Alto Comissário: “Os direitos humanos são o elo que nos une”
Discurso do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, na 62ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, em 15 de junho, em Genebra.
Senhor presidente, Excelências, ilustres delegados,
A luta pelos direitos humanos é uma história de enorme progresso seguido de retrocesso.
De avanços e perdas.
De passos para frente, para trás e para os lados.
Mas a trajetória é clara: em última instância, ela leva a maior liberdade.
Esta Revisão Global é um retrato de um mosaico complexo que desafia as noções binárias de bom ou ruim, aliados ou inimigos.
É evidente que enfrentamos desafios muito sérios em matéria de direitos humanos. Um ataque sem precedentes e descarado contra o direito internacional está causando sofrimento humano terrível. Devemos denunciá-lo, sempre e em todos os lugares, e trabalhar para contê-lo e pôr fim a ele.
Ao mesmo tempo, o trabalho concreto em prol dos direitos humanos está proporcionando segurança, dignidade e liberdade a milhões de pessoas todos os dias.
Longe das manchetes, os direitos humanos estão melhorando vidas, sanando divisões e criando oportunidades. A Declaração Universal e os principais tratados são cada vez mais importantes.
Não é de se admirar que, quando questionadas, a grande maioria das pessoas afirme querer mais direitos humanos – e não menos.
Nunca esqueço as palavras da ganhadora do Prêmio Nobel, Toni Morrison:
“A função mais grave do racismo é a distração.”
Não nos deixemos distrair.
Continuemos com nosso trabalho de promoção e proteção dos direitos humanos – e façamos todo o possível para fortalecer seus fundamentos jurídicos.
Apenas um acordo global – a Convenção contra as Minas Terrestres – ajudou a reduzir as vítimas dessas armas hediondas em mais de 75% entre 1999 e o início da década de 2020.
Muitos autores de crimes atrozes nunca teriam sido levados à justiça sem o trabalho em defesa dos direitos humanos.
Os direitos humanos precisam estar no centro das questões urgentes da atualidade — desde a crise climática até as diretrizes sobre inteligência artificial, desde o surto de ebola até a Copa do Mundo masculina.
Exorto os líderes do G7, reunidos do outro lado do lago, a colocarem os direitos humanos no centro de suas discussões, como uma força para a estabilidade e o progresso.
Senhor presidente,
Recebo com satisfação o anúncio de que os Estados Unidos e o Irã chegaram a um acordo de paz que prevê um cessar-fogo imediato e permanente, a reabertura do Estreito de Ormuz e um marco para novas negociações. O conflito teve um impacto devastador sobre os direitos humanos na região e em todo o mundo.
Os últimos meses demonstraram que as profundas divergências na região não podem ser resolvidas por meios militares.
Lamento o uso da força contra o Irã por parte de Israel e dos Estados Unidos, que, segundo relatórios, matou milhares de civis, incluindo centenas de crianças, e destruiu hospitais, escolas, residências e outras infraestruturas. Reitero meu apelo para que sejam divulgados os resultados da investigação dos EUA sobre o terrível ataque à escola de Minab.
Os ataques do Irã à infraestrutura civil nos países do Golfo e na Jordânia, bem como seu bloqueio do Estreito de Ormuz, são totalmente inaceitáveis. O bloqueio teve consequências terríveis para a economia global, para a entrega de ajuda humanitária e para os mais vulneráveis, incluindo cerca de 20 mil trabalhadores marítimos. O Vice Alto Comissário irá informá-los sobre isso ainda hoje.
Sinto profunda solidariedade pelo povo do Irã, preso entre a guerra e a repressão cruel. Desde que mataram milhares de pessoas durante a repressão atroz aos protestos em janeiro deste ano, as autoridades intensificaram sua repressão brutal, prendendo milhares e impondo restrições ainda mais severas ao espaço cívico. Elas executaram pelo menos 40 pessoas por motivos de segurança nacional até agora neste ano, incluindo 18 manifestantes.
Senhor presidente,
Neste momento delicado, fica claro que todas as partes precisam exercer a máxima moderação e trabalhar para implementar este acordo rapidamente e de boa-fé.
Em Gaza, as forças israelenses mataram quase 1.000 palestinos desde que o cessar-fogo foi anunciado em outubro passado, a grande maioria civis. As autoridades israelenses estão empurrando os palestinos para uma porção cada vez menor do território e impondo restrições à ajuda humanitária essencial à sobrevivência.
