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OMS homenageia Henrietta Lacks, cujas células mudaram a ciência

15 outubro 2021

A Organização Mundial da Saúde (OMS) deu um passo importante para a reparação histórica no campo da ciência ao honrar Henrietta Lacks com uma premiação nesta semana.

As células de Lacks, popularizadas como células “HeLa”, foram usadas desde 1951 até hoje em experimentos científicos, a maioria deles sem o conhecimento e consentimento dela ou da família. Consideradas imortais, as células da mulher negra norte-americana contribuíram para muitos avanços, alguns deles relacionados ao HPV, poliomielite, HIV, câncer, COVID-19, e muitos outros.

A honraria apresentada à família de Henrietta pelo diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, contribui para dar fim a injustiças científicas e promover a igualdade racial, bem como o reconhecimento das mulheres na saúde e na ciência.

Tedros Adhanom Ghebreyesus dá as boas-vindas à família de Henrietta Lacks para um diálogo especial na sede da OMS em Genebra.
Legenda: Tedros Adhanom Ghebreyesus dá as boas-vindas à família de Henrietta Lacks para um diálogo especial na sede da OMS em Genebra
Foto: © OMS

Nas últimas sete décadas, as células de Henrietta Lacks, uma mulher negra americana que morreu de câncer cervical, salvaram inúmeras vidas e possibilitaram incontáveis descobertas científicas, como o papilomavírus humano (HPV) e as vacinas da poliomielite, medicamentos para o tratamento do HIV, juntamente com câncer e pesquisa sobre a COVID-19.   

Na última quarta-feira (13), o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, reconheceu o legado mundial de transformação global da pesquisa médica com as células de Lacks com um prêmio especial.    

Em 1951, enquanto a norte-americana buscava tratamento, os pesquisadores tiraram biópsias de seu corpo, sem seu conhecimento ou consentimento, e suas células se tornaram a primeira linhagem celular “imortal”, agora conhecida como “células HeLa”.  

Acerto de contas com a injustiça - Surpreendentemente, como aponta a OMS, a comunidade científica global em um primeiro momento escondeu sua raça e sua história real, um erro histórico que a honraria apresentada a sua família e ao mundo espera ajudar a corrigir.  

Para Tedros, ao homenagear Henrietta, a agência da ONU “reconhece a importância de levar em conta as injustiças científicas do passado e promover a igualdade racial na saúde e na ciência”. 

Ele disse que o prêmio também foi “uma oportunidade de reconhecer as mulheres, especialmente as mulheres de cor, que fizeram contribuições incríveis, mas muitas vezes nunca vistas, para a ciência médica”. 

Legado - A premiação aconteceu no escritório da OMS em Genebra, e a honraria foi recebida por Lawrence Lacks, filho de 87 anos de Henrietta.  

Ele é um dos últimos parentes vivos que a conheceu pessoalmente. Lawrence estava acompanhado por vários netos, bisnetos e outros membros da família Lacks. 

O filho disse que a família ficou comovida em receber este reconhecimento histórico, homenageando "uma mulher notável e o impacto duradouro de suas células HeLa". 

“As contribuições de minha mãe, antes ocultas, agora estão sendo honradas por seu impacto global”, destacou.  

“Minha mãe foi uma pioneira em vida, retribuindo à comunidade, ajudando outros a terem uma vida melhor e cuidando de outras pessoas. Na morte, ela continua a ajudar o mundo. Seu legado vive em nós e agradecemos por reconhecerem seu nome - Henrietta Lacks,” continuou o filho de Henrietta em seu discurso durante o evento.   

Desigualdades persistem - De acordo com a OMS, as mulheres negras continuam a ser desproporcionalmente afetadas pelo câncer cervical. A pandemia da COVID-19 também expôs as muitas desigualdades de saúde que persistem entre as comunidades marginalizadas em todo o mundo.  

Estudos em vários países documentam consistentemente que as mulheres negras estão morrendo de câncer cervical em uma taxa muitas vezes maior que a das mulheres brancas. Hoje, 19 dos 20 países com as maiores cargas de câncer cervical estão na África.  

Estratégia de câncer cervical - O ano passado, que marcou o 100º aniversário do nascimento de Henrietta Lacks, também coincidiu com o lançamento da estratégia global da OMS para acelerar a eliminação do câncer cervical , uma iniciativa endossada pela família Lacks.   

Seus parentes também se juntaram à OMS na defesa da igualdade no acesso à vacina contra o HPV, que protege contra uma variedade de cânceres, incluindo o câncer cervical. 

Apesar de ter sido pré-qualificada pela OMS há mais de 12 anos, as restrições de oferta e os preços altos da vacina ainda impedem que as doses adequadas cheguem às meninas em países de baixa e média renda.  

Em 2020, menos de 25% dos países de baixa renda e menos de 30% dos países de renda média baixa tinham acesso à vacina contra o HPV por meio de seus programas nacionais de imunização, em comparação com mais de 85% dos países de alta renda. 

Para a subdiretora-geral para prioridades estratégicas e conselheira especial do diretor-geral da OMS, Princess Nothemba Simelela, “é inaceitável que o acesso à vacina contra o HPV, que salva-vidas, possa ser limitado por sua raça, etnia ou onde você nasceu”. 

Lembrando que a vacina contra o HPV foi desenvolvida usando células de Henrietta Lacks, ela acrescentou: “Devemos a ela e a sua família alcançar o acesso equitativo a esta vacina inovadora”. 

Contribuição notável - Quando era uma jovem mãe, Henrietta Lacks e seu marido criavam seus cinco filhos perto de Baltimore quando ela adoeceu.  

Ela foi para o centro médico Johns Hopkins, um dos poucos hospitais importantes na época que atendia afro-americanos, depois de apresentar sangramento vaginal extenso e ser diagnosticada com câncer cervical. Apesar do tratamento, ela morreu em 4 de outubro de 1951, com apenas 31 anos. 

Durante o tratamento, os pesquisadores coletaram amostras de seu tumor. Essa linha de células “HeLa” foi um avanço científico: a primeira linha imortal de células humanas a se dividir indefinidamente, em condições de laboratório, para alimentar a pesquisa.   

As células foram produzidas em massa, com fins lucrativos, sem o reconhecimento de sua família. Mais de 50 milhões de toneladas métricas de células HeLa foram distribuídas em todo o mundo - integrando mais de 75 mil estudos. 

Além das vacinas contra o HPV e a poliomielite, suas células permitiram o desenvolvimento de medicamentos para HIV/AIDS, hemofilia, leucemia e doença de Parkinson; avanços na saúde reprodutiva, incluindo fertilização in vitro; pesquisa sobre condições cromossômicas, câncer, mapeamento de genes e medicina de precisão. Atualmente, elas estão sendo usadas ​​em estudos relacionados à pandemia da COVID-19. 

Homenagem ao vivo e a cores - Após a entrega do prêmio, a família e a OMS seguiram para as margens do Lago de Genebra, para assistir ao icônico Jet d'Eau da cidade ser iluminado com a cor verde piscina, a cor que marca a consciência do câncer cervical. 

É o primeiro de vários monumentos mundiais que irão ser iluminados em verde piscina entre agora e 17 de novembro, marcando o primeiro aniversário do lançamento da campanha de eliminação global da doença.

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