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CNJ e PNUD lançam estrutura nacional para garantir documentação civil a pessoas presas

04 agosto 2021

  • Em parceria com o PNUD, o CNJ lança o programa Fazendo Justiça, uma ação nacional de identificação civil e emissão de documentos voltada para a população prisional.
  • A iniciativa é motivada pelo fato de que cerca de 80% das pessoas privadas de liberdade no Brasil não têm documentos em seus prontuários, dificultando o acesso a políticas públicas e a retomada da vida  em sociedade. 
  • As informações geradas pelo programa integrarão uma base de dados unificada, e permanentemente atualizada, sob responsabilidade do TSE. 
  • A meta é identificar civilmente toda a população prisional brasileira até agosto de 2022.
Legenda: A proposta é facilitar o acesso a programas sociais, cursos educacionais, atividades profissionalizantes e laborais e o próprio exercício da cidadania
Foto: © Gil Ferreira/CNJ

Cerca de 80% das pessoas privadas de liberdade no Brasil – quase 600 mil – não têm documentos em seus prontuários, dificultando o acesso a políticas públicas e a retomada da vida em sociedade. Para transformar essa realidade, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no âmbito do projeto Fazendo Justiça, executado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançou, nesta terça-feira (3), uma ação nacional que marca a criação de estrutura permanente de identificação civil e emissão de documentos para o público. A estimativa é de que a população prisional do país já esteja identificada civilmente até agosto de 2022.

“A grandiosidade desta iniciativa pode ser medida pela quantidade de instituições envolvidas. Além das presentes nesta cerimônia – como o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Tribunal Superior Eleitoral e a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais – também compõem a rede de parceiros Tribunais de Justiça, Secretarias de Administração Penitenciária, institutos de identificação civil e cartórios de registros civis. São cerca de 150 órgãos públicos nacionais e locais comprometidos com um mesmo objetivo”, destacou o presidente do CNJ, ministro Luiz Fux.

Por meio da ação nacional coordenada pelo Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas do CNJ (DMF/CNJ), as informações integrarão uma base de dados unificada, e permanentemente atualizada, sob responsabilidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os fluxos também permitirão a emissão de documentos básicos para todas as pessoas em situação de privação de liberdade no país de forma confiável. A proposta é facilitar o acesso a programas sociais, cursos educacionais, atividades profissionalizantes e laborais e o próprio exercício da cidadania.

“Ter documentação e ser identificado faz parte do arsenal necessário para o desfrute dos direitos fundamentais, visto que a pessoa presa está privada apenas de sua liberdade, não de sua integridade física e moral. É um privilégio para o Tribunal Superior Eleitoral poder participar deste projeto e ajudar o sistema punitivo brasileiro a resgatar dívidas históricas com esse grupo invisível e marginalizado da sociedade brasileira”, destacou o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso.

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Humberto Martins, destacou a relevância da correta identificação civil já na porta de entrada. “A iniciativa marca o compromisso do Poder Judiciário de promover políticas de segurança pública e de justiça criminal pautadas pelo respeito e a garantia do efetivo exercício do direito das pessoas. Esse é o Judiciário que nós queremos, sonhamos e exercitamos.”

Fazendo Justiça - A criação de estrutura ampla e permanente para assegurar a documentação civil a pessoas que tenham tido contato com o sistema prisional é inédita na América Latina e integra as ações realizadas com apoio técnico do Fazendo Justiça, parceria do CNJ com o PNUD, com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, para enfrentar desafios estruturais no campo da privação de liberdade.

O representante residente adjunto do PNUD no Brasil, Carlos Arboleda, destacou que não há condições favoráveis para o desenvolvimento social e econômico de um país quando as pessoas podem estar sendo deixadas para trás. 

”Uma justiça eficiente reforça uma melhor governança e impulsiona o desenvolvimento social e os investimentos econômicos. Ou seja, um sistema judicial de bom funcionamento reduz a desigualdade perante a lei, particularmente para grupos vulneráveis. Da mesma forma, um sistema judicial em bom funcionamento instila confiança nos investidores e sustenta todos os aspectos do contrato social", disse o representante do PNUD. 

Arboleda lembrou também que "as Nações Unidas têm meta estipulada para que até 2030 todos tenham documento civil no mundo. A ausência de documentos é obstáculo para se exercer cidadania e acessar direitos." Segundo o representante adjunto do PNUD, "a Ação Nacional de Biometria e Documentação Civil de Pessoas Presas ressalta a importância de um trabalho conjunto e internacional na busca de soluções para o aprimoramento dos processos públicos e para o pleno exercício da cidadania por todos."

Segundo a diretora do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Tânia Fogaça, cabe ao Estado promover a ressocialização daqueles que querem retornar ao convívio social. “Os atores de execução penal devem estar unidos no mister de transformar o sistema prisional por meio de ações efetivas, como é a de identificação civil em massa de toda a população carcerária. O Ministério da Justiça investiu nesta parceria R$ 35 milhões, os quais têm sido executados com maestria pelo CNJ, em cooperação com o TSE e o PNUD, entre outros órgãos.”

A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen) também ressaltou a importância da iniciativa enquanto cumprimento de designação constitucional: “A ação que aqui se concretiza é de fortalecimento de cidadania, a fim de possibilitar àqueles que buscam um recomeço o direito elementar e essencial à identidade”, afirmou o presidente da entidade, Gustavo Renato Fiscarelli.

Coleta biométrica - Para apoiar a ação de documentação, já teve início a distribuição de mais de 5,4 mil kits de coleta biométrica a todos os Tribunais de Justiça, Seções Judiciárias Federais e Circunscrições Judiciárias Militares do país, cobrindo todas as portas de entrada no sistema prisional. As unidades prisionais estaduais e federais também serão equipadas com o mesmo aparato e auxiliarão na emissão dos documentos das pessoas em privação de liberdade. A distribuição se encerrará na primeira semana de setembro deste ano, quando as instituições parceiras receberão capacitação para a internalização e padronização de procedimentos adequados ao cumprimento dos objetivos do projeto.

A aquisição dos kits biométricos foi possível por meio de Termo de Execução Descentralizada assinado entre CNJ e Ministério da Justiça e Segurança Pública em 2018, um dos pilares que deram origem ao programa Justiça Presente – hoje programa Fazendo Justiça. A estratégia teve início na gestão do ministro Dias Toffoli à frente do CNJ e continuidade na atual gestão do ministro Luiz Fux.

“Queremos um país em que se pratiquem direitos, com a garantia de que os legitimados para esse exercício estejam definitivamente investidos da cidadania e do sentido de pertencimento a uma mesma e única sociedade. Só assim, alcançaremos o desejado sentimento de viver em uma sociedade mais justa, inclusiva e pacífica, mas que sobretudo permita a realização pessoal de cada um de nós”, ressaltou o ministro Fux.

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade

PNUD
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

Objetivos que apoiamos através desta iniciativa