Guterres: “Migrantes estão sendo usados como bodes expiatórios para ganhos políticos”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, no Fórum Internacional de Revisão das Migrações , em 7 de maio de 2026.
A migração é parte integrante da história da humanidade – uma atividade tão antiga quanto a própria humanidade.
Ela ajudou a construir sociedades, a impulsionar o crescimento econômico e a estimular a inovação em todo o mundo.
No entanto, hoje, a migração está sendo distorcida pelo medo e pela desinformação.
Os migrantes estão sendo usados como bodes expiatórios para ganhos políticos.
Desumanizados no discurso público.
E privados de seus direitos e dignidade.
Sejamos claros:
A migração não é a crise.
A crise é o fracasso coletivo do mundo em gerenciá-la em conjunto.
É por isso que estamos aqui – para ouvir, aprender e fortalecer a cooperação.
Tenho o prazer de me juntar ao presidente da Assembleia Geral para este fórum vital.
E sou grato à diretora-geral da OIM, Amy Pope, por coordenar o importante trabalho preparatório da Rede das Nações Unidas sobre Migração.
Também dou as boas-vindas calorosas aos líderes das comunidades de migrantes. Suas vozes e experiências são indispensáveis.
Excelências, Senhoras e Senhores,
O Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular representa um marco na cooperação multilateral.
Desde sua adoção, os Estados-membros tomaram medidas concretas para ampliar as vias regulares, fortalecer iniciativas de mobilidade trabalhista, melhorar as operações de busca e resgate, aprimorar os sistemas de dados e apoiar retorno e reintegração mais seguros.
A cada quatro anos, este Fórum oferece uma oportunidade para avaliar o progresso, enfrentar os desafios com honestidade e definir com clareza as prioridades para o caminho a seguir.
Meu relatório recente, elaborado com esse objetivo, transmite uma mensagem contundente:
Ao longo de quatro anos, pelo menos 200.000 vítimas foram traficadas – a maioria delas mulheres e meninas.
Em apenas dois anos, mais de 15.000 pessoas morreram ou desapareceram ao longo das rotas migratórias.
Famílias e crianças continuam detidas.
E inúmeros trabalhadores continuam sendo explorados e excluídos das proteções trabalhistas.
A conclusão confirma uma verdade duradoura e a razão fundamental pela qual temos o Pacto Global:
Nenhum país pode gerenciar a migração sozinho.
Precisamos de cooperação – entre fronteiras, entre governos, em toda a sociedade.
Precisamos fazer melhor – juntos – e o Pacto nos mostra como.
Gostaria de destacar seis maneiras de agir com determinação e cumprir seus compromissos:
Primeiro, os direitos humanos devem estar em primeiro plano.
Toda pessoa em movimento tem direitos – independentemente de seu status.
Isso significa que os governos devem intensificar os esforços para acabar com práticas discriminatórias.
Garantir o devido processo legal.
Priorizar alternativas à detenção.
E acabar com a detenção de crianças e famílias por motivos migratórios.
Isso também significa acesso real à educação, moradia, assistência médica e proteção social – e ações mais contundentes para proteger mulheres e meninas contra o tráfico e a violência de gênero.
A governança migratória deve estar ancorada na dignidade, na humanidade e nos direitos.
Segundo, a migração deve se tornar mais segura.
Isso requer sistemas de alerta precoce, dados mais precisos e cooperação mais forte para identificar e assistir migrantes em situação de perigo.
Isso exige operações de busca, resgate e desembarque em conformidade com o direito internacional.
E exige que os retornos – quando ocorrerem – sejam seguros e dignos.
Sem expulsão. Sem desaparecimentos. Sem tortura.
Terceiro, devemos reprimir com firmeza os contrabandistas e traficantes.
Eles exploram o desespero. Monetizam o sofrimento. E lucram com a morte.
Trata-se de redes criminosas transnacionais – e precisam ser combatidas de acordo.
Com os mesmos mecanismos de cooperação internacional, as mesmas ferramentas de regulamentação financeira e o mesmo nível de recursos que vemos nos esforços globais para coibir o tráfico de drogas.
Não é aceitável que façamos tão pouco, em comparação, para coibir o contrabando e o tráfico de seres humanos.
Os Estados devem trabalhar juntos para desmantelar essas redes criminosas – cortando seus fluxos financeiros, fortalecendo a cooperação transfronteiriça na aplicação da lei e responsabilizando os perpetradores em todos os níveis.
Acabar com o tráfico e o contrabando não é apenas um imperativo de segurança – é um imperativo moral.
Quarto, devemos tornar as vias regulares reais e funcionais – para estudantes, trabalhadores de todos os níveis de qualificação, famílias e aqueles que buscam segurança e proteção.
As vias regulares reduzem os movimentos irregulares, coíbem a exploração, atendem às necessidades do mercado de trabalho e mantêm as famílias unidas.
Para que funcionem, devemos acelerar o recrutamento justo e ético, abolir as taxas de recrutamento pagas pelos trabalhadores, reconhecer as qualificações e reduzir os custos das remessas.
E devemos garantir identidade legal para todas as pessoas – e a portabilidade dos benefícios da previdência social.
Quando as vias são previsíveis, justas e acessíveis, todos se beneficiam.
Portanto, atuemos para ampliá-las, reconhecendo as enormes contribuições que os migrantes fazem nos países de origem, de trânsito e de destino.
Quinto, devemos ampliar as oportunidades nos países de origem.
Investir em grande escala em educação, aquisição de competências e trabalho decente – especialmente para os jovens – pode impulsionar carreiras e reduzir a pressão para embarcar em jornadas perigosas.
Isso significa cumprir com o Compromisso de Sevilha – aproveitando de forma mais eficaz a assistência ao desenvolvimento, os bancos multilaterais de desenvolvimento, as trocas de dívida e outros instrumentos financeiros, para que os países de origem possam ampliar as oportunidades em seu próprio território.
E reforçando a mobilização de recursos internos e alinhando os orçamentos nacionais a essas necessidades essenciais.
A migração deve ser uma escolha genuína.
E, sexto, devemos investir na cooperação.
Dados de melhor qualidade, alinhados com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável – e as eficiências delineadas na Iniciativa ONU80 – são essenciais para uma formulação de políticas mais inteligentes e humanas.
Devemos também fortalecer as sinergias com o Pacto Global sobre Refugiados, já que pessoas que fogem de conflitos e pessoas em busca de oportunidades viajam cada vez mais juntas.
A Rede das Nações Unidas sobre Migração e o Fundo Fiduciário Multiparceiros para a Migração são ferramentas importantes para todos esses esforços.
Desde 2019, o Fundo Fiduciário mobilizou US$ 68 milhões para proteger direitos, fortalecer a prestação de contas e conectar partes interessadas entre regiões.
Exorto mais parceiros a se unirem a este esforço.
Excelências, Senhoras e Senhores,
O Pacto para o Futuro reconhece a migração segura, ordenada e regular como uma prioridade crítica – e reafirma o Pacto Global como o caminho a seguir.
Este Fórum é o nosso momento de acelerar – com compromissos concretos, aprendizagem entre pares e metas mensuráveis.
Mostremos como a cooperação multilateral produz resultados.
Nas fronteiras e nas comunidades.
Nas escolas e nos mercados de trabalho.
Nos consulados e nos tribunais.
E, acima de tudo, nas vidas dos migrantes e nas sociedades que fortalecem.
Obrigado.
Para saber mais, siga @oimbrasil nas redes e acompanhe a cobertura da ONU News em português.