Guterres: “Os Estados têm a obrigação de prevenir o genocídio”
10 julho 2026
Discurso do secretário-geral António Guterres para o Dia Internacional de Reflexão e Memória do Genocídio de 1995 em Srebrenica, assinalado em 11 de julho.
Excelências, sobreviventes, familiares das vítimas, ilustres convidados,
É para mim uma honra estar aqui hoje com vocês, em memória das vítimas do genocídio em Srebrenica.
Em julho de 1995, mais de 8.000 homens e meninos muçulmanos bósnios — muitos dos quais buscavam proteção no complexo das Nações Unidas em Potočari — foram sistematicamente separados de suas famílias, executados e enterrados em valas comuns.
Milhares de mulheres, crianças e idosos foram deslocados à força.
Uma geração inteira foi privada de seu futuro.
Foi a pior atrocidade cometida em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial.
Mas a intenção de aniquilar os muçulmanos bósnios de Srebrenica fracassou.
As pessoas sobreviventes — algumas das quais estão aqui conosco hoje — são a prova viva disso.
Elas prestaram depoimento, repetidas vezes, perante tribunais nacionais e internacionais.
Entre elas, as Mães de Srebrenica demonstraram coragem extraordinária em sua busca pela verdade e pela justiça.
Elas reconstruíram comunidades devastadas e criaram seus filhos e netos não com ódio ou vingança, mas com amor e compaixão:
O único caminho pelo qual uma comunidade em luto pode se recuperar – mesmo que a dor persista.
Legenda: Em maio de 2024, a Assembleia Geral das Nações Unidas, por meio de uma resolução apresentada pela Alemanha e Ruanda, designou o dia 11 de julho como o Dia Internacional de Reflexão e Memória do Genocídio de Srebrenica de 1995.
Celebrá-lo é assumir um dever: reafirmar os fatos estabelecidos pelos tribunais, reconhecer o sofrimento das vítimas e buscar a responsabilização.
É assim que se reconstrói a confiança, se sustenta a paz e se previnem atrocidades.
Também reafirmaram que a responsabilidade por esse crime é individual e não pode ser atribuída a qualquer grupo ou comunidade étnica, religiosa ou de outra natureza.
O direito internacional também é claro: os Estados têm a obrigação de prevenir o genocídio.
Defender essas conclusões contra o negacionismo e o revisionismo histórico — e assegurar que as vozes das vítimas jamais sejam silenciadas — é um dever que todas e todos nós compartilhamos.
Somente ao reconhecer o sofrimento de cada vítima poderemos construir a empatia sobre a qual qualquer futuro deve se fundamentar:
Um futuro em que não haja lugar para a negação do genocídio nem para o revisionismo histórico.
Um futuro em que o diálogo, e não a divisão, nos conduza à paz.
Mas também precisamos enfrentar uma realidade difícil.
Depois de Srebrenica, o mundo voltou a dizer: “Nunca mais”.
No entanto, como sabemos, o discurso de ódio está em ascensão, alimentando a discriminação, o extremismo e a divisão.
Criminosos de guerra condenados são glorificados.
Não podemos ignorar esses sinais de alerta.
Precisamos agir desde cedo, pois a prevenção é um dever compartilhado e nossa proteção mais eficaz.
Neste Dia Internacional, conclamo todos os Estados-membros a honrar sua responsabilidade compartilhada: enfrentar o negacionismo com a verdade e a impunidade com a justiça.
Legenda: Lápides marcam os locais de descanso final dos homens e meninos que foram mortos no genocídio de Srebrenica, em julho de 1995.
Por isso, hoje, recordamos e homenageamos as vítimas com humildade e determinação.
Humildade diante de seu sofrimento imensurável.
Determinação para que tal horror nunca se repita.
Aos sobreviventes e às famílias: estamos ao lado de vocês, com respeito e solidariedade.
E peço a todas as pessoas, em todos os lugares, que se lembrem de Srebrenica – que ouçam aqueles que viveram isso e que ajam de acordo com o que eles nos ensinam.
Em defesa da dignidade humana, da paz e da justiça.