“Juntos somos melhores: Uma Carta, Um Futuro”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na reunião informal da Assembleia Geral em comemoração ao Dia da Carta das Nações Unidas, em 26 de junho.
Senhora presidente da Assembleia Geral, Excelências, senhoras e senhores, queridas crianças,
A Carta das Nações Unidas começa com três palavras simples:
“Nós, os povos.”
Não nós, os poderosos.
Não nós, os vitoriosos.
Nós, os povos — todos nós — unidos por uma única convicção: de que estamos mais seguros, mais fortes e mais humanos quando permanecemos unidos.
A Carta foi uma promessa ao mundo:
De que a humanidade pode escolher a cooperação em vez do caos; a lei em vez da ilegalidade; a dignidade em vez da dominação; e a esperança em vez do medo.
Uma promessa feita das cinzas da guerra – e levada adiante por todas as gerações desde então.
Por oitenta e um anos, temos nos empenhado em manter essa promessa viva;
Apoiando os povos em sua luta pela autodeterminação e acolhendo novas nações como iguais.
Em meio a conflitos e rivalidades, em meio a choques e reveses.
E até hoje, nunca paramos – mesmo nos cantos mais difíceis da Terra:
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Capacetes azuis se colocando entre famílias e a catástrofe.
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Comboios humanitários levando esperança às pessoas famintas.
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Vacinas chegando às pessoas esquecidas.
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Mediadores mantendo uma porta aberta quando todas as outras se fecharam.
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Juízes internacionais que resolvem disputas entre nações.
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E apoio ao desenvolvimento que ajuda as comunidades a construir uma vida melhor.
Milhões de pessoas salvas, protegidas e transformadas.
As Nações Unidas nunca foram perfeitas.
Mas são insubstituíveis.
Hoje, essa promessa está sendo testada até o limite.
Vemos isso em toda parte:
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Guerras de expansão territorial se arrastando.
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A fome usada como arma e a ajuda humanitária como moeda de troca.
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Civis tratados como alvos.
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Cessar-fogos proclamados em um dia e violados no dia seguinte.
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A sombra nuclear que juramos eliminar está se alongando mais uma vez.
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O direito internacional invocado quando convém – e ignorado quando não.
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As desigualdades e a desconfiança se ampliando.
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Um mundo onde as regras se aplicam apenas a alguns não é um mundo de ordem.
É um mundo de incerteza, injustiça e impunidade.
Alguns nos dizem que a resposta a essa turbulência é recuar – para trás de muros, para trás de fronteiras, para trás da ficção reconfortante de que qualquer nação pode enfrentar sozinha as tempestades de nossa época.
Eles estão errados.
Recuar não é segurança.
É rendição.
Nenhuma fronteira é capaz de conter o aquecimento global.
Nenhum país consegue, sozinho, governar a inteligência artificial, acabar com uma pandemia ou proteger seu povo dos choques globais.
Em um mundo de perigos compartilhados, a cooperação não é ingenuidade.
É o realismo mais lúcido que existe.
Mas a cooperação só funciona quando se baseia em regras:
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Regras que se aplicam a todos.
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Regras que protegem a todos.
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Regras estabelecidas na Carta.
Já disse isso antes: a Carta não é um menu à la carte.
Seus princípios não são opcionais e não são negociáveis:
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Eles exigem respeito pela igualdade soberana de todos os Estados.
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Proíbem a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.
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Exigem que as controvérsias internacionais sejam resolvidas por meios pacíficos.
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E que os direitos humanos sejam respeitados sem dois pesos e duas medidas.
Eles garantem a cada Estado-membro a liberdade de escolha e a cada povo a proteção da lei.
Quando esses alicerces são enfraquecidos, todos os países ficam menos seguros.
É por isso que devemos defender os objetivos e princípios da Carta e respeitar o direito internacional, incluindo o direito internacional humanitário.
Devemos fortalecer a diplomacia e a solidariedade entre as regiões e acelerar as ações em prol do desenvolvimento sustentável – pois paz, dignidade e oportunidades andam de mãos dadas.
E devemos construir uma Organização das Nações Unidas que se adapte a um mundo em transformação.
Excelências,
Sim, precisamos fazer reformas.
O Conselho de Segurança deve refletir o mundo de hoje, não o mundo de 1945.
O mesmo se aplica à arquitetura financeira internacional.
E a própria Organização das Nações Unidas deve continuar a evoluir — por meio da Iniciativa ONU80 e além dela — para servir com maior eficiência e impacto.
Mas a reforma deve fortalecer a Organização das Nações Unidas — e não enfraquecê-la.
A resposta não é menos cooperação.
É uma cooperação mais forte.
Cooperação enraizada na Carta – e na simples verdade de que nossos futuros estão interligados.
Cooperação que reconstrói a confiança por meio da ação, defende os princípios que nos unem e prova que o multilateralismo pode trazer benefícios para as pessoas.
Esse é o espírito deste encontro:
Juntos, somos melhores.
Uma Carta.
Um futuro.
A Carta surgiu de uma catástrofe – e da coragem de construir um mundo melhor.
Esse trabalho ainda não está concluído.
E cabe a nós.
Defender a Carta.
Fortalecer as Nações Unidas.
Escolher – mais uma vez – a paz, a justiça e nossa humanidade comum.
E provar o que se torna possível quando “nós, os povos”, agimos como um só.
Obrigado.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português e visite a página especial da ONU Brasil sobre os 80 anos das Nações Unidas.