Na Cisjordânia, as forças de segurança israelenses e os colonos estão acelerando a destruição de comunidades e a anexação de território. Até o momento, neste ano, eles mataram 57 pessoas, feriram quase 1.300, detiveram centenas e emitiram 23 ordens de confisco de terras.
Enquanto isso, desde o cessar-fogo, registramos pelo menos 82 casos relatados de palestinos mortos pelo Hamas.
Algumas autoridades israelenses de alto escalão falaram publicamente sobre a expulsão de todos os palestinos de Gaza e sobre o fim de qualquer possibilidade de um Estado palestino viável. Tudo isso é totalmente ilegal.
Os sinais de alerta já se esgotaram. Nossas inúmeras advertências anteriores não foram levadas em conta.
Todos aqueles com influência devem exercer pressão para que o cessar-fogo se torne realidade, para pôr fim ao sofrimento insuportável dos palestinos e para que os responsáveis prestem contas.
Senhor presidente,
A nova escalada entre o Hezbollah e Israel, desde 2 de março, arrastou o povo libanês mais uma vez para uma guerra que não foi provocada pelos libaneses. Espero que o anúncio de ontem lhes traga o alívio tão necessário.
Estou alarmado com os ataques generalizados de Israel a áreas populosas e à infraestrutura essencial. Estima-se que cerca de 3.600 pessoas tenham sido mortas, incluindo centenas de mulheres e crianças, e mais de 11.000 feridas. Juntamente com ordens de deslocamento em grande escala, esses ataques forçaram mais de um milhão de pessoas a abandonar seus lares.
Ao mesmo tempo, o Hezbollah está lançando ataques sofisticados e de longo alcance contra Israel, causando mortes e ferimentos entre civis.
Vinte e seis civis foram mortos em Israel, segundo relatórios, desde o final de fevereiro, nas hostilidades entre Israel e o Hezbollah, e entre Israel e o Irã.
Exijo o fim imediato das hostilidades, a retirada de Israel do território libanês e investigações sobre as violações cometidas por todas as partes do Direito Internacional Humanitário e dos Direitos Humanos.
Estamos enviando nossa própria missão de avaliação independente e imparcial ao Líbano, em acordo com o Governo.
Senhor presidente,
No Sudão, o terrível conflito se expandiu e se intensificou, marcado por um aumento acentuado no uso de drones em combate. Entre janeiro e maio de 2026, nosso escritório documentou mais de 1.000 civis mortos por ataques com drones. Estupros e violência sexual são generalizados.
Na Ucrânia, é profundamente preocupante que a terrível guerra tenha se intensificado drasticamente nos últimos meses. Minha equipe verificou que mais de 7.000 civis foram mortos ou feridos nos primeiros cinco meses de 2026 – um número superior ao registrado no mesmo período em qualquer um dos três anos anteriores.
A situação dos direitos humanos e da segurança no leste da República Democrática do Congo continua altamente instável. Os confrontos entre as forças armadas congolesas e grupos armados em Kivu do Norte e do Sul estão complicando a resposta ao mortal vírus ebola.
Forneceremos mais detalhes ao Conselho sobre essas três situações.
Senhor presidente,
Estou chocado com a abordagem imprudente e irresponsável em relação à vida humana que caracteriza algumas das decisões globais atuais.
Estamos testemunhando uma mudança global na forma como a guerra é travada. No Sudão, drones de longo alcance destruíram comboios de ajuda humanitária e, como eu mesmo vi, infraestrutura energética vital. Na Ucrânia, ataques implacáveis com drones causaram vítimas em massa e aterrorizaram civis. Na RDC, em Gaza, em Israel, no Líbano e em Mianmar, a guerra com drones está criando um novo círculo do inferno.
A ONU vem alertando há muitos anos contra o desenvolvimento de armas autônomas letais. Essa realidade agora está diante de nós.
Os Estados precisam, com urgência, considerar as questões morais e jurídicas que isso levanta; chegar a um acordo sobre uma abordagem comum que proteja vidas civis; e renovar seu compromisso com a diplomacia e a mediação. Eles devem atualizar os marcos legais para exigir o controle humano e garantir a prestação de contas.
As armas autônomas não podem se tornar uma licença para crimes atrozes.
A perspectiva de armas de bilhões de dólares, equipadas com IA, sendo derrubadas por escudos defensivos de bilhões de dólares, também equipados com IA, expõe o horror, o vazio e a futilidade da guerra.
