Superando os percursos interrompidos: os caminhos para Vitória
Com uma trajetória de vida marcada pela violência armada, Vitória Rodrigues se tornou comunicadora e ativista que atua pelo direito à cidade.
Vitória Rodrigues, que vem de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, região periférica do estado, e hoje mora na Pavuna, transformou a própria experiência de deslocamento diário em pauta pública. A partir das horas gastas em ônibus e trens, a jovem passou a refletir sobre mobilidade urbana, desigualdade e direito à cidade. Hoje, articula projetos de comunicação e incidência política que nasceram de iniciativas apoiadas pelo UNICEF e seguem inspirando outras juventudes a repensar o espaço urbano de forma mais justa e inclusiva. Atualmente, Vitória é estudante de Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A relação com os problemas de mobilidade e acesso à cidade
A experiência cotidiana de deslocamento e as desigualdades do espaço urbano se transformaram em ponto de partida para a trajetória de Vitória, que, desde cedo, compreendeu como a mobilidade, ou a falta dela, molda, na prática, a vida das pessoas nas periferias.
“Eu pego o ônibus para estudar desde o meu sexto ano. Morava em São João e ia para a Pavuna. Então, desde que eu tenho 11 anos, eu sei o que é passar 1 hora por dia indo e voltando”, relembra a estudante. Dados de 2024 do relatório global de transporte público do Moovit demonstram que essa é uma realidade comum. Segundo o levantamento, o Rio de Janeiro está entre as cidades com maior tempo médio de deslocamento no país: cerca de 58 minutos por trajeto.
“Acredito que a internet pode ser um lugar importante pra gente pautar a justiça social”
Foi da rotina de longos deslocamentos diários pela cidade que surgiu o interesse de Vitória em falar sobre mobilidade urbana e acesso à cidade, temas que mais tarde dariam origem ao projeto Cidades Pra Gente, que conta com dois perfis em redes sociais, no Instagram e no TikTok, que, juntos, somam mais de 23 mil seguidores e mais de 1 milhão de visualizações.
Os perfis, segundo a ativista, foram criados para ampliar o debate sobre o tema. “Eu criei a conta para falar sobre o meu bairro, para que diferentes pessoas pudessem ouvir, porque nem todo mundo está tão acostado a ler artigos de opinião.”
A internet como um espaço de disputa de narrativas
A ideia, segundo ela, era usar a internet como espaço de promoção de justiça social. “Eu queria documentar, mostrar, porque acredito que a internet pode ser um lugar importante pra gente pautar a justiça social e não necessariamente só futilidades, as quais eu adoro assistir também, mas eu também acho que a internet é um lugar de debate.”
Com o tempo, os vídeos começaram a ganhar alcance e inspirar novas iniciativas. “Não esperava nada disso, e agora, quase três anos depois, existe, por exemplo, o movimento Metrô Justo por causa dos vídeos. Então, tem um baita alcance e chega nas pessoas, e eu não esperava.”
Para alcançar mais pessoas nas redes, a comunicadora apostou em um formato de conteúdo menos familiar, a transição da escrita para o audiovisual que, segundo ela, foi desafiadora. “Eu escrevo desde muito nova, então, quando me deparei com os vídeos, foi um grande desafio, porque não dá pra começar um texto da mesma forma que se começa um vídeo. O vídeo precisa ser mais simples, começar com alguma provocação, porque você está disputando atenção com muitos outros conteúdos.”
No processo, Vitória conta que aprendeu a equilibrar forma e conteúdo. “É um exercício de usar palavras mais fáceis, frases mais curtas, construções que engajem. Acho que a diferença do vídeo é que eu tento mexer com as emoções das pessoas, porque quero que elas se sintam engajadas a fazer alguma coisa, mesmo que seja só sentir raiva. Eu quero que as pessoas sintam algo, e a partir disso elas podem buscar a teoria. Quase como uma facilitadora desse sentimento, é um trabalho contra a apatia.”
Participante do Movimento Metrô Justo, iniciativa que busca ampliar o debate sobre transporte público e pressionar por melhorias no sistema metroviário do Rio de Janeiro, Vitória conta mais sobre a iniciativa. “Desde o ano retrasado, a gente faz ações voltadas a pensar o metrô e agora estamos desenvolvendo uma pesquisa de opinião com os usuários.”
