Discurso do secretário-geral António Guterres no Evento de Alto Nível em Comemoração aos 75 anos da Convenção de 1951 sobre Refugiados, em 23 de setembro.
Excelências, prezado Alto Comissário,
Senhoras e senhores,
Nosso mundo entrou em uma era de profunda turbulência, e as pessoas refugiadas estão pagando um preço insuportável.
Vemos a geopolítica se fragmentando. As divisões se aprofundando. O diálogo vacilando. O direito internacional sendo violado. Os direitos humanos sendo pisoteados. E os conflitos se espalhando.Em todos os continentes, pessoas são forçadas a fugir em números alarmantes.
Fugindo do Sudão. Da Ucrânia. De Mianmar. E além.
Elas devem poder chegar a um local seguro — e ter uma chance real de reconstruir suas vidas.
Essas necessidades não são novas.
O dever moral de oferecer proteção às pessoas que fogem do perigo está refletido em textos sagrados e ensinamentos religiosos em todo o mundo.
A comunidade internacional codificou esse princípio após a Segunda Guerra Mundial, quando afirmou o direito de buscar asilo e consagrou a obrigação de proteger as pessoas que fogem de conflitos ou perseguições na Convenção sobre os Refugiados de 1951 e em seu Protocolo de 1967.
Esses tratados têm significado a diferença entre a vida e a morte para milhões de pessoas.
Eles são os pilares do direito internacional dos refugiados e uma expressão clara de nossa humanidade comum.
Eles são tão necessários hoje quanto quando foram redigidos.
E devemos dar ouvidos à sua mensagem atemporal.
Sem retrocessos. Sem exceções.
Legenda: Na sede da ONU em Nova Iorque, o embaixador João Carlos Muniz, representante permanente do Brasil junto às Nações Unidas, assina a Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, em julho de 1952.
Agora é o momento de renovar a solidariedade e adotar medidas robustas em prol de todas as pessoas deslocadas por conflitos ou perseguições — bem como dos países e comunidades que as acolhem.
Isso significa aderir ao direito internacional dos refugiados e ao direito internacional dos direitos humanos.
Salvaguardar o direito de buscar asilo, incluindo o princípio da não devolução.
E rejeitar políticas que penalizem as pessoas por buscarem segurança, externalizem as responsabilidades de proteção ou condicionem a proteção à raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social, opinião política ou rota de chegada.
Isso significa garantir o acesso humanitário.
Buscar uma cooperação internacional mais forte e o compartilhamento de responsabilidades.
E construir soluções que permitam aos refugiados viver com segurança e dignidade — com oportunidades significativas de inclusão, autossuficiência e um futuro seguro.
E significa redobrar os esforços para construir e consolidar a paz.
Legenda: O secretário-geral da ONU, António Guterres (ao centro), se reúne com jovens rohingya em um centro de aprendizagem em um campo de refugiados no distrito costeiro de Cox’s Bazar, no sul de Bangladesh.
Nunca esquecerei a generosidade que testemunhei enquanto ocupava o cargo de Alto Comissário para os Refugiados.
A generosidade das comunidades anfitriãs que, apesar de possuírem muito pouco, acolheram pessoas necessitadas — oferecendo refúgio e fortalecendo a estabilidade regional.
O resto do mundo deve seguir o exemplo delas.
Isso exige muito mais apoio internacional — e não cortes drásticos e míopes — e parabenizo o ACNUR e seus funcionários por continuarem a prestar assistência, apesar de uma redução maciça dos recursos.
Isso também exige uma integração mais estreita entre a assistência humanitária e a de desenvolvimento, incluindo um foco mais nítido na inclusão dos refugiados desde o início de uma emergência.
E exige uma liderança local mais forte — com os países de acolhimento, as comunidades de acolhimento e os refugiados desempenhando um papel central na definição de prioridades e na formulação de políticas.Ao comemorarmos o 75º aniversário da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados, exorto todos os Estados-membros a reafirmarem sua relevância duradoura e a cumprirem sua promessa solene.
Legenda: O secretário-geral António Guterres (à direita) conversa com moradores do campo de refugiados de Ouallam, no norte do Níger.
Exorto-os a escolher a diplomacia em vez da divisão. A solidariedade em vez do interesse próprio. E a humanidade em vez da indiferença.
Apelo também aos bancos de desenvolvimento, ao setor privado, à sociedade civil e a outros parceiros. Todos vocês têm papéis fundamentais a desempenhar.
Juntos, podemos proteger os direitos de todas as pessoas forçadas a fugir, agora e para as gerações futuras.