Guterres: “Vivemos em um ecossistema econômico e financeiro internacional profundamente injusto”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, no lançamento da Plataforma de Mutuários, em Washington, D.C., em 15 de abril de 2026.
Permitam-me começar dizendo que este é um encontro histórico. Vivemos em um ecossistema econômico e financeiro internacional profundamente injusto e em uma arquitetura financeira internacional profundamente injusta.
E é injusto por uma questão de poder. E, obviamente, aqueles que têm dominado o sistema financeiro internacional não têm sido muito, eu diria, favoráveis às mudanças necessárias para torná-lo equitativo e adaptável às necessidades do mundo como um todo. E o poder, aprendi como político, é muito difícil de ver sendo cedido.
O poder, normalmente, precisa ser conquistado. Acredito que a criação da Plataforma dos Mutuários seja um instrumento essencial para que, no futuro, seja possível uma mudança nas relações de poder, e que essa mudança é absolutamente fundamental para se ter uma arquitetura financeira internacional justa e um eco muito mais equitativo do ecossistema financeiro e econômico internacional.
Portanto, parabéns por esta iniciativa extremamente importante — diria, mais uma vez, histórica.
E gostaria de agradecer ao Presidente do Grupo de Trabalho, o Egito, e ao Vice-Presidente, o Paquistão, bem como aos representantes do Grupo de Trabalho da Colômbia, Honduras, Maldivas, Nepal e Zâmbia, o grupo inicial.
E também gostaria de dizer que temos, do outro lado, alguns aliados, e gostaria de sublinhar que a histórica conferência do ano passado sobre financiamento para o desenvolvimento, que resultou no Compromisso de Sevilha, foi realizada na Espanha e que tivemos forte apoio da Espanha para o tipo de iniciativas que pretendemos levar adiante.
Também quero reconhecer o papel central da UNCTAD como secretariado da importante iniciativa que estamos lançando hoje.
Sinto-me encorajado ao ver um interesse e apoio tão amplos de todas as regiões e grupos.
Essa diversidade reflete tanto a urgência desse esforço quanto o reconhecimento comum de que o sistema global de dívida deve mudar.
Caros amigos,
Hoje lançamos um avanço no financiamento global.
Uma plataforma na qual os países mutuários se reúnem, aprendem uns com os outros e falam com uma voz coletiva.
Os credores dispõem, há muito tempo, de espaços para se coordenarem – o Clube de Paris, o Clube de Londres, o Instituto de Finanças Internacionais e outros mecanismos regulares de consulta.
Mas os mutuários não têm nada equivalente.
Quando ocorrem crises de dívida, eles não contam com um manual de estratégias comprovado ao qual recorrer.
Muitas vezes, carecem da capacidade técnica ou da memória institucional que o outro lado da mesa considera natural.
Às vezes, os mutuários são completamente excluídos da discussão.
Nunca esquecerei as palavras de um presidente africano ao descrever a reestruturação da dívida de seu país no contexto da iniciativa do G20.
Todas as partes interessadas estavam presentes à mesa de negociações, exceto o próprio país.
Os custos dessas lacunas são significativos.
Muitos países estão presos em ciclos de crises de dívida não resolvidas.
Muitos outros mais são prejudicados por enormes pagamentos de dívida que drenam recursos públicos e prejudicam investimentos de longo prazo.
Nas últimas décadas, os países em desenvolvimento pagaram, em média, mais do que o dobro das taxas de juros enfrentadas pelas economias avançadas.
Para as economias africanas, o prêmio chega a 3 vezes as taxas de referência.
Isso deixa os países em desenvolvimento em clara desvantagem na avaliação do financiamento de que necessitam, o que é outro exemplo claro da desigualdade que se esconde no cerne da arquitetura financeira global.
Precisamos corrigir o sistema que torna duas a três vezes mais caro para países em desenvolvimento financiarem educação, saúde ou outro sistema que seja.
Enquanto isso, desde 2014, os pagamentos de juros sobre a dívida pública nos países em desenvolvimento mais do que dobraram.
Hoje, 3,4 bilhões de pessoas vivem em países que gastam mais com o serviço da dívida do que com saúde ou educação.
Os países em desenvolvimento são forçados a subir a ladeira do desenvolvimento com uma mão amarrada nas costas.
Essas pressões estão se intensificando:
- A guerra no Oriente Médio está causando ondas de choque na economia global.
- O aumento do custo dos combustíveis e matérias-primas está restringindo o espaço fiscal.
- Os sistemas de transporte e as cadeias de abastecimento estão sobrecarregados.
- O crescimento está desacelerando e os custos dos empréstimos estão se escalando ainda mais, especialmente para as pessoas mais vulneráveis.
