Notícias

Violações no Afeganistão podem equivaler a "crimes de guerra contra a humanidade", alerta Bachelet

10 agosto 2021

  • Desde 9 de julho pelo menos 183 civis foram mortos e 1.181 feridos, em apenas quatro cidades do Afeganistão.
  • O escalonamento da violência no país chamou atenção do UNICEF, da alta comissária para os direitos humanos da ONU, Michelle Bachelet, e de relatores especiais.
  • Os ataques se intensificaram com o anúncio da retirada de forças estrangeiras, lideradas pelos Estados Unidos, após 20 anos de operações em território afegão. 
  • Com pelo menos 27 crianças mortas em menos de três dias de violentos combates entre o Talibã e as forças do governo, especialistas se mostram preocupados à medida em que cada vez mais menores de idade integram grupos armados.
Legenda: Deslocados pela insegurança no Afeganistão abrigados em um acampamento na província ocidental de Herat
Foto: © Muse Mohammed/OIM

Uma matéria publicada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) chamou atenção para o escalonamento da violência no Afeganistão. Com pelo menos 27 crianças mortas em menos de três dias de violentos combates entre o Talibã e as forças do governo, especialistas se mostram preocupados à medida em que cada vez mais menores integram grupos armados. 

Os ataques em quase todo o país se intensificaram com o anúncio da retirada de forças estrangeiras, lideradas pelos Estados Unidos, após 20 anos de operações em território afegão. 

Segundo informações do UNICEF, 27 crianças foram mortas e 130 ficaram feridas nas províncias de Kandahar, Khost e Paktia. Para a agência, “essas atrocidades também são a prova da natureza brutal e da escala da violência no Afeganistão atacando crianças já vulneráveis.” 

Em uma nota separada, o subsecretário-geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários, Martin Griffiths, disse estar extremamente preocupado com o agravamento da situação que matou ou feriu mais de mil afegãos em um único mês. O chefe humanitário apontou vítimas civis nas províncias de Helmand, Kandahar e Herat, dizendo que “crianças, mulheres e homens afegãos estão sofrendo e são forçados a viver com violência, insegurança e medo todos os dias.” 

Crimes contra as mulheres - Diante da crise humanitária, a alta-comissária para os direitos humanos da ONU, Michelle Bachelet também se pronunciou ao declarar apoio ao retorno às negociações de paz em Doha. Bachelet deu destaque aos crimes cometidos contra as mulheres afegãs, que foram açoitadas e mortas em áreas invadidas pelos extremistas, enquanto jornalistas e defensores dos direitos humanos também foram alvo de ataques.

A alta-comissária da ONU se posicionou ao deixar claro que os relatos de violações que chegaram até ela “podem equivaler a crimes de guerra e crimes contra a humanidade”. Entre eles estão incluídos “relatórios profundamente perturbadores” da execução sumária de tropas governamentais em rendição.

Desde 9 de julho, apenas em quatro cidades — Lashkar Gah, Kandahar, Herat e Kunduz — pelo menos 183 civis foram mortos e 1.181 feridos, incluindo crianças.

Pressão internacional - Na sexta-feira (6), uma alta funcionária das Nações Unidas no Afeganistão apelou para o Conselho de Segurança para agir no país e "evitar uma catástrofe". De acordo com a representante especial Deborah Lyons, chefe da Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (UNAMA), a guerra travada na nação afegã entra agora em “uma fase nova, mais mortal e mais destrutiva”. 

A representante especial relatou que o avanço do Talibã nos últimos meses, agora visando grandes cidades, é uma reminiscência das guerras da Síria e dos Bálcãs. “O Afeganistão está agora em um ponto de virada perigoso”, disse ela . 

“À frente está uma negociação de paz genuína ou um conjunto tragicamente entrelaçado de crises: um conflito cada vez mais brutal combinado com uma situação humanitária aguda e que multiplicam os abusos dos direitos humanos.” 

Advertindo que as consequências podem se estender para além das fronteiras do país, Lyons instou os embaixadores a aproveitarem a oportunidade e demonstrarem compromisso "para evitar que o Afeganistão caia em uma situação de catástrofe tão grave que teria poucos, ou nenhum, paralelos neste século". 

