Guterres: “A multipolaridade é uma condição para a justiça na governança global”
01 setembro 2026
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em Bishkek, no Quirguistão, em 1º de setembro de 2026.
Presidente Sadyr Zhaparov,
Agradeço seu gentil convite, bem como a maravilhosa hospitalidade e organização.
Excelências,
Nosso mundo está se tornando cada vez mais multipolar.
Isso é algo positivo e deve ser fortalecido.
A multipolaridade é uma condição para a justiça na governança global e nas relações internacionais.
E a multipolaridade é o melhor suporte para um multilateralismo eficaz e para uma Organização das Nações Unidas a serviço de todas as pessoas, sem dois pesos e duas medidas, em conformidade com a Carta da ONU.
Legenda: O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, participa de coletiva de imprensa em Bishkek, na República do Quirguistão, em 11 de junho de 2017.
As relações de poder estão mudando, mas as organizações multilaterais ainda refletem, em essência, o ano de 1945 e a situação da época.
Devemos reformar nossas instituições multilaterais, incluindo as Nações Unidas e o sistema de Bretton Woods, para refletir as realidades atuais e aumentar a representação e a influência dos países em desenvolvimento, a fim de construir uma ordem mundial justa.
Nesse contexto, as Nações Unidas valorizam enormemente nossa colaboração de longa data com a Organização de Cooperação de Xangai, um importante pilar do multilateralismo.
Vejo quatro áreas para aprofundar nossa parceria nas quais a governança global está em jogo:
Os acordos e cessar-fogos são constantemente violados, e os ataques continuam.
Apelo à máxima moderação e ao respeito aos acordos e ao direito internacional.
O mundo precisa de uma solução pacífica, justa e duradoura que também proteja os direitos e liberdades de navegação internacional, inclusive no Estreito de Ormuz e no Estreito de Bab al-Mandab e em suas imediações, e que restaure a estabilidade e a confiança.
Em Gaza, o cessar-fogo deve ser respeitado e o Plano Abrangente para Pôr Fim ao Conflito em Gaza deve ser integralmente implementado.
Os obstáculos que prejudicam a ajuda humanitária devem ser imediatamente removidos.
Na Cisjordânia ocupada, os ataques de colonos e a expansão dos assentamentos devem cessar.
Só haverá paz com uma solução de dois Estados:
Dois Estados independentes, soberanos e democráticos — Israel e Palestina — vivendo lado a lado em paz e segurança, com Jerusalém/Al Quds como capital de ambos os Estados — em conformidade com o direito internacional e as resoluções pertinentes da ONU.
Após mais de quatro anos, já é hora de um cessar-fogo total e imediato na Ucrânia.
Isso abriria caminho para negociações rumo a uma paz justa, duradoura e abrangente, em conformidade com o direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas e as resoluções pertinentes da ONU.
Os bancos multilaterais de desenvolvimento devem ser maiores, melhores e mais ousados para apoiá-los.
Terceiro — ação climática.
O mundo está prestes a ultrapassar o limite de 1,5 grau de aumento de temperatura.
Para que esse desvio seja pequeno e temporário, precisamos reduzir drasticamente as emissões e acelerar a transição para as energias renováveis, ao mesmo tempo em que apoiamos as comunidades e as pessoas afetadas.
A ação climática exige justiça climática — garantindo um apoio financeiro muito maior aos países em desenvolvimento.