29º Fórum de Governadores da Amazônia Legal
Discurso da Coordenadora Residente da ONU no Brasil, Silvia Rucks, no 29º Fórum de Governadores da Amazônia Legal, em São Luís (MA), em 17 de março de 2026.
Bom dia a todas e todos.
Cumprimento o Excelentíssimo Senhor Carlos Brandão, Governador do Maranhão, e os Excelentíssimos Governadores do Acre e Tocantins, assim como os representantes de Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima: é uma alegria estar aqui com todos vocês.
Cumprimento também a secretária executiva do Consórcio Interestadual da Amazônia Legal, Vanessa Duarte.
Saúdo ainda as demais autoridades presentes.
Senhoras e senhores,
É uma grande satisfação estar aqui hoje no Fórum de Governadores. Gostaria de iniciar agradecendo, de maneira especial, ao Governador do Maranhão pelo convite e a generosa hospitalidade, e cumprimentando todas as autoridades do Consórcio pela liderança e pelo compromisso contínuo com o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Este Fórum tem um significado muito especial para mim. Esta é a última reunião de governadores do Consórcio da Amazônia Legal da qual participo como Coordenadora Residente das Nações Unidas no Brasil antes de concluir minha missão de cinco anos no país, em maio. Por isso, quero também aproveitar este momento para reconhecer e agradecer a parceria sólida e construtiva que erguemos ao longo desse período entre o Sistema ONU e os estados da Amazônia.
Essa colaboração atingiu um marco muito importante com a criação do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.
O Fundo é resultado de uma iniciativa do Governo Federal, do Consórcio Interestadual da Amazônia Legal e do Sistema das Nações Unidas, concebida justamente para mobilizar recursos e apoiar projetos que gerem alternativas econômicas inclusivas e sustentáveis para a região amazônica, com foco nas populações em maior situação de vulnerabilidade. O Fundo parte do reconhecimento de que o desenvolvimento sustentável da Amazônia exige cooperação entre diferentes níveis de governo, parceiros internacionais e sociedade civil.
Esse esforço conjunto foi anunciado na COP27, no Egito, junto ao Governador Barbalho, no primeiro hub que a Amazônia teve em uma COP. E, durante o G20, recebemos o maior sinal de confiança internacional na nossa iniciativa: o Canadá foi o país pioneiro em apoiar o Fundo, com uma contribuição inicial de mais de 13 milhões de dólares canadenses. Os resultados foram tão positivos que, no ano passado, durante a COP30, o Canadá anunciou uma segunda doação, de 4,3 milhões de dólares canadenses. Por isso, deixo aqui também nosso sincero agradecimento a esse grande parceiro.
Desde então, avançamos de forma consistente na consolidação do Fundo.
Hoje já temos cinco programas aprovados, dos quais três estão em implementação e dois serão lançados no próximo mês. Esses projetos contam com o engajamento direto dos governos estaduais de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Pará, Rondônia e Roraima e com os novos projetos ampliaremos as atividades para todos os estados da Amazônia Legal.
Um dos aspectos mais importantes do Fundo é justamente seu papel inovador como plataforma de parcerias. Temos trabalhado para mobilizar atores não-tradicionais e fortalecer a cooperação entre instituições. Um exemplo disso é a parceria com a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), que apoiará estratégias de sustentabilidade financeira do Fundo, incluindo o trabalho realizado aqui no Maranhão, no Terras para Elas, que passa a contar com o envolvimento do Banco do Nordeste.
Também fortalecemos a governança do Fundo com a inclusão de representantes da sociedade civil e do setor privado no Comitê Diretor, contribuindo para garantir que os projetos estejam cada vez mais alinhados às demandas dos territórios e às iniciativas já em andamento na região.
Ao mesmo tempo, avançamos muito nos aspectos operacionais e institucionais. Hoje já temos os mecanismos necessários para que os próprios estados amazônicos possam receber recursos diretamente do Fundo, e estamos desenvolvendo um plano de fortalecimento de capacidades técnicas para apoiar os estados na formulação e implementação de programas.