Caros amigos,
A nova Plataforma visa oferecer aos países em desenvolvimento um espaço para se unirem em torno de quatro objetivos comuns:
Primeiro – acelerar o aprendizado
A economia global atual apresenta uma variedade estonteante de credores e instrumentos de crédito.
Navegar por essas opções exige grande conhecimento técnico e experiência.
Essa necessidade se torna ainda mais premente durante episódios de sobreendividamento, quando os países contemplam a reestruturação da dívida, mas geralmente o fazem sem ter acesso ao conhecimento completo sobre o que o processo implicará.
Não é de se admirar que o Quadro Comum do G20 tenha concluído a reestruturação de apenas três países nos últimos 40 anos.
Os países precisam de assistência para descobrir o que funciona e o que não.
Como as diferentes classes de credores devem ser envolvidas.
Como estruturar propostas.
E como navegar instrumentos complexos e técnicos de dívida soberana, incluindo a troca de dívida.
A Plataforma criará um espaço permanente para o intercâmbio entre pares, para que os países possam entrar nas negociações munidos de informações e experiências adquiridas de países que trilharam um caminho semelhante.
E é importante também levar em conta que não existe uma solução única para todos. Muitos dos países reunidos nesta mesa têm dimensões e profundidades diferentes. É importante que essas experiências também sejam compartilhadas. E é importante que todas as situações sejam levadas em conta no trabalho da Plataforma de Mutuários.
Segundo – a Plataforma dará aos mutuários as ferramentas para se envolverem com os credores em pé de igualdade.
Os países em desenvolvimento podem chegar às mesas de negociação informados e munidos de posições respaldadas por análises compartilhadas e experiência coletiva.
Quando ambas as partes estão bem informadas e bem preparadas, as negociações avançam mais rapidamente e os acordos tomam forma.
Terceiro – a Plataforma enviará um sinal claro do mercado aos credores.
Uma melhor gestão da dívida, melhores dados e maior transparência afetam diretamente a percepção de risco nos nossos mercados.
Quando os mutuários fortalecem suas práticas coletivamente, aprendendo uns com os outros, o sinal chega aos investidores.
Transparência, força e certeza, que podem reduzir os custos de empréstimos e proporcionar espaço fiscal para investir em desenvolvimento.
E quarto – a Plataforma oferece aos países mutuários algo de que careciam até agora: uma voz coletiva dentro da arquitetura global da dívida.
É mais um passo em direção a um sistema global de dívida que coloca os mutuários no centro das discussões que determinam seus futuros e garante que suas perspectivas sejam coordenadas, informadas e ouvidas.
Em um nível mais profundo, a Plataforma reflete a realidade do mundo atual.
Os países em desenvolvimento são atores econômicos em ascensão. Sua influência está crescendo.
E a governança global deve se adaptar de acordo. Há uma coisa que venho dizendo aos países desenvolvidos e é a seguinte: se observarmos o G7 dia após dia, vemos que sua participação na economia global é menor do que no dia anterior. E se olharmos para as economias emergentes, algumas delas representadas nesta reunião, vemos que, a cada dia, o grupo das economias emergentes detém uma participação no PIB global maior do que no dia anterior. E essa mudança é estrutural e ajudará a transformar as relações de poder que até agora prevaleceram.
De fato, os países em desenvolvimento são atores econômicos em ascensão, sua influência está crescendo e a governança global deve se adaptar de acordo.
Esta Plataforma não substitui a reforma da arquitetura financeira internacional, mas torna a necessidade dela ainda mais clara.
Caros amigos,
Em julho passado, os Estados-membros concordaram em acelerar o mecanismo de financiamento para países em desenvolvimento por meio do Compromisso de Sevilha.
O Compromisso e a Plataforma que estamos lançando hoje – juntamente com outras iniciativas-chave, incluindo o Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre “Além do PIB” para oferecer novas formas de medir o progresso e o bem-estar – todos reconhecem uma verdade crítica.
No fim das contas, o custo do financiamento não se mede apenas em números:
Mede-se em hospitais e escolas.
Em alimentos, água e saneamento.
Em empregos, proteção social e moradia.
Em sistemas de transporte e infraestrutura resiliente.
E isso se mede na vida das pessoas.
A Plataforma dos Mutuários pode gerar soluções que permitam aos países investir nesses fundamentos — e fazê-lo em termos mais justos e sustentáveis.
Sinto-me profundamente encorajado pela energia e pelo compromisso por trás desta iniciativa e convoco todos os países elegíveis a aderirem.
E ofereço todo o meu apoio à medida que a Plataforma dos Mutuários passa da rampa de lançamento para a decolagem.
Obrigado e desejo-lhes o maior sucesso.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/story/2026/04/1852868