Especialistas em segurança alertam que operações militares desenfreadas, que arrasam áreas inteiras, estão alimentando ressentimentos e contribuindo para uma nova geração de extremistas. Isso nunca irá levar a uma segurança duradoura.
Precisamos nos concentrar muito mais nos fatores financeiros que impulsionam esse niilismo. Quem se beneficia?
Precisamos substituir economias de guerra por economias baseadas nos direitos humanos.
Senhor presidente,
Pessoas em todo o mundo clamam por ações ancoradas nos direitos humanos, para amenizar as tensões e prevenir conflitos.
A região central do Sahel encontra-se em um ponto de mudança perigoso.
Em Mali, grupos armados extremistas lançaram ataques coordenados contra várias cidades e municípios em abril, causando um grande número de vítimas civis. Estou preocupado com relatos de que as forças de segurança realizaram execuções extrajudiciais, sequestraram oponentes políticos e detiveram jornalistas proeminentes por exercerem sua profissão.
Em Burkina Faso, grupos armados extremistas continuam a atacar, sequestrar e ameaçar civis. Lamento que as autoridades tenham dissolvido ou suspendido mais de 930 organizações da sociedade civil desde abril.
Os ataques de grupos armados extremistas no Níger estão aumentando, e a formação dos chamados grupos de autodefesa acarreta sérios riscos de abusos e violência intercomunitária. Ninguém foi responsabilizado pelas violações reportadas cometidas pelos militares.
Nos Camarões, a situação de segurança nas regiões noroeste e sudoeste continua profundamente preocupante, já que as forças de segurança e grupos separatistas armados estão implicados em execuções ilegais e sequestros. Pelo menos vinte pessoas teriam sido mortas somente em abril de 2026.
Na Nigéria, exorto as autoridades a conduzirem uma investigação imediata e independente sobre os ataques aéreos realizados pelos militares que, segundo relatos, mataram mais de 100 civis no norte do país em maio. Também estou profundamente preocupado com os repetidos sequestros de crianças em idade escolar e professores.
Na Etiópia, o conflito armado em Amhara e Oromia continua inabalável, com as partes envolvidas matando, sequestrando, estuprando, prendendo e detendo civis. Continuo preocupado com a situação em Tigray. Relatos de violência envolvendo cristãos, ortodoxos e muçulmanos em Oromia refletem uma escalada preocupante das tensões intercomunitárias.
A Somália enfrenta um aumento da insegurança e das necessidades humanitárias. As reformas eleitorais propostas provocaram um aumento das tensões e da violência. Meu novo escritório, acordado recentemente, trabalhará para apoiar o povo somali.
No Haiti, a violência das gangues resultou em pelo menos 2.300 mortes, 1.100 feridos e 99 sequestros desde o início do ano. Exorto as autoridades a agirem rapidamente por meio das unidades judiciais para combater a impunidade. A Força de Repressão às Gangues é urgentemente necessária e precisa operar em conformidade com o direito internacional dos direitos humanos.
Cuba está passando por uma emergência em matéria de direitos humanos, sufocada pelas sanções dos EUA. O alarme está em vermelho – precisamos urgentemente de uma redução da tensão.
No Peru, o próximo governo precisará priorizar a restauração do Estado de Direito, a independência das instituições judiciais e um diálogo nacional para curar uma sociedade profundamente dividida.
Na Síria, milhares de vítimas e sobreviventes exigem justiça e responsabilização. O julgamento do ex-presidente e de outras autoridades – embora, neste momento, principalmente à revelia – é um passo importante. Esses processos precisam respeitar os padrões internacionais; e outros devem se seguir. Meu escritório está trabalhando para apoiar a justiça de transição e promover a reconciliação. O povo sírio precisa ser capaz de construir seu próprio futuro sem interferência externa.
No Iêmen, reitero meu apelo para que as autoridades houthis libertem imediatamente e incondicionalmente os funcionários das Nações Unidas, das organizações da sociedade civil e das missões diplomáticas, incluindo oito membros da minha própria equipe. Essas detenções são totalmente inaceitáveis.
Senhor presidente,
Os cortes na ajuda humanitária em todo o mundo estão causando um impacto catastrófico sobre os direitos humanos.
