“Algoritmos estão transformando a discriminação de ontem na decisão automatizada de amanhã”
Discurso da vice-secretária-geral Amina Mohammed na Série de Encontros Regionais sobre Inteligência Artificial e Desenvolvimento Humano, em Xi’an, 22 de agosto.
Sua Excelência, Sr. Zhao Gang, governador de Shaanxi,
Sua Excelência, Sr. Liu Bin, ministro adjunto das Relações Exteriores,
Distintos convidados e convidadas,
Senhoras e senhores,
Sejam bem-vindas e bem-vindos a este encontro sobre Inteligência Artificial e Desenvolvimento Humano. Obrigada por se juntarem a nós em Xi’an.
Gostaria de começar expressando meus sinceros agradecimentos ao Governo da China, a Zhao Gang, governador da província de Shaanxi, e a Liu Bin, vice-ministro das Relações Exteriores, por suas calorosas boas-vindas e parceria.
Permitam-me também agradecer ao nosso coordenador residente, Stephen Jackson, e à sua equipe, por sua dedicação e trabalho árduo para ajudar a tornar este encontro uma realidade.
Há um bom motivo para que a parte asiática deste debate tenha início aqui. A China está ajudando a definir o ritmo global em matéria de inteligência artificial.
Apenas no mês passado, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, acompanhou o presidente Xi Jinping na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai. Quando conversamos depois, ele me contou o quanto ficou impressionado com o que viu: não apenas a sofisticação da tecnologia, mas a velocidade e a escala com que ela já está sendo implantada.
Ele foi igualmente claro sobre a contribuição mais ampla da China: o lançamento da Iniciativa Global de Governança da IA e o apoio ao avanço da primeira resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre capacitação em IA.
Ele chamou a estratégia de código aberto da China de “um enorme sucesso global”.
Por isso, queremos aprender com a experiência da China. Queremos entender como essa tecnologia se apresenta quando sai do laboratório e entra na vida das pessoas. E queremos a ajuda da China para garantir que a capacidade que está sendo desenvolvida aqui promova o desenvolvimento humano muito além de suas próprias fronteiras.
Senhoras e senhores,
Quando se trata de inteligência artificial, o secretário-geral tem insistido em um princípio simples: a tecnologia deve servir às pessoas.
Sob sua liderança, as Nações Unidas têm trabalhado para incluir todos os países nessa conversa. O Pacto Digital Global proporcionou aos países uma estrutura para a cooperação. O Diálogo Global sobre Governança da IA e o Painel Científico Internacional Independente ajudarão o mundo a compreender essa tecnologia e a governá-la.
Mas esta série de encontros aborda a questão que nem a inovação nem a governança podem responder sozinhas: o que a IA está fazendo com os seres humanos, com nossos relacionamentos e com as sociedades que compartilhamos em tudo isso?
Ouvimos vozes sobre IA de várias partes da África e da América Latina e, para esta terceira etapa, trazemos as histórias, experiências e valores da Ásia para uma conversa global.
Escolhemos Xi’an como palco para este encontro com cuidado.
Essa cidade já foi um ponto de partida para as Rotas da Seda, a rede que o historiador Peter Frankopan chamou de “sistema nervoso central” do mundo.
Foi daqui que, no século VII, Xuanzang partiu em busca de textos budistas. Ele voltou com centenas de manuscritos e passou anos traduzindo-os.
O conhecimento cruzou fronteiras. A compreensão humana cresceu.
Será que a inteligência artificial poderia se tornar um novo sistema nervoso central para nossa época?
Se sim, quem estará conectado a ela?
No Cairo e na Cidade do México, nossas discussões voltavam sempre a uma pequena palavra.
“Nós.”
Dizemos que “nós” devemos governar a IA e decidir para que ela serve.
Mas quem são “nós”?
Essa pergunta tem uma força especial na Ásia.
Mais da metade da humanidade vive nessa região. Alguns países asiáticos — como a China — estão construindo os sistemas de IA mais avançados do mundo, enquanto milhões de pessoas ainda aguardam eletricidade confiável ou uma conexão à internet. No ritmo atual, a Ásia e o Pacífico não atingirão 88% de suas metas mensuráveis dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.
As mulheres ainda estão amplamente sub-representadas na pesquisa em IA. Elas estão ausentes das equipes que desenvolvem a inteligência artificial e dos dados com os quais ela aprende, e o resultado é que os algoritmos estão transformando a discriminação de ontem na decisão automatizada de amanhã.
Alimente um algoritmo com décadas de práticas de contratação desiguais, e ele aprenderá que um homem é o candidato mais forte. Treine-o com base em um mundo no qual as mulheres tiveram menos acesso à riqueza, e ele interpretará essa exclusão como risco financeiro. Construa-o com dados médicos centrados em corpos masculinos, e os sintomas das mulheres serão ignorados.