Outro tipo de guerra - Tendo tomado áreas rurais após a saída de tropas estrangeiras, o Talibã agora está avançando sobre as principais cidades, e as capitais provinciais de Kandahar, Herat e Lashkar Gah estão sob pressão significativa.  

O número de mortes foi devastador, relatou Lyons. Mais de mil vítimas foram registradas nessas três áreas apenas no mês passado, enquanto casas, hospitais, pontes e outras infraestruturas foram destruídas. 

Os combates têm sido especialmente ferozes em Laskhar Gah, capital da província de Helmand, no sul, onde pelo menos 104 civis foram mortos e 403 feridos nos últimos 10 dias. 

“Este é um tipo diferente de guerra, uma reminiscência da Síria recentemente ou Sarajevo em um passado não tão distante. Atacar áreas urbanas é infligir conscientemente enormes danos e causar muitas mortes de civis” , disse ela. 

Apoio de combatentes estrangeiros - O Talibã não está operando sozinho, de acordo com o embaixador do Afeganistão na ONU, Ghulam M. Isaczai. Ele disse ao Conselho que mais de 10 mil combatentes estrangeiros estão no país, representando 20 grupos, incluindo a Al-Qaeda e ISIL. 

“Há evidências crescentes de que o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental e o Movimento Islâmico do Uzbequistão, que juraram fidelidade ao ISIL, lutaram ao lado do Talibã nas províncias de Faryab, Jowzjan, Takhar e Badakhshan, onde estão atualmente presentes com suas famílias sob o controle do Talibã, disse o Isaczai, fazendo uma declaração em nome do ministro das Relações Exteriores do Afeganistão. 

“A ligação entre o Talibã e esses grupos terroristas transnacionais é mais forte hoje do que em qualquer momento dos últimos tempos.”

Lyons lembrou que, nos últimos três anos, as autoridades afegãs, assim como a comunidade internacional, mantiveram várias discussões com o Talibã para encontrar a paz e um consenso político.  A cada vez, a expectativa era de que a violência diminuísse e que o mesmo ocorresse quando as tropas estrangeiras saíssem do país no início deste ano.   

“Em vez disso, apesar das concessões significativas para a paz, vimos um aumento de 50% nas vítimas civis com a certeza de muitos mais, à medida que as cidades são atacadas”, disse ela. 

Ressaltando o papel único do Conselho de Segurança, a enviada da ONU enfatizou que seu apoio ao Afeganistão e sua ação são essenciais para o povo do país. Ela destacou a oportunidade, agora, de demonstrar comprometimento. 

“Ao falar com os afegãos, a impressão que tenho agora é de uma população esperando apreensivamente que uma sombra negra passe por cima do futuro mais brilhante que eles um dia imaginaram. É difícil para mim descrever o clima de pavor que enfrentamos todos os dias”, disse ela. 

“Os afegãos estão enfrentando a escuridão que se aproxima com a sensação de estarem sendo abandonados pela comunidade regional e internacional. Eles esperam um engajamento muito maior e apoio visível de você, já que o Conselho mandatou para manter a paz e a segurança internacionais”. 

Envio de um sinal forte - Antes das negociações no Qatar na próxima semana e da próxima reunião do Conselho sobre o Afeganistão em setembro, Lyons instou os embaixadores a aproveitarem a oportunidade para abordar a deterioração da situação no país. 

O Conselho de Segurança deve emitir uma declaração inequívoca de que os ataques contra as cidades devem parar agora, disse ela, enquanto os países que se reúnem com representantes do Talibã devem insistir em um cessar-fogo geral e na retomada das negociações. 

“Nós, como membros da comunidade regional e internacional, tão bem representados por este Conselho, devemos colocar de lado nossas próprias diferenças sobre a questão do Afeganistão e enviar um sinal forte - não apenas em nossas declarações públicas, mas também em nossas comunicações bilaterais para ambas as partes - que é essencial parar de lutar e negociar, nessa ordem. Caso contrário, pode não haver mais nada a ganhar”.

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade

ACNUDH
Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos
UNAMA
United Nations Assistance Mission in Afghanistan
UNICEF
Fundo das Nações Unidas para a Infância

Objetivos que apoiamos através desta iniciativa