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Guerra no Iêmen chega ao triste marco de 10 mil crianças mortas ou mutiladas

21 outubro 2021

"O Iêmen é o pior lugar do mundo para ser criança", declarou um porta-voz do UNICEF que retornou de uma missão no país. O anúncio foi feito quando o conflito atingiu a “marca vergonhosa” de 10 mil crianças mortas ou mutiladas desde que os confrontos começaram, em março de 2015. 

Mais de 11 milhões de crianças (quatro em cinco) precisam de assistência humanitária no Iêmen. Por volta de 400 mil sofrem de desnutrição aguda grave. O conflito prolongado está acompanhado da crise econômica; colapso dos serviços de saúde, água, saneamento, educação e insegurança alimentar; além da falta de financiamento para as operações da ONU no país.

A OIM é uma das poucas organizações humanitárias que atuam na região e intervém em 13 espaços de deslocamento. De acordo com a Organização, desde 2017, quando o deslocamento em massa na área começou, dezenas de milhares de pessoas estão lutando pela sobrevivência em regiões de difícil acesso, onde o serviço público e a assistência humanitária são extremamente limitados.

Legenda: Uma médica examina as pernas artificiais de um garoto em um hospital na cidade de Aden, no Iêmen
Foto: © UNICEF Iêmen

O porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), James Elder, declarou, nesta terça-feira (19), que o conflito no Iêmen atingiu a “marca vergonhosa” de 10 mil crianças mortas ou mutiladas desde que os confrontos começaram, em março de 2015. Segundo Elder, são praticamente quatro crianças vítimas da violência todos os dias, sem contar os casos não registrados. 

O porta-voz fez o anúncio logo após de retornar de uma missão ao Iêmen, na qual visitou o norte e sul do país. Ao pedir às partes pelo fim do conflito, Elder disse que “o Iêmen é o pior lugar do mundo para se ser uma criança. E, inacreditavelmente, a situação está ficando cada vez pior”.

A pior crise humanitária do mundo - Elder declarou que a crise no Iêmen continua sendo a pior do mundo e ela “representa uma trágica convergência de quatro ameaças: conflito violento prolongado; crise econômica; serviços de saúde, água, saneamento, educação e nutrição que não funcionam; e falta de financiamento para as operações da ONU no país”.

Em Genebra, o porta-voz do UNICEF contou que esteve com diversas crianças, em sua visita, e todas estavam passando por algum tipo de sofrimento. Ele também conversou com pediatras, professores e enfermeiros, sendo que todos partilharam histórias pessoais parecidas com a história do próprio Iêmen: “todos estão à beira do colapso total”.

Conflito em números - De acordo com o UNICEF, mais de 11 milhões de crianças (quatro em cinco) precisam de assistência humanitária no Iêmen. Por volta de 400 mil crianças sofrem de desnutrição aguda grave, mais de 2 milhões estão fora da escola e dois terços dos professores (mais de 170 mil) estão sem receber um salário regular há mais de quatro anos.

Além disso, cerca de 1,7 milhão de crianças foram deslocadas internamente e 15 milhões de pessoas, sendo mais da metade de crianças, não têm acesso à água potável, saneamento básico ou higiene.

“Diante dos níveis de financiamento atuais e sem um fim do conflito, o UNICEF não vai conseguir ajudar essas crianças. Não há outro jeito de resolver isso, se não for por suporte internacional. Mais crianças, que não tem nenhuma responsabilidade para com o conflito, vão morrer.”

James Elder, porta-voz do UNICEF.

Elder reiterou a gravidade da situação humanitária no Iêmen, onde a economia está em uma condição crítica e o PIB caiu 40% desde 2015. Ele informou que “um alto número de pessoas perderam seus empregos, e aqueles que ainda estão trabalhando não são pagos com frequência”.

Com os deslocamentos e a destruição de escolas, uma única sala de aula pode chegar a ter 200 crianças. Além disso, professores, que não estão sendo pagos, “continuam indo para as aulas dia após dia”, ele disse.

