Dia Internacional do Resíduo Zero 2026 l Embaixada da Turquia em Brasília
Discurso da Coordenadora Residente da ONU no Brasil, Silvia Rucks, no evento para o Dia Internacional do Resíduo Zero, na Embaixada da Turquia em Brasília.
[English below]
Bom dia a todas e todos.
Cumprimento o Embaixador Halil Ibrahim Akça e, em seu nome, saúdo todos os membros do Corpo Diplomático aqui presentes.
Estendo meus cumprimentos ao Embaixador Mauricio Carvalho Lyrio, Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores. É uma alegria contar com sua presença neste evento, Embaixador.
Senhoras e senhores,
É uma honra participar desta celebração do Dia Internacional do Resíduo Zero, acolhida pela Embaixada da Turquia em Brasília.
Gostaria de agradecer pela parceria e pela liderança demonstrada na promoção desta agenda tão urgente e necessária.
O Dia Internacional do Resíduo Zero que comemoramos hoje nos convida a repensar profundamente a forma como produzimos, consumimos e descartamos. Mais do que uma data simbólica, trata-se de um chamado à ação.
O conceito de “lixo zero” nos desafia a ir além da gestão de resíduos e a atuar na raiz do problema, especialmente promovendo os quatro “R”: repensar, reduzir, reutilizar e reciclar. E eu incluiria um quinto: RECUSAR. Ao fazê-lo, contribuímos para a economia circular, reduzimos a poluição, diminuímos as emissões de gases de efeito estufa e protegemos a biodiversidade.
Este é também um tema que me é caro em nível pessoal. Ao longo da minha trajetória, tenho buscado incorporar práticas mais sustentáveis no dia a dia – desde escolhas de consumo mais conscientes até a redução do desperdício e a correta destinação de resíduos. Essas ações individuais podem parecer pequenas, mas, somadas, têm um impacto significativo. E, sobretudo, reforçam uma mensagem essencial: a transformação começa com cada um de nós e, a partir de nós, vamos ampliando para nossas famílias, nossos amigos, nosso trabalho.
Este compromisso não é só meu – é de toda a Equipe de País da ONU no Brasil. Portanto, eu gostaria de compartilhar como estamos traduzindo a preocupação com os resíduos em ações concretas em nosso dia a dia.
A Casa da ONU tem avançado decididamente nesse tópico. Como parte da Agenda de Eficiência, que integra três linhas de ação para ampliar a eficiência de nossas operações, temos alcançado resultados expressivos. Destaco, por exemplo, o desvio de 96,56% dos resíduos de aterros sanitários, o uso de 83,68% de energia solar e a reutilização de 45,72% da água.
Essas ações não apenas reduzem nossa pegada ambiental, mas também geram economia de recursos e impacto social positivo, beneficiando diretamente centenas de famílias recicladoras.
Esses números demonstram que é possível alinhar eficiência operacional, sustentabilidade ambiental e impacto social. Mais do que isso, mostram que a ONU está comprometida em liderar pelo exemplo.
A cada ano, selecionamos um tema para marcar este Dia Internacional e, em 2026, o tema escolhido foi “O lixo zero começa no seu prato”.
Para o contexto brasileiro, esse tema é muito pertinente. O Brasil é um dos 10 países que mais desperdiçam alimentos no mundo: cerca de 30% de tudo o que é produzido. E esse desperdício ocorre em todas as etapas da cadeia, desde a lavoura até a mesa de nossas casas. Globalmente, mais de 1 bilhão de toneladas de comida são descartadas anualmente.
Além do absurdo de jogarmos comida fora em um mundo em que quase 700 milhões de pessoas ainda passam fome, o desperdício de alimentos responde por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa. Mais alarmante ainda é o fato de que aproximadamente 60% desse desperdício ocorre nos lares. Isso evidencia que a mudança de comportamento no nível doméstico é fundamental. Planejar melhor as compras, valorizar os alimentos e evitar o descarte desnecessário são medidas simples, mas poderosas.
