Guterres: “O mundo clama por justiça climática”
Discurso do secretário-geral António Guterres no Evento de Alto Nível da Assembleia Geral sobre Ação Climática e Transição Justa, em 23 de setembro.
Excelências, queridos amigos,
Gostaria de agradecer à Turquia e à Austrália por seus esforços na preparação da COP 31 e expressar minha gratidão a todos os líderes e países que estão aqui conosco hoje.
Excelências,
O mundo clama por justiça climática – na mitigação, na adaptação e no financiamento.
Devemos responder a esse apelo com ações concretas.
E não temos um momento a perder.
Um Super El Niño está intensificando os impactos.
E a ciência nos diz que o mundo está caminhando para ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento.
Precisamos fazer com que esse excedente seja o menor e o mais breve possível.
Mas os níveis de emissões continuam subindo, quando deveriam despencar.
E a expansão dos combustíveis fósseis continua – desafiando a ciência, a economia e o bom senso:
-
Vimos como a dependência dos combustíveis fósseis causa estragos – elevando custos, esgotando orçamentos, pressionando as famílias;
-
E deixando os países à mercê de conflitos e decisões que vão muito além de suas fronteiras.
Enquanto isso, as empresas de combustíveis fósseis estão embolsando lucros exorbitantes – enquanto a população em geral arca com os custos.
Apostar ainda mais no petróleo e no gás só vai perpetuar a vulnerabilidade por décadas.
Felizmente, temos uma saída.
Porque a crise está se acelerando – mas as soluções também.
As energias renováveis são a fonte mais barata, mais rápida e mais segura de nova eletricidade em quase todos os lugares.
A energia limpa deixou de ser uma alternativa para se tornar uma tendência imparável.
Excelências,
Nesta sala, estão presentes grandes economias e nações na linha de frente.
Produtores e consumidores de energia.
Circunstâncias diferentes – mas um interesse comum por uma transição mais rápida e mais justa;
Pela segurança e independência energética.
E pela proteção das pessoas e de seus meios de subsistência.
Em um momento de profunda divisão geopolítica, vocês podem mostrar como a cooperação pode trazer resultados – em quatro frentes.
Primeiro – precisamos acelerar.
Mesmo que sejam totalmente implementados, os planos climáticos nacionais apontam para um aquecimento superior a 2 graus.
Precisamos eliminar essa lacuna nesta década – triplicando as energias renováveis, dobrando a eficiência, eletrificando as economias, reduzindo drasticamente as emissões de metano, interrompendo o desmatamento e acelerando a transição dos combustíveis fósseis.
Apelo a todos os países para que desenvolvam um roteiro confiável para a transição para longe dos combustíveis fósseis – com prazos claros.
O G20, responsável por 80% das emissões globais, deve assumir a liderança.
O Princípio das Responsabilidades Comuns, Porém Diferenciadas, deve ser aplicado.
Mas todos os países devem aumentar suas ambições.
O aumento da demanda por energia – sobretudo por parte da inteligência artificial – deve ser atendido com um aumento nas energias renováveis, nas redes de distribuição e no armazenamento.
Em segundo lugar, devemos garantir a justiça.
Uma transição justa deve ser construída em conjunto com os trabalhadores e as comunidades afetadas – criando empregos dignos e fortalecendo a proteção social.
Os países em desenvolvimento devem moldá-la e compartilhar seus benefícios – começando pela energia limpa para as centenas de milhões de pessoas que ainda não têm acesso à eletricidade, a maioria delas na África.
Excelências,
Em terceiro lugar – precisamos financiar a transformação.
O sistema financeiro deve deixar de penalizar a vulnerabilidade para, finalmente, recompensar as ações climáticas.
Concretamente: mobilizar pelo menos 300 bilhões de dólares por ano para os países em desenvolvimento – com os países desenvolvidos na liderança – e elevar o financiamento climático para 1,3 trilhão de dólares por ano até 2035.
Repor os recursos do Fundo Verde para o Clima e do Fundo de Perdas e Danos – de acordo com as necessidades. É preciso ser sincero: os valores disponíveis no Fundo de Perdas e Danos são completamente ridículos.
Fazer com que os poluidores paguem.
Aliviar o fardo da dívida, que sufoca os investimentos – especialmente suspendendo os pagamentos em caso de catástrofes.
Reformar a arquitetura financeira internacional, para dar aos países em desenvolvimento uma voz mais forte e um papel mais importante.
Tornar os bancos multilaterais de desenvolvimento maiores, mais ousados e mais eficientes.
E aproveitar melhor cada centavo público – por meio de garantias e outros instrumentos de compartilhamento de riscos que reduzam o custo de capital e permitam mobilizar capital privado em grande escala.
Em quarto lugar – precisamos proteger as populações do caos climático.
Sem adaptação, as secas se transformam em crises alimentares; as tempestades, em crises de endividamento; e as ondas de calor, em catástrofes.
É por isso que precisamos triplicar o financiamento para a adaptação;
Incorporar a resiliência em cada política, cada orçamento, cada decisão de infraestrutura;
E garantir que, até 2027, todas as pessoas na Terra estejam protegidas por um sistema de alerta precoce.
Nessas quatro frentes, precisamos preservar os fundamentos da ação climática.
Defender a ciência e a verdade.
Defender o direito: como confirmou a Corte Internacional de Justiça, proteger o clima é uma obrigação.
E defender a cooperação – pois nenhum país, por si só, pode descarbonizar a economia mundial nem se proteger do caos climático.
Excelências,
As Nações Unidas farão sua parte.
Hoje, juntamente com nossos parceiros, estamos lançando uma plataforma comum sobre redes elétricas para ajudar os países a construir as artérias da era da energia limpa.
A próxima fase da Força-Tarefa sobre Minerais Críticos para a Transição Energética apoiará seis países em desenvolvimento para que sua riqueza mineral impulsione o desenvolvimento local, mantendo o valor agregado na região.
Desde 2022, mobilizamos 2 bilhões de dólares para sistemas de alerta precoce – com mais de 160 países recebendo apoio direto para fortalecer seus sistemas.
Excelências,
Devemos responder a uma crise que se acelera com ações cada vez mais rápidas.
Acompanhar a revolução energética com uma revolução financeira.
E acompanhar os impactos crescentes com uma proteção cada vez maior.
Por isso, peço a todos que cumpram suas metas – e, depois, vão além delas.
Somos a primeira geração com as ferramentas para pôr fim à era dos combustíveis fósseis – e a última que pode evitar a catástrofe climática.
Vamos usá-las bem.
Obrigado.
Para saber mais, acesse a página especial da ONU Brasil sobre #EducaçãoAmbiental e acompanhe a cobertura da ONU News em português.