecnologia e na cooperação internacional.
Mas a multipolaridade, por si só, não garante estabilidade ou paz.
A Europa antes da Primeira Guerra Mundial era multipolar. Mas, na ausência de instituições multilaterais eficazes, o resultado foi o confronto e a guerra.
Para que a multipolaridade gere equilíbrio, prosperidade e paz, precisamos de instituições multilaterais fortes, cuja legitimidade esteja enraizada na responsabilidade e nos valores compartilhados.
E sejamos claros sobre outra coisa enquanto buscamos fortemente a reforma:
As estruturas podem estar desatualizadas, mas os valores não.
A liderança hoje não é uma escolha entre ser baseada em princípios ou pragmática.
É o reconhecimento de que os princípios são pragmáticos.
A Carta das Nações Unidas foi redigida por pessoas ensanguentadas e feridas pela guerra.
Elas compreenderam que os valores consagrados nos nossos documentos fundadores não eram abstrações elevadas ou esperanças idealistas.
Esses valores são a condição sine qua non para uma paz duradoura e uma justiça permanente.
Os valores são importantes, e as pessoas estão arriscando tudo para torná-los realidade.
Isso está em plena evidência em todo o mundo, seja um manifestante enfrentando a repressão... um jornalista defendendo a liberdade de imprensa... ou um cidadão comum defendendo seu vizinho.
Apesar de todos os obstáculos, as Nações Unidas estão agindo para dar vida aos nossos valores comuns.
E não vamos desistir.
Estamos promovendo a paz, uma paz justa e sustentável, baseada no direito internacional.
Uma paz que aborda as causas profundas.
Uma paz que perdura além da assinatura de um acordo.
Estamos pressionando para reformar e fortalecer o Conselho de Segurança, o único órgão com autoridade conferida pela Carta para agir em nome da paz e da segurança de todos os países.
Mas não há paz duradoura sem desenvolvimento.
Estamos agindo para acelerar o progresso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e insistindo na reforma da arquitetura financeira global.
Isso inclui acabar com o ciclo esmagador da dívida, triplicar a capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento e garantir aos países em desenvolvimento uma participação justa e influência real nas instituições financeiras globais.
No que diz respeito ao clima, reconhecemos que as temperaturas globais ultrapassaram o limite de 1,5 graus e que agora é necessário ultrapassar as ambições, começando com reduções profundas das emissões nesta década e uma transição justa, ordenada e equitativa dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.
Estamos exigindo um apoio muito maior aos países que já enfrentam catástrofes climáticas, sistemas de alerta precoce ampliados e oportunidades para que as nações ricas em minerais essenciais subam nas cadeias de valor globais.
E, no que diz respeito à tecnologia, estamos trabalhando com urgência para ajudar a elaborar uma estrutura de governança, por meio de um diálogo global aqui nas Nações Unidas, do novo Painel Científico Internacional sobre IA e do reforço do apoio à capacitação dos países em desenvolvimento.
Em breve, apresentarei à Assembleia Geral uma lista com 40 nomes de membros propostos para o Painel.
Também estou pedindo a criação de um Fundo Global para o Desenvolvimento de Capacidades em IA para países em desenvolvimento, com uma meta de US$ 3 bilhões.
Ao iniciarmos este ano, estamos determinados a escolher ações que gerem reações concretas e positivas, conforme solicitado no Pacto para o Futuro.
Reações de paz, justiça, responsabilidade e progresso em nossos tempos conturbados.
Obrigado. E estou à disposição.
Para saber mais, visite a página especial da ONU Brasil sobre os 80 anos das Nações Unidas e acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/