Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas
25 março 2026
Mensagem do secretário-geral António Guterres para o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas
Justiça em ação: encarar a história de frente, promover a dignidade, assumir o controle do futuro
Legenda: O secretário-geral da ONU, António Guterres, discursa na sessão comemorativa da Assembleia Geral para marcar a Abolição da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas, em 25 de março de 2026.
Hoje, refletimos sobre uma profunda traição à dignidade humana:
O sequestro de milhões de pessoas africanas, arrancadas de suas famílias e comunidades, das quais nunca mais voltariam a ver.
Seu tráfico através do Atlântico, em condições tão cruéis que um em cada sete não sobreviveu à viagem.
E sua escravização nas Américas, onde gerações foram brutalmente exploradas por seu trabalho e privadas de sua humanidade básica.
Esses atos monstruosos constituíram o cerne de uma ordem econômica e social global:
Um sistema nascido da ganância, construído sobre mentiras e imposto pela violência.
Um sistema que prevaleceu por mais de 400 anos — e que ainda hoje assombra o nosso mundo.
Um sistema que refletiu o pior da humanidade.
É por isso que hoje é mais do que um momento de lembrança.
É um momento para enfrentar os legados duradouros da desigualdade e do racismo.
Nunca esqueceremos as vítimas da escravização.
E nunca devemos esquecer o sistema maléfico que a sustentou por tanto tempo:
Estou pensando nas leis que privaram as pessoas escravizadas da alfabetização, da autonomia e da humanidade.
Nas redes econômicas, financeiras e comerciais que permitiram que elites e impérios — incluindo o meu próprio país — acumulassem riqueza construída sobre vidas roubadas e trabalho roubado.
E nas punições bárbaras que mantinham o controle — desde algemas e coleiras de ferro até açoites e violência sexual.
Não se tratava simplesmente de trabalho forçado.
Era uma máquina de exploração em massa e desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças.
As feridas são profundas — e muitas vezes passam despercebidas.
Já disse várias vezes que o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas foi um crime contra a humanidade que atingiu o cerne da dignidade humana, separou famílias e devastou comunidades.
Para justificar o injustificável, os defensores e beneficiários da escravidão construíram uma ideologia racista — transformando o preconceito em pseudociência.
Essa ordem global perversa prosperou porque o poder agiu sem consciência.
Devemos usar nosso poder para fins melhores:
Rejeitando a falsa narrativa da diferença racial e denunciando a mentira repugnante da supremacia branca.
Desmantelando suas falácias nocivas — on-line, na mídia, nas escolas, no trabalho, na política e dentro de nós mesmos.
E trabalhando pela verdade, pela justiça e pela reparação.
Reconhecemos a extraordinária coragem das pessoas escravizadas.
Homenageamos sua determinação em serem livres.
Sua resiliência silenciosa e sua resistência organizada.
Suas revoltas e atos de desafio aberto.
Seu espírito humano indestrutível.
Agora, devemos eliminar as barreiras persistentes que impedem tantas pessoas de ascendência africana de exercer seus direitos e realizar seu potencial.
Devemos nos comprometer — plenamente e sem hesitação — com os direitos humanos, a igualdade e o valor inerente de cada pessoa.
Vamos utilizá-las para impulsionar ações em três áreas críticas:
Erradicar o racismo sistêmico.
Garantir a justiça reparatória.
E acelerar o desenvolvimento inclusivo, com acesso igualitário à educação, à saúde, ao emprego, à moradia e a um ambiente seguro.
Saúdo as medidas que alguns países estão tomando para pedir desculpas por seu papel no crime da escravidão — e para participar de um diálogo sincero sobre suas consequências duradouras.
Mas são necessárias ações muito mais ousadas — por parte de muito mais Estados.
Isso inclui compromissos para respeitar a soberania dos países africanos sobre seus próprios recursos naturais.
E medidas para garantir sua participação e influência em igualdade de condições na estrutura financeira global e no Conselho de Segurança da ONU.