Legenda: Crianças sentadas em frente a uma casa destruída por um ataque aéreo dentro da cidade antiga de Sana'a, no Iêmen
Foto: © UNICEF Iêmen

Assistência para os deslocados - A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou, na quarta-feira (20), que a assistência humanitária foi intensificada na costa oeste do Iêmen, onde a violência em curso aumentou as necessidades das comunidades deslocadas pelos anos de conflito. A resposta humanitária esteve focada inicialmente nas regiões de Taiz e Hodeidah, nas quais as ações na fronteira causaram instabilidade e forçaram o deslocamento de milhares de famílias.

De acordo com a OIM, desde 2017, quando o deslocamento em massa na área começou, dezenas de milhares de pessoas estão lutando pela sobrevivência em regiões de difícil acesso, onde o serviço público e a assistência humanitária são extremamente limitados.

Aziza, uma mãe no distrito de Khoka que foi deslocada há quatro anos, falou que se sente em perigo constante por conta das balas perdidas. "Há sete famílias vivendo em meu pequeno abrigo. Nós não temos dinheiro para pagar serviço médico ou escola. Nós precisamos de paz e precisamos voltar para casa”, disse.

Mais de 17 mil famílias deslocadas estão vivendo em mais de 140 regiões, enquanto o combate continua. Recentemente, confrontos no leste do distrito de At Thalyta forçaram o deslocamento de mais de 200 famílias para áreas mais seguras no oeste.

Intervenções que salvam vidas - A OIM é uma das poucas organizações humanitárias que atua na região e já interveio em 13 espaços de deslocamento, providenciando abrigo, água potável, dinheiro, saneamento e itens essenciais para assistência para milhares de famílias em necessidade.

A agência também expandiu o atendimento médico disponível para as populações mais afetadas, através do reforço dos cuidados de saúde primários, maternos e infantis, do combate a desnutrição, da promoção da saúde mental e do apoio psicológico, da oferta de incentivos para profissionais da saúde e da implementação de times médicos móveis nas áreas carentes.

Por meio de doações e parcerias, a OIM também coordenou serviços em regiões de deslocamento e promoveu a recuperação de longo prazo com abrigos provisórios, reabilitando redes de água potável, aumentando os testes da COVID-19 e a construção de muros contra inundações.

É necessário investimento - A OIM está pedindo um maior financiamento de suas operações no Iêmen. A chefe da missão da agência no Iêmen, Christa Rottensteiner, afirmou que “nós pedimos aos doadores e outros parceiros que invistam mais para que o sofrimento e desespero dessas pessoas na costa oeste seja amenizado”.

O porta-voz do UNICEF entoou o coro por financiamento mais robusto ao afirmar que a organização “precisa urgentemente de 235 milhões de dólares para continuar seu trabalho de assistência” até meados de 2022. Até agora o trabalho do Fundo tem causado impactos positivos no país.

O UNICEF apoiou o tratamento de desnutrição aguda grave em 4 mil unidades de saúde primárias e em 130 centros alimentares terapêuticos; forneceu transferência financeira de emergência para 1,5 milhão de famílias a cada trimestre, o que beneficiou por volta de nove milhões de pessoas; e abasteceu mais de 5 milhões com água potável.

A organização também entregou vacinas contra a COVID-19 por meio da iniciativa de parceria entre a ONU e a COVAX. Providenciou apoio psicológico, educação a respeito dos riscos das minas terrestres e assistência direta para as crianças mais vulneráveis, além de treinar e empregar milhares de agentes comunitários de saúde. Somente neste ano, o Fundo ajudou 620 mil crianças a terem acesso à educação formal ou informal e providenciou vacinas contra doenças evitáveis, incluindo campanhas contra a poliomielite que já alcançou mais de 5 milhões de crianças.

O porta-voz do UNICEF deixou claro que o financiamento é essencial e o apoio de doadores é fundamental para salvar vidas. Porém, sem maiores suportes financeiros, o UNICEF vai parar ou diminuir a assistência emergencial no país.

Guerra no Iêmen chega ao triste marco de 10 mil crianças mortas ou mutiladas

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade

OIM
Organização Internacional para as Migrações
UNICEF
Fundo das Nações Unidas para a Infância

Objetivos que apoiamos através desta iniciativa