As necessidades humanitárias totais para este ano equivalem a apenas três dias de gastos militares globais. O financiamento necessário para o meu escritório ao longo de todo este ano é menor do que o que o mundo gasta com armas e soldados em duas horas.
A menos que mudemos de rumo, a pobreza e a fome aumentarão drasticamente, as tensões se intensificarão e mais pessoas serão forçadas a abandonar seus lares, percorrendo rotas migratórias inseguras.
Isso afeta a todas as pessoas. Nenhum país está imune.
A instabilidade, as desigualdades e a governança fraca são terreno fértil para o extremismo e os conflitos. Elas também alimentam o crime transnacional, incluindo o tráfico de drogas ilícitas, que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano.
Grupos criminosos estão explorando crises globais, conflitos e migração para expandir suas atividades, do Afeganistão à Guiné-Bissau, passando pelo Sahel e pelas Américas.
A violência associada ao tráfico de drogas aumentou drasticamente em muitos países ao longo das rotas de tráfico.
Enquanto isso, a chamada “guerra contra as drogas” tornou-se um círculo vicioso. Respostas militarizadas, particularmente nas Américas, alimentam ainda mais a violência.
Os Estados Unidos da América, segundo relatórios, mataram mais de 200 pessoas em ataques aéreos contra embarcações civis no Caribe e no Pacífico Oriental. Chamar esses ataques de parte de uma guerra contra o narcoterrorismo não os justifica.
As drogas ilícitas também estão causando um impacto negativo enorme no nosso clima e no meio ambiente, desde o estresse hídrico até o desmatamento e o descarte de resíduos tóxicos.
Os governos precisam combater a corrupção, fortalecer as instituições e investir na redução de danos, na educação, na saúde e na geração de empregos.
Senhor presidente,
Em minha última Revisão Global, falei sobre o manual autoritário. Ele está ficando mais volumoso a cada dia.
Nossos dados preliminares indicam que cerca de 950 defensores dos direitos humanos, jornalistas e sindicalistas foram assassinados ou sofreram desaparecimento forçado em todo o mundo em 2025 – mais do que o dobro do número registrado há uma década.
Em Uganda, por exemplo, a nova Lei de Proteção da Soberania reforça o controle do Estado sobre as organizações da sociedade civil.
Na Bielorrússia, no Irã e na Rússia, milhares de ativistas de direitos humanos e jornalistas são criminalizados e processados como terroristas e extremistas.
Na Sérvia, as reivindicações dos protestos anticorrupção permanecem sem resposta há muitos meses, enquanto a situação dos direitos humanos se deteriora.
Na Índia, após decisões judiciais bem-vindas que concederam fiança a defensores dos direitos humanos que se encontravam em longa prisão preventiva, exorto à sua libertação imediata.
Os ataques contra defensores dos direitos humanos ambientais estão aumentando. Nossos dados mais recentes mostram que eles estão detidos em pelo menos 55 países.
A censura à mídia está crescendo, enquanto a liberdade de expressão está em declínio em 44 países, de acordo com várias pesquisas.
Globalmente, meu escritório registrou mais de 800 jornalistas e profissionais da mídia atrás das grades, incluindo jornalistas e produtores de conteúdo sobre direitos humanos. Mais recentemente, jornalistas foram processados sob acusações vagas na Tunísia e na Turquia.
E no Gabão, no Irã, na República do Congo e na Rússia, as autoridades restringiram o acesso à informação por meio de bloqueios à internet. A Zâmbia forçou o cancelamento da RightsCon, a maior conferência mundial sobre tecnologia digital e direitos humanos.
Em todo o mundo, particularmente no Sudeste e no Leste Asiático, e em partes da África, Ásia Central, Europa e América Central, a repressão transnacional é cada vez mais utilizada como ferramenta de perseguição transfronteiriça, para perseguir críticos do governo e defensores dos direitos humanos. Vários governos estão até mesmo fazendo uso indevido dos processos da Interpol para esse fim. Precisamos dar muito mais ênfase a essa questão.
Senhor presidente,
A história mostra que governos autoritários muitas vezes conseguiram confinar milhões de pessoas a uma realidade paralela de conspirações e mentiras.
A extrema concentração atual de poder político, econômico e tecnológico está facilitando isso.
Quando consideramos as quantias impressionantes gastas pelos magnatas da tecnologia em lobby, fica claro que a inovação de hoje muitas vezes atende a interesses privados, em vez do bem público.
