“O objetivo principal de preservar a história é não repeti-la”
Jovem brasileira participa de visita da ONU a Hiroshima e Nagasaki em defesa de um mundo livre de armas nucleares.
Selecionada pelo Fundo de Jovens Líderes das Nações Unidas, Ana Carolliny, estudante da Universidade Federal de Goiás, viajou ao Japão em visita de estudos sobre memória e desarmamento nuclear. Entre museus, testemunhos e eventos, ela descobriu na sensibilidade e na escuta alguns dos principais aprendizados da experiência.
Do on-line ao Japão: troca intercultural e a escuta
Estudante de Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG), Ana Carolliny Melo ainda não tinha uma trajetória consolidada na área do desarmamento nuclear. Ao conhecer o Fundo de Jovens Líderes (YLF), no entanto, logo conseguiu relacionar seu principal campo de estudo — a segurança internacional — à defesa de um mundo sem armas nucleares.
A primeira etapa do programa consistiu em um treinamento on-line composto por módulos de e-learning, fóruns virtuais, oficinas e webinars ao vivo.
“A fase do treinamento on-line foi um grande desafio, mas passou muito rápido e foi uma das partes de que mais gostei”, contou Ana Carolliny em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).
Após a conclusão dessa etapa, 50 participantes de 39 países — entre eles Ana — embarcaram para uma viagem de estudos de seis dias ao Japão. Entre 29 de junho e 3 de julho de 2026, participaram de palestras e debates com as hibakusha (pessoas sobreviventes dos bombardeios atômicos), realizaram visitas a museus e espaços de memória e conheceram de perto a história de Hiroshima e Nagasaki. A visita de estudos integrou a segunda fase da edição de 2025-2026 do YLF, lançada em julho do ano passado.
“O que mais me impactou emocionalmente foi, com certeza, escutar os depoimentos dos sobreviventes”, disse Ana Carolliny ao UNIC Rio.
Como era sua primeira viagem internacional, Ana relata que a experiência também representou um grande desafio pessoal.
“Fui para a viagem um pouco insegura. Foi a primeira vez que saí do Brasil. Eu estava bem nervosa e questionando muito meu inglês”, lembra.
Ao chegar ao Japão, porém, ela conta que foi acolhida pelas amizades que fez com jovens participantes vindos de diferentes culturas e realidades. Para Ana, as trocas interculturais foram um dos aspectos mais enriquecedores da missão de estudos da ONU, permitindo conhecer perspectivas distintas e aprender com países que enfrentam desafios muito diferentes dos vividos no Brasil.
“É você se despir de tudo o que você achou que sabia e perceber que o mundo é muito diferente. Eu tenho tanto a aprender, eu tenho tanto a andar. O mundo é muito grande. Foi isso o que mais abriu meu olhar para genuinamente entender que o mundo vai além da minha própria percepção”, conta.
Entre os encontros com as hibakusha, as visitas aos espaços de memória de Hiroshima e Nagasaki e o convívio com colegas de diferentes países, contextos e trajetórias, Ana destaca um aprendizado que considera central:
“Ficamos com a mesma fome de escutar o outro. Eu acho que isso é o mais importante. Todo o conhecimento técnico é crucial, mas essa humanidade, sensibilidade e tato só a prática traz. E é isso o que eu mais prezo.”
Memória e o papel da juventude
“O objetivo principal de preservar a história é não repeti-la.”
Para Ana, a juventude ocupa um papel essencial na preservação da memória dos sobreviventes e na defesa do desarmamento nuclear.
“As pessoas sobreviventes, um dia, não estarão mais aqui. Justamente por isso que o programa trabalha com a juventude. Manter a voz das hibakusha viva, mesmo quando eles já não puderem contar suas próprias histórias”, afirma a jovem líder brasileira.
Ao longo do programa do Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento (ODA), as pessoas jovens participantes são incentivados a refletir sobre os desafios relacionados ao desarmamento nuclear e compreender como esse debate se aplica às diferentes realidades de seus países. A partir das redes sociais e da construção de narrativas, os jovens tornam-se multiplicadores da defesa de um mundo livre de armas nucleares.
“O principal papel, como jovens, que podemos ter é pressionar e questionar. Mas também nos educarmos para que, quando chegarmos às posições de tomada de decisão, não cometamos os mesmos erros do passado.”
Brasil: como o país pode contribuir?
Para Ana, a tradição pacifista da política externa brasileira coloca o país em posição estratégica na defesa do desarmamento nuclear global. Como uma importante força econômica e diplomática, especialmente na América Latina, o Brasil tem condições de contribuir para fortalecer esse debate e ampliar a cooperação internacional sobre o tema.
“São decisões que afetam todo mundo. É muito importante lutarmos pelo desarmamento em países que possuem armas nucleares. Mas é igualmente importante mantermos os países que não têm, nessa condição. Não podemos pegar um problema gigante como esse e torná-lo ainda maior.”
Mais do que evitar novas tragédias, defender o desarmamento nuclear significa construir um mundo que não viva sob a ameaça permanente do uso dessas armas.
“Cada um vai adaptar para sua realidade, mas saímos com uma lição em comum: precisamos parar as armas nucleares, agora.”
Sobre o Fundo de Líderes Jovens por um Mundo Sem Armas Nucleares
O Fundo de Líderes Jovens (Young Leaders Fund for a World Without Nuclear Weapons – YLF) é um programa de aprendizagem que busca capacitar jovens de 18 a 29 anos com conhecimentos, habilidades e redes de contato para liderar iniciativas em prol do desarmamento nuclear.
A cada dois anos, até 2030, 100 participantes são selecionados para receber treinamento on-line sobre os princípios do desarmamento nuclear, da não proliferação e do controle de armas. Ao final dessa etapa, um grupo é escolhido para participar de uma viagem de estudos de uma semana a Hiroshima e Nagasaki.
Durante a visita, os participantes conhecem a história das hibakusha, sobreviventes dos bombardeios atômicos que, há décadas, compartilham seus testemunhos e defendem a eliminação das armas nucleares. À medida que essa geração envelhece, torna-se cada vez mais importante garantir que suas histórias e seus apelos por um mundo sem armas nucleares sejam transmitidos às futuras gerações.
“Tenho muita gratidão pelo projeto. Além de tudo o que ele faz pelos outros, penso no que ele fez por mim. Agregou em todos os aspectos da minha vida, e espero conseguir retribuir por meio do meu trabalho — não apenas pelo que fiz durante o programa, mas também pelo que continuarei fazendo ao longo da minha carreira.”
Para saber mais, siga @unitednations_oda nas redes e visite a página #Youth4Disarmament, do Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento (ODA).