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Dois milhões podem morrer de fome no norte da Etiópia sem ação urgente, alerta ONU

14 junho 2021

  • O chefe do Programa Mundial de Alimentos (WFP) apelou na quinta-feira (10) por acesso imediato para fornecer assistência vital à região de Tigray, na Etiópia, onde estão em curso combates contínuos entre o governo e as forças regionais. Segundo o diretor executivo do WFP, David Beasley, o acesso é essencial para evitar uma "catástrofe iminente".
  • O pedido foi feito após a divulgação da Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC) pela ONU. Segundo o relatório, mais de 350 mil pessoas em Tigray já enfrentam condições catastróficas, o que representa o maior número em um único país na última década.
  • O WFP, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) aumentaram sua atuação na região, mas lançaram um apelo por urgente por mais recursos para lidar com a insegurança alimentar no norte da Etiópia.
  • As agências estimam que, sem uma ação urgente, dois milhões em nível de emergência de insegurança alimentar podem morrer de fome.
Uma menina de três anos no oeste de Tigray come um biscoito de alta energia para aumentar seus níveis de nutrição
Legenda: Uma menina de três anos no oeste de Tigray come um biscoito de alta energia para aumentar seus níveis de nutrição
Foto: © Esiey Leul Kinfu/UNICEF

O chefe do Programa Mundial de Alimentos (WFP) apelou na quinta-feira (10) por acesso imediato para fornecer assistência vital à região de Tigray, na Etiópia, onde os combates contínuos entre o governo e as forças regionais colocaram cerca de 350 mil pessoas em risco de fome. 

O diretor executivo do WFP, David Beasley, disse que o acesso é essencial para evitar uma catástrofe iminente, com novos dados alarmantes confirmando que quatro milhões de pessoas enfrentam fome severa. 

Grupos armados bloqueando o acesso - Embora a agência da ONU tenha montado uma operação de assistência alimentar de emergência na região, aumentando a distribuição de alimentos para cerca de 1,4 milhão de pessoas, Beasley disse que isso mal representa a metade do número que deveria ser alcançado.  

“A realidade brutal para nossa equipe em Tigray é que para cada família que alcançamos com alimentos que salvam vidas, há inúmeras mais, especialmente nas áreas rurais, que não podemos alcançar. Apelamos para o acesso humanitário, mas ainda estamos sendo bloqueados por grupos armados”, disse o chefe do WFP em um comunicado.

Segundo Beasley, a capacidade das pessoas em Tigray de acessar serviços vitais e do WPF chegar até eles com assistência alimentar é essencial para evitar a catástrofe. "O acesso deve ser estendido muito além das grandes cidades para alcançar as pessoas em necessidade desesperada, onde quer que estejam, com assistência adequada e sem demora”, afirmou.

Pior ameaça em uma década - O WFP juntou-se à Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) e ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no pedido por ações urgentes para lidar com a insegurança alimentar no norte da Etiópia e evitar a fome iminente em Tigray. O apelo ocorreu após o lançamento da última análise da Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC), publicada pela ONU e parceiros de ajuda na quinta-feira.

O relatório disse que as mais de 350 mil pessoas em Tigray que já enfrentam condições catastróficas representam o maior número em um único país na última década. Além disso, mais de 5,5 milhões lá, e nas regiões vizinhas de Amhara e Afar, estão lutando contra altos níveis de insegurança alimentar aguda. Sem uma ação urgente, dois milhões em nível de emergência de insegurança alimentar podem morrer de fome.

Conflito alimentando a fome - O conflito, que começou em novembro passado entre as forças do governo central e as forças regionais da Frente de Libertação do Povo de Tigray, é a principal causa da segurança alimentar aguda em Tigray, de acordo com o relatório do IPC. Os combates geraram deslocamentos em massa, perda de empregos e destruição generalizada de meios de subsistência e infraestrutura.

“As comunidades rurais no norte da Etiópia foram particularmente afetadas pelo conflito. Muitas fazendas foram destruídas e ativos produtivos, como sementes e gado, perdidos”, disse o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu. 

“É fundamental ajudarmos essas comunidades a manter suas famílias alimentadas e apoiar a produção local de alimentos, abrindo caminho para uma recuperação mais rápida. Mas para ajudar as pessoas à beira da fome, precisamos de recursos e acesso - os quais continuam sendo um problema”, disse o chefe da FAO.

O UNICEF está preocupado com o crescente número de bebês e crianças pequenas em Tigray que enfrentam doenças e potencial morte por desnutrição.

“Estamos trabalhando com nossos parceiros para fornecer suporte nutricional, de saúde e água potável”, disse a diretora executiva do UNICEF,  Henrietta Fore.

“No entanto, sem acesso humanitário para ampliar nossa resposta, cerca de 33 mil crianças gravemente desnutridas em áreas atualmente inacessíveis em Tigray estão em alto risco de morte. O mundo não pode permitir que isso aconteça”, completou Fore.  

Financiamento urgente - Agências da ONU e parceiros estão ampliando sua resposta, enfatizando a necessidade de acesso desimpedido e financiamento urgente.

O WFP está trabalhando para alcançar 2,1 milhões de pessoas nas zonas noroeste e sul de Tigray e precisa de 203 milhões de dólares até o final do ano.

A FAO explicou que junho é um mês crítico, uma vez que termina a temporada de plantio de cereais do ano. No mês passado, a agência forneceu sementes a cerca de 20 mil pessoas e o plantio está em andamento. Outras 250 mil pessoas serão alcançadas nas próximas semanas.

A FAO planeja continuar aumentando as atividades nos próximos seis meses, incluindo o apoio a 375 mil pessoas no cultivo de alimentos. No geral, são necessários 77 milhões de dólares até o final de 2022, mas até agora não garantiu nenhum financiamento.

O UNICEF é a agência líder em nutrição e seu trabalho se concentra na triagem e no tratamento de crianças que sofrem de desnutrição severo. As estimativas indicam que cerca de 56 mil crianças em Tigray precisarão de tratamento este ano, mas 33 mil podem ser perdidas a menos que o acesso seja garantido.

A agência da ONU está buscando 10,7 milhões de dólares para apoiar crianças em Tigray e nas regiões de Amhara e Afar, incluindo o fornecimento de alimentos terapêuticos prontos para consumo, medicamentos de rotina e tratamento de desnutrição.

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade

FAO
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
UNICEF
Fundo das Nações Unidas para a Infância
WFP
Programa Mundial de Alimentos

Objetivos que apoiamos através desta iniciativa