Ao mesmo tempo, sabemos que soluções sistêmicas são indispensáveis. Iniciativas globais lançadas no contexto das conferências climáticas, como aquelas voltadas à redução do desperdício de alimentos pela metade até 2030, apontam caminhos concretos para acelerar a transição. Trata-se de alinhar políticas públicas, inovação e engajamento social em torno de um objetivo comum.
No Brasil, por exemplo, convém destacar os avanços em políticas públicas voltadas à redução do desperdício de alimentos, que têm se consolidado como um pilar essencial da agenda de segurança alimentar e sustentabilidade.
Com base na Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos, diferentes políticas públicas, como o Plano Brasil Sem Fome e a Rede de Bancos de Alimento, são integradas para promover a redução do desperdício como uma frente estratégica de coordenação entre produção, consumo e destinação adequada de resíduos orgânicos.
Esses esforços são complementados por uma governança intersetorial crescente, que articula governo, setor privado e sociedade civil, além de estratégias voltadas à redução de perdas ao longo da cadeia produtiva, com foco em circuitos curtos e no fortalecimento da agricultura familiar. Essas iniciativas impactam também outros tipos de resíduos, especialmente relacionados às embalagens. O país recicla mais de 97% do alumínio e tem buscado avançar também na reciclagem de plástico.
Nessa conjuntura, é importante reconhecer o papel de liderança da Turquia. O país foi protagonista na criação do Dia Internacional do Resíduo Zero, liderando a resolução adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas e mobilizando mais de uma centena de países em torno dessa agenda. O engajamento da Primeira-Dama Emine Erdoğan, por meio do Projeto Lixo Zero, demonstra como iniciativas nacionais podem inspirar mudanças globais.
O compromisso da Turquia também se reflete na preparação para a COP31, que será realizada em Antália. A inclusão do “lixo zero” como prioridade temática reforça a centralidade dessa agenda na ação climática. Ao sediar e presidir esse importante encontro, e em seguimento à COP realizada no Brasil, a Turquia tem a oportunidade de impulsionar soluções inovadoras e fortalecer a cooperação multilateral em prol de um futuro mais sustentável.
Gostaria de concluir com uma reflexão: a transição para um mundo sem resíduos não depende apenas de grandes políticas ou tecnologias avançadas. Ela começa com escolhas cotidianas sobre o que consumimos, o que descartamos e como valorizamos os recursos que temos.
Que este Dia Internacional do Resíduo Zero nos inspire a agir, como indivíduos, instituições e sociedades, para construir um futuro mais sustentável, inclusivo e resiliente.
Muito obrigada.
Para saber mais, visite a página do Dia Internacional do Resíduo Zero e acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/story/2026/03/1852733
ENGLISH VERSION
Good morning.
I would like to greet Ambassador Halil Ibrahim Akça and, through him, extend my salutations to all members of the Diplomatic Corps present here today.
Estendo meus cumprimentos ao Embaixador Mauricio Carvalho Lyrio, Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores. É uma alegria contar com sua presença neste evento, Embaixador.
Ladies and gentlemen,
It is an honour to take part in this celebration of the International Day of Zero Waste, hosted by the Embassy of Türkiye in Brasília. I would like to express my appreciation for the partnership and for the leadership demonstrated in advancing this urgent and necessary agenda.
The International Day of Zero Waste that we celebrate today invites us to fundamentally rethink how we produce, consume, and dispose of resources. More than a symbolic date, it is a call to action. The concept of “zero waste” challenges us to go beyond waste management and address the root causes of the problem, particularly by promoting the four “Rs”: Reduce, Reuse, Recycle, and Recover. And I would add a fifth: Refuse. By doing so, we contribute to the circular economy, reduce pollution, lower greenhouse gas emissions, and protect biodiversity.
