Novo relatório da ONU revela impacto da COVID-19 no tráfico de pessoas
13 julho 2021
- Um novo estudo sobre o impacto da COVID-19 ressalta o aumento no número de vítimas de tráfico humano durante a pandemia especialmente na exploração de crianças.
- Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), os criminosos se aproveitaram da crise global, do desemprego e da perda de renda, além do tempo em que adultos e crianças passaram na internet para recrutar e alvejar suas vítimas.
- O relatório do UNODC avalia ainda como a interrupção de serviços essencais afetou o apoio e a proteção às vítimas resgatadas.
Um novo estudo divulgado na quinta-feira (8) pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) ilustra o impacto devastador da COVID-19 sobre as vítimas e sobreviventes do tráfico de pessoas e destaca o aumento da segmentação e exploração de crianças durante a pandemia.
O estudo avalia ainda como as organizações da linha de frente responderam aos desafios colocados e continuaram a fornecer serviços essenciais, apesar das restrições dentro e fora das fronteiras nacionais.
Presa online - Para a agência da ONU, a situação representa “uma pandemia de tráfico humano” com os criminosos se aproveitando da crise global, da perda de renda e emprego das pessoas e do aumento do tempo que adultos e crianças passavam online.
“A pandemia aumentou as vulnerabilidades ao tráfico de pessoas, ao mesmo tempo que torna o tráfico ainda mais difícil de detectar e deixa as vítimas lutando para obter ajuda e acesso à justiça”, disse a diretora executiva do UNODC, Ghada Waly.
Para Waly, o estudo é um novo recurso importante para formuladores de políticas e profissionais da justiça criminal, pois examina estratégias bem-sucedidas para investigar e processar o tráfico de pessoas em tempos de crise. Ele também fornece recomendações sobre como apoiar as vítimas da linha de frente e como construir resiliência a crises futuras.
O relatório mostra que as medidas para conter a propagação do vírus aumentaram o risco de tráfico para pessoas em situações vulneráveis, expôs as vítimas a uma maior exploração e limitou o acesso a serviços essenciais para sobreviventes deste crime.
O chefe da Seção de Tráfico Humano e Contrabando de Migrantes do UNODC, Ilias Chatzis, que desenvolveu o estudo, explica que pessoas desesperadas são mais suscetíveis a serem atraídas por redes criminosas. “Os traficantes se aproveitam das vulnerabilidades e muitas vezes atraem suas vítimas com falsas promessas de emprego”, conta.
Crianças na mira - O estudo descobriu que as crianças são cada vez mais visadas por traficantes que usam as redes sociais e outras plataformas online para recrutar novas vítimas e lucrar com o aumento da procura de materiais de exploração sexual infantil.
“Os especialistas que contribuíram com nosso estudo relataram suas preocupações com o aumento do tráfico de crianças. Crianças são traficadas para exploração sexual, casamento forçado, mendicância forçada e criminalidade forçada ”, disse Chatzis.
Serviços interrompidos - Devido a bloqueios e limitações nos serviços de combate ao tráfico, as vítimas tiveram ainda menos chance de escapar de seus traficantes.
Com o fechamento das fronteiras, muitas vítimas de tráfico resgatadas foram forçadas a permanecer meses em abrigos nos países onde foram exploradas, em vez de voltar para casa.
Os serviços essenciais que fornecem o apoio e a proteção de que as vítimas dependem foram reduzidos ou mesmo interrompidos.
“Quando as vítimas resgatadas estão se recuperando de suas experiências, elas geralmente precisam de assistência regular como parte do processo de reabilitação e reintegração. Isso pode ser um serviço de saúde, aconselhamento, assistência jurídica ou acesso à educação e oportunidades de emprego ”, disse o especialista do UNODC.
“Em muitos casos, esses serviços simplesmente pararam, colocando os sobreviventes do tráfico em risco de ficaram traumatizados ou mesmo de serem traficados novamente, especialmente aqueles que perderam seus empregos e ficaram desempregados e indigentes de repente”, acrescenta.
O crime prospera - “O crime prospera em tempos de crise e os traficantes se adaptaram rapidamente ao ‘novo normal ’, afirmou Chatzis.
Segundo o relatório, afetados pelo fechamento de bares, clubes e casas de massagem, onde a exploração pode ocorrer, os traficantes passaram a agir em propriedades privadas ou em ambientes virtuais.
Em alguns países, policiais de unidades especializadas de combate ao tráfico foram realocados de suas funções regulares para os esforços nacionais para conter a disseminação da COVID-19, dando aos traficantes a oportunidade de operar com menos risco de serem detectados.
“A pandemia nos ensinou que precisamos desenvolver estratégias sobre como continuar as atividades de combate ao tráfico de pessoas em nível nacional e internacional, mesmo durante uma crise. Esperamos que os resultados de nosso estudo e suas recomendações contribuam para isso ”, disse Chatzis.