Senhoras e Senhores,
A região da Amazônia Legal é muito importante para mim. Durante o meu período no Brasil, tive o privilégio de conhecer quase todos os estados da Amazônia, mais do que qualquer outra região do país. Foram mais de 20 missões à Amazônia Legal, sem contar as visitas virtuais realizadas durante os anos da pandemia. No último ano tive a honra de conhecer a implementação dos primeiros projetos do Fundo, e foi ainda mais emocionante. O que vi vai além de propostas e documentos — é a esperança transformadora em movimento.
No coração pulsante da Bacia Amazônica, testemunhei uma poderosa colaboração de sete agências da ONU, que está abrindo novos caminhos para crianças, adolescentes e jovens indígenas.
No Acre, encontrei parceiros locais que, com coragem e visão, estão cocriando um futuro resiliente impulsionado pela bioeconomia, pela governança da terra e pela conservação ambiental.
Em Rosário, no Maranhão, participei do lançamento do “Terras para Elas”, que abre portas para agricultoras — especialmente quilombolas, indígenas, ribeirinhas, quebradeiras de coco babaçu e mulheres LGBTIQ+ — garantindo os títulos de terra, capacitação sustentável e acesso a crédito. Ali, diante de mulheres empoderadas que reivindicam seus direitos e moldam meios de vida mais dignos para suas famílias e comunidades, ficou claro que estamos diante de uma transformação profunda: uma Amazônia que não apenas resiste, mas que floresce por meio da força, da criatividade e do protagonismo de seu próprio povo.
Em breve estaremos nos estados de Amazonas e Rondônia, fortalecendo os esforços de combate ao crime ambiental e aprimorando o trabalho de mulheres da cadeia produtiva de cacau e café, respectivamente.
Olhando para frente, gostaria também de destacar uma nova iniciativa que estamos apresentando hoje, diretamente inspirada nas demandas que ouvimos dos estados da Amazônia.
Durante o Fórum de Governadores realizado em Rondônia, muitos de nós testemunhamos de perto o impacto da fumaça e das queimadas. Aquela experiência me tocou profundamente, e reforçou a urgência de ampliar as capacidades de prevenção e combate a incêndios na região toda.
Por isso, em parceria com o Consórcio da Amazônia Legal, estamos aprofundando a nossa cooperação e lançando um conjunto de ações de combate a incêndios florestais, que incluirá fortalecimento de capacidades institucionais, treinamento de brigadistas, comunicação com as comunidades e cooperação entre diferentes níveis de governo. Atendendo a uma solicitação do Consórcio, estamos trabalhando na mobilização de doações de equipamentos para as operações em campo, envolvendo o setor privado nessa iniciativa, ampliando ainda mais o alcance e o impacto.
Excelências,
Vivemos um momento global complexo. Na COP30, o Brasil buscou construir um mapa do caminho para a transição de combustíveis fósseis para fontes de energia renováveis. Todos ficamos um pouco frustrados ao ver que a proposta não conseguiu mobilizar o apoio político necessário para avançar em sua concretização.
Hoje, olhando para o contexto geopolítico marcado por novos conflitos e pressões sobre as cadeias globais de energia, se torna ainda mais evidente a relevância dessa agenda e o enorme potencial da Amazônia para liderar soluções inovadoras de desenvolvimento sustentável e de transição energética.
E para que isso aconteça, a parceria entre os estados amazônicos, o governo federal, a sociedade civil, parceiros internacionais e o Sistema das Nações Unidas continuará sendo fundamental.
E, para concluir, permitam-me uma reflexão pessoal: antes da minha chegada no Brasil eu tinha uma visão muito romantizada da Amazônia ... pensava em floresta, água, verde e animais. Com o passar dos anos, as muitas visitas e o trabalho, eu então me deparei que também existem as secas, as queimadas, as inundações, o desmatamento e os muitos desafios que este território enfrenta.
Mas, ao mesmo tempo que presenciei as dificuldades, também ficou explícito que absolutamente qualquer solução tem que ter como princípio básico o foco nas pessoas, nas 29 milhões de pessoas que vivem, respiram e sonham nesse vasto território da Amazônia Legal.
Agradeço profundamente por terem me recebido de braços abertos na Amazônia e por terem me dado essa oportunidade que, com certeza, marcou a minha vida. Registro aqui meu compromisso de que seguirei acompanhando vocês e defendendo o desenvolvimento sustentável da Amazônia qualquer que seja o meu destino.
Muito obrigada.
Para saber mais, visite a página do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.