Hepatites são foco de atuação do PNUD e organizações civis
03 janeiro 2022
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as hepatites do tipo B e C são responsáveis por aproximadamente 57% dos casos de cirrose hepática e 78% dos casos de câncer primários do fígado no mundo.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que mais de um milhão de pessoas tenham hepatite B mas menos de 10% delas foi diagnosticada.
As hepatites e seu diagnóstico precoce foram alvo de atuação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Através de um edital, PNUD e Ministério da Saúde selecionaram propostas de organizações capazes de ampliar as testagens e conscientização do público a respeito destas doenças.
O Ministério da Saúde estima que mais de um milhão de pessoas tenham hepatite B no Brasil mas menos de 10% receberam um diagnóstico para a doença e estão sendo acompanhadas por um médico. Para tentar ampliar a identificação precoce de hepatites virais no país, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lançou, em parceria com o governo federal, uma nova edição do edital que ajuda a financiar Organizações da Sociedade Civil (OSC).
Foram selecionados projetos focados em ações de base comunitária para prevenção, rastreio e diagnósticos das populações prioritárias, além do encaminhamento para atendimento médico.
Os vírus do tipo B e C da hepatite, por exemplo, são responsáveis por aproximadamente 57% dos casos de cirrose hepática e 78% dos casos de câncer primários do fígado, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2010. A Organização considera ser necessário ampliar a testagem para as hepatites B e C para todas as pessoas pertencentes ao público prioritário, de forma a reduzir as novas infecções em 90% e as mortes em 65% até 2030, bem como ampliar a cobertura vacinal de hepatite B ao nascer e na população acima de 20 anos.
O edital, publicado em junho, selecionou organizações com iniciativas focadas em populações e contextos nos quais os serviços de saúde não estão acessíveis. Algumas das metas incluem testes mensais para hepatite B e C e atividades de base comunitária. Os projetos selecionados também apresentaram iniciativas inovadoras, considerando o cenário epidemiológico e sanitário da pandemia de COVID-19.
“Para que se possa ampliar o diagnóstico e tratamento das hepatites virais, é imprescindível o desenvolvimento de ações de comunicação e de educação em saúde”, diz a analista de projeto do PNUD, Luciana Brant.
“As organizações da sociedade civil e as associações de base comunitária se diferenciam no potencial de propagar informações, opções de prevenção, realizar busca ativa de portadores, de diagnóstico precoce, de fomento e incentivo para acesso aos serviços de saúde justamente pelo conhecimento que têm do território e, principalmente, por saberem se comunicar com seus pares”, avalia a analista.
Selecionados - Atuando há 23 anos na promoção e proteção dos direitos humanos, em especial prestando assistência às pessoas que vivem com HIV/AIDS em Pelotas (RS), o grupo Vale Vida foi uma das instituições selecionadas pelo edital. No projeto com o PNUD, o grupo realiza mensalmente cerca de 100 testes de hepatite C, 75 testes de hepatite D e dez ações comunitárias, além de capacitação de agentes de saúde e comunitários em cursos de sensibilização sobre hepatites virais.
“Enfatizamos a relevância do diagnóstico precoce, uma vez que a hepatite mata mais que a AIDS e, por ser doença silenciosa, as pessoas não estão tão alertas. Fazemos um trabalho de conscientização sobre a importância da testagem e da vacinação”, afirma a coordenadora do grupo Vale a Vida, Sônia Malizia Cabral. “Realizamos uma busca ativa para a testagem e ligamos para verificar se o tratamento está sendo feito. Não adianta só testar”, explica.
No Nordeste, uma das propostas selecionadas para o edital é da Associação Caririense de Luta Contra AIDS, instituição que desde 2011 promove iniciativas de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis, HIV e hepatites virais na região metropolitana do Cariri, sul do Ceará.
Com o financiamento promovido pelo edital, a Associação está reforçando a testagem de hepatites virais entre as populações-chave: gays, homens que fazem sexo com homens, travestis e transexuais, pessoas em situação de rua e pessoas acima de 40 anos de Juazeiro do Norte.
“Já iniciamos as ações de base comunitária. São duas atividades por semana que ocorrem em espaços públicos como praças, feiras livres e mercados. Entregamos material educativo, panfletos e preservativos, mas também fazemos a testagem rápida, reforçamos a importância da imunização para hepatite B”, conta Ronildo de Oliveira, coordenador de projetos da Associação, cuja equipe é formada por educadores e enfermeiros que, mensalmente, realiza 100 testes de hepatite B e C.
Parceria - A convocação das Organizações é parte de um projeto mais amplo do PNUD com o Ministério da Saúde criado em 2015 para promover o acesso aos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis, HIV/AIDS e hepatites virais para as populações-chave e demais populações prioritárias.
O diretor do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, Gerson Pereira, lembra que os testes rápidos são grandes facilitadores para o rastreio da população para as hepatites. “São testes simples, de fácil execução e que podem ser feitos longe de uma estrutura laboratorial”, afirma.
“Assim, essa parceria com as organizações da sociedade civil é de extrema relevância para contribuir para que o teste chegue a populações que têm mais dificuldades de acessar ou ser acessadas pelo Sistema Único de Saúde, mas que são mais vulneráveis às infecções pelos vírus B e C”, avalia.
Prioritário - As hepatites virais são causadas por agentes hepatotrópicos – quando o fígado é o órgão alvo da replicação viral – e podem evoluir de forma aguda ou crônica, sintomática ou assintomática. São doenças crônicas e silenciosas, fato que dificulta o diagnóstico e favorece o avanço do estágio da lesão hepática.
As pessoas mais atingidas por estas doenças são aquelas com mais de 40 anos, as que estão em situação de rua, usam álcool e outras drogas e profissionais do sexo. No caso da hepatite B, também são prioritárias pessoas com idade igual ou superior a 20 anos que não tenham completado o ciclo de vacinação.
A infecção por hepatite viral tem forte ligação com as vulnerabilidades das populações. Além dos grupos prioritários já citados, há taxas mais elevadas de prevalência em populações quilombolas, indígenas, ribeirinhas, dentre outras que habitualmente residem em áreas silvestres ou rurais.
No caso da hepatite C, a transmissão parenteral, que ocorre pelo contato com sangue ou objetos contaminados, é a via mais comum de disseminação do vírus. A transmissão pelas vias sexual e vertical (perinatal e intrauterina) também ocorre, ainda que em menor proporção.
Em relação à hepatite B, trata-se de uma doença de transmissão parenteral, sexual e vertical, sendo a transmissão perinatal umas das vias mais significativas de infecção e, também, a principal forma de transmissão para as crianças recém-nascidas.