A aproximação com o UNICEF: “O UNICEF foi o meu início de vida ativa na sociedade civil. Eu já me entendia como uma pessoa inconformada, mas foi ali que tudo começou de forma mais estruturada”
A relação de Vitória com o UNICEF começou ainda na adolescência, em 2019, a partir de um contexto difícil. “Quando eu entrei no ensino médio, que foi na Fiocruz, foi um lugar que eu desejei muito estar, porque eu estudei muito para poder passar naquela prova e ainda ser sorteada. Mas logo na minha primeira semana de aula eu comecei a ser afetada por tiroteios que aconteciam ali em Manguinhos e na Maré. A Fiocruz é rodeada por favelas, e operações policiais aconteciam o tempo todo”, lembra.
O medo de chegar à escola começou a afetar sua saúde mental e a despertar um senso de urgência sobre o tema da violência nos territórios. Foi nesse período que um amigo seu, que fazia parte do Parlamento Jovem Brasileiro, a incentivou a se envolver no projeto. “Tenho um amigo que fazia parte do Parlamento Jovem e tinha criado um projeto de lei. Eu vi aquilo e pensei: ‘Eu também quero fazer parte disso, quero ir pra Brasília e quero escrever uma lei sobre o que tá pegando aqui no meu coração’”, conta.
A ideia virou ação. “Decidi que ia fazer um projeto de lei sobre violência urbana nas escolas, porque era o que eu estava vivendo ali. Comecei a conversar com meus professores e um deles falou: ‘Por que você não procura quem entende do assunto?’. Fui até o Ministério Público e aí me veio o estalo: ‘Por que não escrever para o UNICEF?’”.
O e-mail enviado por Vitória foi respondido com um convite: “Eu não só fui respondida, como fui convidada a participar de um grupo de jovens que se chamava Jovens com UNICEF, que se encontrava sempre. Eu entrei lá de paraquedas e comecei a frequentar os encontros, que eram excelentes.”
A partir dessa aproximação, a jovem integrou o programa Chama na Solução, uma parceria entre o UNICEF e a Viração Educomunicação, voltada à formação de jovens lideranças e à criação de soluções locais para desafios urbanos e sociais.
“O UNICEF foi o meu início de vida ativa na sociedade civil. Eu já me entendia como uma pessoa inconformada, mas foi ali que tudo começou de forma mais estruturada”, afirma. Dessa experiência nasceu o projeto Ini.se.ativa, que oferece ferramentas e formações de impacto social e empreendedorismo para jovens no Rio de Janeiro.
Essa relação com o UNICEF continua até hoje. Recentemente, Vitória participou de uma mesa no evento de lançamento do estudo Percursos Interrompidos: Efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro. A pesquisa é uma iniciativa do UNICEF, em aliança global com a Fundação Abertis e com a colaboração de sua filial no Brasil, a Arteris, além da parceria com o Instituto Papo Reto e o Instituto Fogo Cruzado.
Próximos trajetos
Apesar das dificuldades de conciliar trabalho, estudos e militância, Vitória segue comprometida em transformar o cotidiano urbano a partir da ação coletiva. “Meus planos para o futuro são conseguir gravar vídeos com mais frequência, mas também entender melhor as dinâmicas de violência na cidade. Quero abordar isso de forma mais madura e continuar perto dos movimentos que lutam pelo direito à cidade: O Metrô Justo, a Casa Fluminense, o Fórum de Mobilidade Urbana, o Tarifa Zero RJ, o Meu Rio, o Observatório dos Trens. Eu quero seguir junto das pessoas, porque, como dizem, se você quer ir mais rápido, vai sozinho, mas se quer ir mais longe, vai junto”.
Priorizando a coletividade, sua atuação é movida por uma visão afetiva e política do território. “Acho que meu ativismo é movido pelas frustrações com as desigualdades da cidade e pelo desejo de transformar essa raiva em ação, em amor e pertencimento. Quero que algum dia a gente tenha orgulho de morar nesse lugar sem tantas dores. Que as pessoas tenham sorrisos no rosto indo e voltando do trabalho, que possam escolher seus caminhos: Se vão de bicicleta, de trem ou de barca pra Baixada. E que essas estradas não sejam impostas, mas escolhidas”.
Mais do que uma pauta, a mobilidade urbana e o direito à cidade é, para Vitória, um espelho das possibilidades de uma cidade mais justa.
“Quero ver pessoas felizes, adoro ver gente feliz. E com direito à cidade, dá pra gente ver pessoas felizes”, conclui.
Para saber mais, siga @unicefbrasil nas redes!