Sem uma correção deliberada, a inteligência artificial apenas dará à discriminação antiga nova velocidade e autoridade.
Os jovens estão enfrentando uma versão desse mesmo desequilíbrio: estamos preparando-os para um mercado de trabalho, mas não temos ideia de como esse mercado será. Eles precisam das ferramentas e habilidades para trabalhar com esses sistemas, com os agentes de IA e os empregos baseados em IA que constituirão o futuro, mas simplesmente não estamos lhes dando o que precisam.
Neste momento, a geração que viverá mais tempo com essa tecnologia é a que menos tem voz sobre como ela é construída.
Portanto, tudo isso levanta as seguintes questões: quem ajudará a escrever este próximo capítulo do desenvolvimento humano? Quem será incluído na versão que outra pessoa criará dele?
As discussões no Cairo e na Cidade do México também nos alertaram contra a romantização da “humanidade”. Mais contribuição humana para os sistemas de IA não produzirá automaticamente uma tecnologia mais humana.
Porque a humanidade é capaz tanto de coragem extraordinária quanto de crueldade terrível.
Usamos o conhecimento para curar doenças e para aperfeiçoar armas de destruição em massa.
Declaramos que todas as pessoas são iguais em dignidade e, ainda assim, violamos essa promessa todos os dias.
E a IA está aprendendo com tudo isso: estamos ensinando às máquinas a partir do arquivo completo do comportamento humano antes mesmo de termos chegado a um acordo sobre quais lições elas devem extrair dele.
Precisamos decidir o que, em nossa humanidade, merece um lugar no futuro que estamos construindo.
As tradições da Ásia podem nos ajudar a fazer isso.
Aqui na China, o princípio confucionista do Ren ensina que nossa humanidade se forma por meio de nossas obrigações para com os outros.
Na Indonésia, o Gotong Royong dá forma prática a essa ideia. Quando o trabalho é pesado demais para um único par de mãos, as pessoas unem seus esforços: meu bem-estar não pode ser separado do seu.
Temos o dever mútuo de ancorar esse mesmo senso de responsabilidade compartilhada na inteligência artificial.
Em toda a Ásia, a cooperação está começando a traduzir esses princípios na prática.
O Plano de Ação da China para o Desenvolvimento de Capacidades em IA para o Bem de Todas as Pessoas estende essa ambição ao Sul Global, defendendo oportunidades iguais sob regras que os países ajudam a definir em conjunto.
O Guia da ASEAN sobre Governança e Ética em IA e seu Roteiro para uma IA Responsável estabelecem um ponto em comum entre países com diferentes sistemas e níveis de capacidade.
A Iniciativa de Inteligência Artificial da APEC define a participação significativa e o desenvolvimento de capacidades como objetivos explícitos.
Esses esforços apontam para um futuro em que a liderança tecnológica desenvolva capacidades além de suas próprias fronteiras e as economias menores ajudem a definir os termos.
Xi’an já conectou civilizações por meio de rotas pelas quais o conhecimento passava de um povo para outro.
Hoje, a Ásia pode ajudar a construir um novo tipo de conexão, na qual o poder tecnológico seja compartilhado e a inteligência continue prestando contas à humanidade.
Essa seria uma liderança digna desta região.
Esse seria um progresso digno desse nome.
Senhoras e senhores,
Iniciamos essa jornada no Cairo e a continuamos na Cidade do México. Agora chegamos a Xi’an.
Daqui, seguiremos para o Vaticano, antes de reunir essas perspectivas na Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque em setembro deste ano.
Mas Nova Iorque não será o fim dessa jornada.
Em 2027, levaremos a conversa para mais perto de onde as pessoas vivem, por meio de encontros liderados por países e baseados em comunidades em todo o mundo, na preparação para a Cúpula dos ODS.
Cada encontro traz a história, a experiência e os valores de outra região para a conversa. Cada uma desafia o que pensávamos saber e revela questões que o encontro anterior não trouxe à tona.
Cada um de vocês tem uma perspectiva única. Vocês enxergam algo que outros podem deixar passar.
Tenham isso em mente hoje.
Buscamos curiosidade e verdade, não consenso.
Compartilhem suas perguntas tanto quanto suas respostas.
Desafiem uns aos outros — assumam o papel de advogado do diabo.
Perguntem o que Ren exige daqueles que projetam, governam ou mesmo utilizam a IA.
Venham com a mente aberta e com humildade, pois ninguém, em nenhum país, empresa ou laboratório, tem a resposta completa.
Ainda não temos todas as respostas.
É precisamente por isso que estamos aqui.
O futuro conterá mais inteligência do que qualquer civilização anterior a nós poderia ter imaginado.
Se essa inteligência trará maior sabedoria e servirá à dignidade humana, continua sendo uma decisão nossa.
Obrigada.
Para saber mais, acesse a cobertura da ONU News em português.