Enquanto isso, nos são oferecidos novos produtos – como óculos com IA – que criam barreiras cada vez mais sofisticadas entre as pessoas e a realidade. Gostaria que alguém inventasse óculos que nos ajudassem a enxergar a humanidade uns nos outros.
Algumas empresas de tecnologia e países, particularmente na União Europeia, estão considerando restrições relacionadas à idade nas redes sociais, como parte de seus esforços para proteger as crianças na internet.
As novas diretrizes do meu escritório sobre IA e direitos da criança podem ajudar a garantir que essas medidas sejam fundamentadas nos direitos humanos.
A reação organizada contra a igualdade de gênero constitui um dos maiores capítulos do manual autoritário.
A violência contra as mulheres é tratada como um fato triste, mas aceitável, tendo como pano de fundo uma retórica misógina e conteúdo agressivo na internet.
A chamada “machosfera” lucra com estereótipos prejudiciais que minam os direitos tanto de homens jovens quanto de mulheres. Pesquisas recentes mostram que os homens da Geração Z em muitos países se opõem mais à independência das mulheres do que seus avós.
A nova lei do Afeganistão, que implica a legitimação do casamento infantil, agrava o sofrimento das mulheres e meninas afegãs. É desprezível e deve ser abolida, juntamente com todas as outras medidas gravemente discriminatórias.
A Rússia está intensificando sua perseguição às comunidades LGBTIQ+. Somente nos últimos três meses, pelo menos nove organizações que defendem seus direitos foram classificadas como extremistas.
Lamento a decisão do parlamento ganês de aprovar um projeto de lei com sanções penais mais severas contra pessoas LGBTQ+ e defensores dos direitos humanos. Exorto o presidente a não assinar essa lei.
Também lamento a adoção de disposições legais no Níger que criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo, com sanções severas.
Seis anos após a morte de George Floyd, o joelho ainda está sobre o pescoço de muitas pessoas negras em todo o mundo.
Grupos nacionalistas brancos reclamam de supostos padrões duplos e de um policiamento seletivo. Mas os fatos mostram que, em todas as regiões, a polícia é várias vezes mais propensa a usar a força contra pessoas de descendência africana.
A desumanização de migrantes e refugiados, inclusive no Reino Unido, nos EUA e em muitos países da União Europeia, é chocante, levando frequentemente também à negação de seus direitos.
As novas regras da União Europeia sobre o retorno de migrantes correm o risco de ampliar o uso da detenção, estabelecer centros de retorno em territórios extraterritoriais e enfraquecer as salvaguardas contra a repulsão. Também estou preocupado com a crescente pressão de alguns Estados sobre o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em relação à legislação sobre migração e refugiados.
Estou particularmente preocupado com a tendência contínua de retornos involuntários de requerentes de asilo e refugiados afegãos, provenientes de países como o Irã e o Paquistão, para o Afeganistão, em violação ao direito internacional dos refugiados.
Na África do Sul, a pobreza e as desigualdades estão gerando tensões sociais, incluindo xenofobia e violência contra migrantes e refugiados. Confio que o governo cumprirá sua promessa de colocar os direitos humanos no centro de sua resposta.
Os megaeventos esportivos deveriam unir as pessoas em união e paz. É preocupante ver como a fiscalização da imigração está afetando a Copa do Mundo masculina. Meu apelo às autoridades dos EUA é que garantam segurança e dignidade a todos os jogadores, dirigentes e torcedores.
Exorto todos os governos a tratarem as questões relacionadas a refugiados e migração de forma humana e em total conformidade com as normas comprovadas dos direitos humanos e do direito dos refugiados.
Senhor presidente,
A islamofobia, o antissemitismo, bem como os ataques e a discriminação contra povos indígenas e minorias étnicas e religiosas, estão generalizados e, em muitos casos, em ascensão. Precisamos de um esforço conjunto para conter esse fenômeno.
Estou muito preocupado com as políticas antiterrorismo e de assimilação da China, especialmente por afetarem as minorias nas regiões de Xinjiang, Mongólia Interior e Tibete. A nova lei sobre unidade étnica corre o risco de aprofundar as restrições às liberdades de língua, educação, prática religiosa, cultura, expressão e reunião; e de penalizar o exercício pacífico dos direitos das minorias em geral. Exorto à revogação da lei e ao fim dessas práticas.
