“Parecia que alguém finalmente tinha olhado para nós”
Em São Gonçalo (RJ), dados permitem levar cuidados de saúde a regiões periféricas.
Longe das praias de cartão-postal do Rio de Janeiro, o município de São Gonçalo já foi conhecido como “Manchester fluminense” por sua concentração de indústrias pesadas. Aplicando metodologias do ONU-Habitat, o município localizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro identificou bairros antes não atendidos, reorganizou equipes clínicas e ampliou o acesso à saúde, transformando a vida de famílias como a de Clarice Soares de Abreu.
Clarice Soares de Abreu nasceu e cresceu no bairro de Tribobó. Embora uma rodovia movimentada corte o bairro ao meio, a região também faz fronteira com áreas ambientais protegidas. Pequenos comércios e indústrias à beira da estrada dividem espaço com calçadas estreitas e áreas residenciais que dão lugar a encostas com a biodiversidade da Mata Atlântica, onde o ritmo desacelera e o tempo parece passar de forma diferente.
Clarice conhece seus vizinhos — em sua maioria idosos que vivem ali há décadas — e se sente segura em Tribobó. Mas essa tranquilidade também convive com a sensação de abandono de quem vive à margem da grande cidade. “É um lugar um pouco esquecido”, conta.
Mãe solo, Clarice cria o filho Pedro, de 7 anos, diagnosticado com autismo e que necessita de atenção constante. Entre os cuidados em casa e o trabalho como assistente social em um município vizinho, onde atende famílias com crianças com autismo, ela vivia um paradoxo: o cuidado que oferecia aos outros não chegava à própria família, porque Tribobó permanecia fora do radar das autoridades de saúde de São Gonçalo — até que uma metodologia do ONU-Habitat apoiou literalmente a colocar o bairro no mapa.
São Gonçalo divide a cidade em polos sanitários, subdivididos em microáreas de atendimento, e a ausência de limites claros para as áreas de cobertura fazia com que muitas famílias fossem praticamente invisíveis ao sistema de saúde. Na prática, isso dificultava o acesso ao cuidado contínuo de que Pedro precisava, incluindo consultas, acompanhamento e serviços preventivos.
“A gente ficava indo de porta em porta tentando atendimento em bairros mais distantes, e ninguém queria atender porque diziam que não era a nossa área”, relembra Clarice. “Era como se a gente não estivesse em lugar nenhum.”
No mapa
O ponto de virada aconteceu no fim de 2025. Ana Carolina Souza Campos, agente comunitária de saúde, bateu à porta de Clarice e se apresentou como responsável pela área. A princípio, Clarice ficou confusa — ela havia passado anos encontrando obstáculos ao tentar descobrir quem era responsável pelos cuidados de saúde em Tribobó, e se eles precisam alcançar. Esse foi o desafio enfrentado pela Prefeitura de São Gonçalo: ao analisar a cobertura das equipes de saúde da família, foram identificadas áreas que não estavam vinculadas a nenhuma unidade de saúde, o que significava que moradores estavam sem atendimento regular.
Com apoio do ONU-Habitat, o município reorganizou a forma como a Secretaria Municipal de Saúde mapeia as áreas atendidas pelas equipes da Estratégia de Saúde da Família, modelo nacional baseado em equipes multidisciplinares que atuam em territórios definidos.
O processo foi apoiado por meio de um Laboratório Urbano – metodologia internacional desenvolvida pelo ONU-Habitat por meio da qual foram realizadas oficinas colaborativas com a administração municipal para fortalecer estratégias de mapeamento da Atenção Primária à Saúde. Essa etapa foi seguida por uma Avaliação de Necessidades de Capacitação em Contextos Urbanos, que fortaleceu mais de 40 servidoras e servidores municipais na coleta, análise e visualização de dados para planejar e implementar políticas públicas mais eficazes.
O trabalho envolveu diferentes etapas, como o levantamento de dados existentes, a identificação de inconsistências, a capacitação de equipes e a delimitação de microáreas de cobertura em saúde. A partir dessa nova análise territorial, a Prefeitura redistribuiu equipes, redefiniu áreas de cobertura e iniciou o cadastramento das famílias. Como resultado, agentes comunitários de saúde como Ana Carolina passaram a atuar em territórios mais precisamente definidos, com rotas estabelecidas e acompanhamento contínuo das famílias cadastradas.
Monitorando os avanços
Os esforços de São Gonçalo não terminaram com o mapeamento das áreas sem cobertura de saúde. Outro passo dado foi a criação do Observatório de Fortalece São Gonçalo, uma plataforma baseada no Global Urban Monitoring Framework – guia do ONU-Habitat para apoiar atores urbanos a avaliar o progresso de cidades e áreas urbanas com metas e indicadores. Instituída por lei municipal, a plataforma reúne mais de 130 indicadores de diferentes setores e tornou possível acompanhar, ao longo do tempo, os impactos das intervenções realizadas. A capacidade de transformar dados em ação ajuda a garantir que políticas públicas não apenas cheguem às comunidades, mas permaneçam eficazes e conectadas às realidades locais.
A história de Clarice reflete uma transformação mais ampla. Em cidades como São Gonçalo, fora dos grandes centros administrativos e marcadas por um rápido crescimento urbano, a adoção de sistemas estruturados de dados e monitoramento territorial ainda é recente. Diferentemente de grandes centros urbanos com mais recursos e maior capacidade técnica e institucional, municípios periféricos frequentemente enfrentam desafios para reunir informações sobre suas próprias populações. Ao combinar abordagens participativas com ferramentas de análise de dados, o município não apenas reorganizou seus serviços, mas também passou a enxergar com mais clareza seu território e as pessoas que sempre estiveram ali, mas viviam à margem dos serviços públicos.
“Parecia que alguém finalmente tinha olhado para nós”
Quando Ana Carolina apareceu, Clarice a reconheceu como moradora da região. Mas ela não estava ali como uma vizinha pedindo um favor. Sua presença uniformizada significava que os cuidados de saúde finalmente estavam chegando ao bairro — e com um rosto humano. Ana Carolina cadastrou Clarice no sistema de saúde, orientou sobre os serviços disponíveis e organizou os primeiros atendimentos de Pedro na unidade local.
“Foi um momento de virada”, conta Clarice. “Parecia que alguém finalmente tinha olhado para nós.”
Agora que a área foi oficialmente mapeada e incorporada ao sistema de saúde, a unidade local — que já existia no bairro, mas ainda não alcançava todas as famílias da região — passou a fazer parte da rotina de Clarice e de seus vizinhos, que retomaram cuidados antes adiados. Hoje, eles podem caminhar poucos minutos até consultas médicas, exames de rotina, vacinação e atendimento odontológico. Pedro também passou a receber acompanhamento mais contínuo, além de encaminhamentos para serviços especializados.
“É um alívio saber que a gente pode contar com um posto de saúde perto de casa”, diz Clarice. “Eu me sinto mais cuidada, mais assistida.”
Embora reconheça que ainda existem desafios em Tribobó, Clarice se sente mais confiante para planejar o futuro da família. Agora, quando pensa no futuro do filho, algo mudou. Ela imagina um lugar onde Pedro possa crescer com acesso garantido à saúde — e essa mudança começa com algo simples, mas essencial: estar no mapa.
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