Porta-voz do OCHA, brasileiro detalha resgate de civis na Ucrânia
11 maio 2022
Após 10 dias atuando nas operações de evacuação de Mariupol, na Ucrânia, o porta-voz do Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Saviano Abreu, concedeu uma entrevista à ONU News detalhando os resgates e os dramas vividos pelas vítimas do conflito.
Brasileiro, Abreu está trabalhando com o atendimento e apoio aos grupos de refugiados, que são levados até Zaporizhzhya. Lá, eles recebem apoio psicológico, alimentação e abrigo.
Novas informações da Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU na Ucrânia confirmam que mais de 3.380 civis foram mortos na Ucrânia desde o dia 24 de fevereiro e outros 3.680 ficaram feridos.

Porta-voz do Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), o brasileiro Saviano Abreu está participando das operações de resgate de civis sitiados em Mariupol, uma das cidades ucranianas mais devastadas por bombardeios russos. Diretamente de Zaporizhzhya– região para onde os refugiados estão sendo levados pelos comboios humanitários– ele contou à ONU News como foram os primeiros dez dias da operação de resgate e o drama das pessoas que ficaram mais de dois meses sem ver a luz do dia.
Por três vezes, os comboios organizados pelo OCHA e pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha estiveram na siderúrgica de Azovstal, local em Mariupol onde concentrava-se o maior número de civis em perigo até então. De lá foram resgatados cerca de 600 civis com autorização dos governos da Rússia e da Ucrânia. A saída através dos chamados corredores humanitários é uma decisão voluntária.
“O principal impacto na vida dessas pessoas é o psicológico. Estamos falando de pessoas que ficaram dentro de um bunker, de um refúgio subterrâneo, por mais de dois meses”, relata Abreu. “Elas não puderam ter acesso à água potável, de maneira adequada, por dois meses e muitas delas nos contaram que só comiam uma vez ao dia. E ainda por cima ter os barulhos, os estrondos das bombas, da guerra acontecendo, lá do lado de fora, sem exatamente saber o que estava acontecendo. Elas saíram deste lugar e só então foram descobrir com detalhes o que tinha acontecido do lado de fora e descobrir que a cidade de Mariupol está completamente destruída.”
Futuro - Assim que são retirados das áreas mais intensas de conflito, os civis recebem assistência psicológica e a primeira refeição preparada para eles. “Na chegada aqui em Zaporizhzhya, também tem uma assistência imediata com alimentação, com um prato de comida quente, que são coisas que a maioria deles não puderam ter nos últimos dois meses, além de água e produtos de higiene”, acrescenta o porta-voz do OCHA.
Ele também explica que abrigos construídos pelo governo ucraniano e pelas organizações humanitárias estão disponíveis em Zaporizhzhya para os deslocados que decidem ficar no país. Para aqueles que optam por deixar a Ucrânia, trabalhadores humanitários fornecem orientações sobre opções de pedido de asilo e outras modalidades de refúgio.
Ainda de acordo com informações fornecidas pelo porta-voz brasileiro, as partes em conflito garantem que já não há mais civis na siderúrgica de Azovstal. No entanto, novos comboios humanitários devem ser enviados para Mariupol e arredores para evacuar centenas de civis que continuam precisando de ajuda na cidade portuária.
Direitos Humanos - Em uma coletiva de imprensa na última terça-feira (10), em Genebra, a chefe da Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, Matilda Bogner, confirmou que mais de 3.380 civis foram mortos desde o dia 24 de fevereiro e outros 3.680 ficaram feridos. Na semana passada ela visitou 14 cidades ao norte de Kiev e Chernihiv. “Os números reais são maiores”, comentou a chefe da missão. “Em Bucha e outros assentamentos ao norte de Kiev que foram ocupados pelas forças armadas russas, temos relatos do assassinato ilegal de mais de 300 homens, mulheres e crianças. Infelizmente, esses números continuarão a crescer à medida que visitamos mais áreas”.
Bogner também comentou sobre relatos de violência sexual, tortura e outras violações de direitos humanos. “Na aldeia de Yahidne, na região de Chernihiv, conhecemos um homem de 70 anos que passou 24 dias no porão de uma escola local. Ele nos contou com lágrimas nos olhos que dividia um quarto de 76 metros quadrados com 138 pessoas - o mais novo tinha apenas dois meses. O espaço estava tão cheio que ele teve que dormir em pé e por isso se amarrou em trilhos de madeira para não cair”, contou.
Amanhã, quinta-feira (12), uma sessão especial do Conselho de Direitos Humanos deve tratar sobre a situação da Ucrânia.