A Nicarágua é o único país que não se envolve de forma alguma com o sistema de direitos humanos. A recente morte do líder indígena Brooklyn Rivera enquanto estava sob custódia é a mais recente prova de suas políticas repressivas e de um padrão amplo de violações contra comunidades indígenas e afrodescendentes.
Senhor presidente,
Os custos sociais e econômicos das crises que mencionei se repercutem por várias gerações e no mundo todo.
Os jovens eleitores em muitos países se sentem alienados e ignorados. Eles reivindicam seus direitos humanos – como um caminho para uma vida melhor.
No mês passado, na República da Coreia, vi como Gwangju e outras Cidades Amigas dos Direitos Humanos estão melhorando a vida das pessoas por meio de políticas equitativas nas áreas de transporte, saúde, educação e outras.
Durante minha recente visita à Mongólia, fiquei animado ao ver que as autoridades estão utilizando as recomendações dos órgãos de direitos humanos para promover reformas.
Leis abrangentes contra a discriminação fortalecem a coesão social e constroem confiança nas comunidades. Meu escritório está apoiando os países na elaboração dessa legislação.
Comemoro os recentes avanços jurídicos. Na Austrália, um grupo indígena obteve uma indenização recorde por atividades de mineração realizadas sem seu consentimento. Na China, a Suprema Corte reconheceu que a discriminação e o assédio contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros violam seus direitos humanos.
Acredito que a nomeação do novo procurador-geral na Guatemala fortalecerá a democracia na prática.
Em todas as regiões, do Benin ao Montenegro, das Filipinas à Eslováquia e à Espanha, as Instituições Nacionais de Direitos Humanos estão apoiando vítimas de violações, salvaguardando o espaço cívico e combatendo o discurso de ódio online.
Os mecanismos regionais também desempenham um papel importante.
Tribunais regionais na América Latina, África e Europa estão responsabilizando os Estados por danos ambientais — da Nigéria e do Peru à Suíça e além.
O quadro de conformidade da União Africana para operações de paz ajudou a construir uma cultura de prestação de contas. Apesar dos desafios significativos, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) pode desempenhar um papel crucial de mediação para resolver o conflito em Mianmar.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos provou ser um caminho eficaz para a justiça das vítimas, desde detenções arbitrárias até direitos à privacidade e muito mais.
O sistema internacional de direitos humanos também provou seu valor.
O trabalho da minha equipe ilumina os cantos mais escuros. Ele tem sido citado em processos judiciais de grande repercussão, inclusive pelo Tribunal Internacional de Justiça, e influenciou centenas de reformas jurídicas.
As investigações encomendadas por este Conselho ajudaram a levar os autores de crimes internacionais à justiça — uma conquista significativa neste momento em que o Conselho comemora seu 20º aniversário.
Por exemplo, a Comissão de Inquérito sobre a Síria cooperou diretamente com mais de 63 investigações criminais sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos desde 2011.
Os direitos humanos moldam o pensamento jurídico nos âmbitos nacional e regional. A Suprema Corte da Suíça fez referência ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos em mais de 300 de suas decisões.
Os Órgãos de Tratados têm promovido reformas jurídicas e políticas por meio de suas recomendações, inclusive sobre a abolição da pena de morte e sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.
Condeno as campanhas de desinformação e as tentativas de minar a credibilidade do sistema de direitos humanos da ONU, incluindo os titulares de mandatos dos Procedimentos Especiais. Críticas e debates são legítimos e necessários; esforços para intimidar, desacreditar ou mesmo sancionar, não são. São inaceitáveis.
Senhor presidente,
O trabalho em prol dos direitos humanos é sempre uma tarefa inacabada.
Nunca podemos dar nada como garantido. Quem está na linha de frente sabe disso.
Penso nos defensores dos direitos humanos que conheci recentemente no Sudão, na Mongólia, no México e em muitos outros países: todos lutando de maneiras diferentes; todos demonstrando coragem e tenacidade todos os dias.
Sabemos o quanto os direitos humanos podem nos unir.
É por isso que lançamos a Aliança Global pelos Direitos Humanos na semana passada.
Nos próximos dois anos, essa Aliança se tornará um centro de atividades, com diferentes grupos e comunidades ao redor do mundo estabelecendo novas conexões e construindo novas parcerias.
Os direitos humanos são o elo que nos une. Quando unimos forças para fortalecer esses laços, construímos um mundo melhor para todas as pessoas.
Muito obrigado.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português e visite a página para o Brasil do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).