This is also an issue that is personally important to me. Throughout my professional journey, I have sought to incorporate more sustainable practices into my daily life – from making more conscious consumption choices to reducing waste and ensuring proper disposal. These individual actions may seem small, but together they have a significant impact. Above all, they reinforce an essential message: transformation begins with each of us and expands outward to our families, our communities, and our workplaces.
This commitment is not mine alone, it is shared by the entire United Nations Country Team in Brazil. Therefore, I would like to highlight how we are translating our concern about waste into concrete actions in our daily operations.
The UN House has made strong progress in this area. As part of the Efficiency Agenda, which includes three lines of action to enhance the efficiency of our operations, we have achieved notable results. These include diverting over 96 per cent of waste from landfills, using more than 83 per cent solar energy, and reusing 45 per cent of water. These actions not only reduce our environmental footprint but also generate cost savings and positive social impact, directly benefiting hundreds of families working in recycling.
These figures demonstrate that it is possible to align operational efficiency, environmental sustainability, and social impact. More importantly, they show that the United Nations is committed to leading by example.
Each year, a theme is selected to mark this International Day, and in 2026 the theme is “Zero waste begins on your plate”. In the Brazilian context, this theme is particularly relevant. Brazil is among the ten countries that waste the most food in the world, with approximately 30 per cent of all food produced being lost. This waste occurs at every stage of the supply chain, from farm to table. Globally, more than 1 billion tonnes of food are discarded every year.
Beyond the unacceptable reality of wasting food in a world where nearly 700 million people still go hungry, food waste accounts for around 10 per cent of global greenhouse gas emissions. Even more alarming is the fact that approximately 60 per cent of this waste occurs in households. This highlights the importance of behavioural change at the domestic level. Better planning of purchases, valuing food, and avoiding unnecessary waste are simple yet powerful measures.
At the same time, we know that systemic solutions are essential. Global initiatives launched in the context of climate conferences, such as those aimed at halving food waste by 2030, point to concrete pathways for accelerating this transition. This requires aligning public policies, innovation, and social engagement around a common goal.
In Brazil, for example, it is important to highlight the progress made in public policies aimed at reducing food waste, which have increasingly become a central pillar of the country’s food security and sustainability agenda. Building on the National Policy to Combat Food Loss and Waste, various public initiatives – such as the Zero Hunger Plan (Plano Brasil Sem Fome) and the Food Bank Network – are being integrated to promote waste reduction as a strategic priority, strengthening coordination across production, consumption and the proper management of organic waste. These efforts are complemented by growing intersectoral governance that brings together government, the private sector and civil society, as well as strategies to reduce losses along the value chain, with a focus on short supply chains and the strengthening of family farming. These initiatives also have an impact on other types of waste, particularly packaging. Brazil recycles more than 97 per cent of its aluminum and has been making progress in increasing plastic recycling as well.
In this context, it is important to recognize Türkiye’s leadership. The country played a key role in establishing the International Day of Zero Waste, leading the resolution adopted by the United Nations General Assembly and mobilizing over one hundred countries around this agenda. The engagement of First Lady Emine Erdoğan, through the Zero Waste Project, demonstrates how national initiatives can inspire global change.
Türkiye’s commitment is also reflected in the preparations for COP31, which will be held in Antalya. The inclusion of “zero waste” as a thematic priority underscores the central role of this agenda in climate action. By hosting and presiding over this important conference, following the COP held in Brazil, Türkiye has an opportunity to advance innovative solutions and strengthen multilateral cooperation for a more sustainable future.
Allow me to conclude with a reflection: the transition to a zero-waste world does not depend solely on major policies or advanced technologies. It begins with everyday choices about what we consume, what we discard, and how we value the resources we have.
May this International Day of Zero Waste inspire us to act, as individuals, institutions and societies, to build a more sustainable, inclusive and resilient future.
Thank you very much.