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Refugiados congoleses no Rio vibram com vitória do judoca Popole Misenga

10 agosto 2016

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Cerca de 30 refugiados da República Democrática do Congo que vivem no Rio de Janeiro reuniram-se nesta quarta-feira (10) na sede da Caritas Arquidiocesana para assistir às lutas e torcer pelos judocas congoleses Yolande Mabika e Popole Misenga, que fazem parte da primeira Equipe Olímpica de Atletas Refugiados da história dos Jogos Olímpicos.


O congolês André Michel Kitambala, 34 anos, assitiu à luta de Popole Misenga na sede da Caritas no Rio e vibrou com a vitória do judoca. Foto: UNIC Rio/Luciana Bruno
Legenda: O congolês André Michel Kitambala, 34 anos, assitiu à luta de Popole Misenga na sede da Caritas no Rio. Foto: UNIC Rio/Luciana Bruno





Os dois atletas participaram das categorias 70 kg feminino e 90 kg masculino, respectivamente. Yolande Mabika, 24 anos, perdeu a luta contra a judoca israelense Linda Bolder, mas Popole Misenga, 24 anos, derrotou o indiano Avtar Singh em uma luta preliminar.



Apesar de ter vencido a primeira luta, Popole foi derrotado pelo sul-coreano Donghan Gwak nas oitavas de final da divisão de 90 kg. Mesmo assim, a vitória preliminar animou os congoleses reunidos na Cáritas do Rio.



“Essa vitória representa muito, representa a força, a conquista dos refugiados”, disse a congolesa Mireille Mulanga, formada em Relações Internacionais em seu país e que atualmente trabalha como intérprete na Cáritas.  “Os refugiados são pessoas muito batalhadoras (...) deixar tudo para trás para buscar refúgio em outro país não é algo pequeno”, disse em entrevista a jornalistas após a vitória de Popole.


A congolesa Agnes Pombo torceu pela vitória do compatriota Popole e fez questão de também vestir a camisa brasileira. Foto: UNIC Rio/Luciana Bruno
Legenda: A congolesa Agnes Pombo torceu pela vitória do compatriota Popole e fez questão de também vestir a camisa brasileira. Foto: UNIC Rio/Luciana Bruno





Há quase dois anos no Brasil, Mireille acredita que a presença da equipe de refugiados nas Olimpíadas ajudará as pessoas do mundo todo a entender que os refugiados “são pessoas normais”. “Somos lutadores, não só nas competições, mas na vida mesmo”, declarou. “Depois das Olimpíadas as pessoas vão continuar ajudando e abrindo as portas e vão começar a entender mais sobre o tema dos refugiados”, salientou.



A presença dos atletas congoleses nas Olimpíadas, que disputam sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional (COI), ocorre em meio à pior crise global de refugiados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Tal cenário tem se refletido no Brasil, que registrou um forte aumento dos pedidos de refúgio nos últimos anos.



Somente no primeiro trimestre deste ano, 210 refugiados chegaram ao estado do Rio. Em 2015, foram 834 refúgios concedidos, um aumento considerável frente aos 458 de 2014, segundo dados divulgados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).



No total, o estado abriga 4,1 mil refugiados e 2,4 mil solicitantes de refúgio, vindos principalmente de países da África, América Latina, Oriente Médio e também da Europa. Desse contingente, 68% são homens e quase metade é de indivíduos de 35 a 65 anos. Jovens entre 18 a 34 anos são o segundo maior contingente (2.380), seguido por crianças e adolescentes de 5 a 17 anos (664). Meninos e meninas de até 4 anos somam 151 crianças no Rio.



Para o congolês André Kitambala, 34 anos, mesmo com a grande repercussão da equipe de refugiados nas Olimpíadas, os países ainda têm muito a fazer para conseguir oferecer uma vida digna para os refugiados e solicitantes de refúgio.



“Vai fazer mais de um ano que estou aqui e ainda não tenho documentos”, disse. “Em geral a vida é boa, mas está difícil. No Brasil se trabalha muitas horas por pouco salário, então, não dá para ajudar a família no Congo”, disse.



Para Aline Thuller, coordenadora da Programa de Atendimento a Refugiados da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, a experiência da Equipe Olímpica de Atletas Refugiados mostra que o país acolhedor também ganha quando recebe pessoas em busca de asilo.


Crianças também assistiram à competição. No total, o estado do Rio abriga 4,1 mil refugiados e 2,4 mil solicitantes de refúgio. Foto: UNIC Rio/Luciana Bruno
Legenda: Crianças também assistiram à competição. No total, o estado do Rio abriga 4,1 mil refugiados e 2,4 mil solicitantes de refúgio. Foto: UNIC Rio/Luciana Bruno





“Esta experiência mostra que quando eles chegam num novo país eles querem o que todo mundo quer, viver com dignidade, viver seu sonho, viver em paz e fazendo o que gostam”, disse. “Eles passaram por muitas coisas difíceis, e um momento como este mostra que o país que acolhe também recebe”, completou.



“O país que acolhe ganha um pouco da cultura deles, ganha profissionais bem capacitados, pessoas que trazem informações que enriquecem. É um sonho realizado para eles e uma prova que eles têm a mesma expectativa que todo ser humano tem na vida.”



Aline disse ter sido emocionante ver a equipe de atletas, e que o próprio Popole, que passou pela Cáritas, nunca desistiu de treinar.  “Ele treinava nas pracinhas porque não tinha dinheiro para academia. (...) O sonho permanecia dentro dele. É muito emocionante”.



Para ela, a grande conquista das Olimpíadas foi ter colocado o tema dos refugiados no centro das atenções mundiais e de forma positiva. “O Brasil recebe refugiados há mais de 40 anos e ainda há muito desconhecimento. (...) É uma forma de acabar com o preconceito, muita gente ainda acha que refugiados são foragidos”, disse.