Síria: Com conflito longe do fim, situação humanitária se agrava
25 agosto 2021
- O progresso para resolver o conflito de uma década na Síria chegou a um impasse, de acordo com enviado especial para a Síria, Geir O. Pedersen, ao apresentar seu informe ao Conselho de Segurança.
- De acordo com Geir, o aumento nos combates em todo o país levou a alguns dos maiores deslocamentos civis em um ano.
- Além dos confrontos, a pandemia de COVID-19 e a crise econômica agravam a situação humanitária no país, onde cada vez mais pessoas têm sofrido com a insegurança alimentar.
- “Esses acontecimentos nos lembram que o conflito na Síria está longe de terminar”, alertou Geir.
O progresso para resolver o conflito de uma década na Síria chegou a um impasse, disse o mediador-chefe das Nações Unidas ao Conselho de Segurança na terça-feira (24), quando um aumento nos combates em todo o país levou a alguns dos maiores deslocamentos civis em um ano.
“Precisamos de um processo político confiável, assim como de uma cooperação internacional mais sustentada”, disse o enviado especial para a Síria, Geir O. Pedersen.
Ele chamou a atenção para a implementação significativa de tropas, bombardeios pesados e confrontos terrestres no sudoeste da Síria, especialmente na província de Deraa.
“Repetimos nossos apelos a todas as partes para que acabem com a violência imediatamente. O acesso humanitário seguro e desimpedido é necessário para todas as áreas e comunidades afetadas”, pediu Pedersen.
Superando o impasse - Segundo o enviado especial, as tensões permanecem altas no noroeste, principalmente em Idlib, no norte de Latakia e em Aleppo, assim como no oeste de Hama. Ataques aéreos e bombardeios se intensificaram nos últimos meses, e as áreas do nordeste de Raqqa e Hassakeh também viram violência envolvendo grupos armados não estatais.
“Esses acontecimentos nos lembram que o conflito na Síria está longe de terminar”, alertou Pedersen.
Na frente política, o enviado especial disse que seu escritório está trabalhando para facilitar a convocação de uma sexta sessão do Pequeno Corpo do Comitê Constitucional. “As Nações Unidas farão o possível para facilitar a implementação de todos os aspectos da resolução 2585 (2021), que estende a autorização de passagem da fronteira de Bab al-Hawa e envia uma mensagem de que os principais Estados - notadamente a Federação Russa e os Estados Unidos - podem cooperar além da via humanitária”, afirmou.
Aumento do risco de abusos - O subsecretário-geral para Assuntos Humanitários e coordenador de Assistência de Emergência, Martin Griffiths, disse que as hostilidades em curso, a crise econômica, a escassez de água e a COVID-19 estão levando as necessidades humanitárias aos níveis mais altos desde o início do conflito.
Citando relatos de que as famílias estão cada vez mais recorrendo ao casamento precoce como meio de sustentar suas filhas, Griffiths relatou que, em junho e julho, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) registrou 153 civis mortos e 280 civis feridos decorrentes das hostilidades.
Enquanto isso, os problemas de segurança persistem no campo de refugiados de Al Hol, com 69 assassinatos registrados desde janeiro. A extrema vulnerabilidade e dependência de ajuda dos residentes - 59.000 no total, sendo um em cada cinco deles com menos de cinco anos - apenas aumentam os riscos de exploração e abuso sexual. “Não devemos abandoná-los à violência e desesperança de al Hol”, enfatizou Griffiths.
Ele continuou a detalhar a violência recente dentro e ao redor de Darra, apontando que o Hospital Nacional de Darra perdeu temporariamente sua unidade de diálise devido a um disparto de morteiro. Os civis que permanecem em Darra al-Balad enfrentam falta de água, eletricidade e gás de cozinha.
Insegurança alimentar - Sobre a crise econômica, Griffiths disse que as avaliações das Nações Unidas em julho revelaram que um terço das famílias entrevistadas indicou dificuldades de acesso aos mercados. O nível é o mais alto relatado desde abril de 2020.
Um quinto do entrevistados relatou acesso reduzido a cuidados médicos, com outros relatando que a perda de renda afetou negativamente sua segurança alimentar. Os altos preços das commodities forçaram as famílias a reduzir as refeições, com os lares chefiados por mulheres sendo particularmente afetados.
Além disso, a crise da água persiste: os níveis do rio Eufrates, que flui da Turquia para a Síria caíram para um “ponto criticamente baixo”. O baixo volume de neve e chuva também impactaram as fontes de água em toda a região. Mais de 5 milhões de pessoas dependem do rio para água potável e eletricidade, assim como os hospitais e as redes de irrigação.
COVID-19 em alta - O oficial sênior da ONU informou ainda que as taxas de transmissão de COVID-19 permanecem altas e provavelmente excedem os números oficiais. As vacinações estão em andamento, com o primeiro lote de 270.000 doses entregue por meio do mecanismo COVAX da Organização Mundial da Saúde (OMS) já distribuído.
Em 23 de agosto, 218.900 pessoas estavam vacinadas em áreas controladas pelo governo e no nordeste, enquanto 58.000 foram vacinadas no noroeste. Em 15 de agosto, o segundo lote de vacinas COVAX chegou, com cerca de 138.000 para as áreas controladas pelo governo e o nordeste, e 36.000 para o noroeste.
No entanto, essas quantidades cobrem menos de 1% da população da Síria. “Precisamos acelerar a escala e o ritmo”, afirmou Griffiths.
A cada mês, a operação das Nações Unidas na Síria atinge 6,6 milhões por mês em todo o país, no entanto, "as necessidades, é claro, estão superando a resposta", frisou o subsecretário-geral. Ele acrescentou ainda que planeja visitar a Síria, Líbano e Turquia para obter um entendimento mais profundo dos desafios.