Dos alicerces da ONU à liderança pela paz: a trajetória da participação das mulheres
Discurso da Coordenadora Residente da ONU no Brasil, Silvia Rucks, no Seminário “Mulheres na Diplomacia", realizado no Instituto Rio Branco, em Brasília - DF.
Bom dia a todas e todos.
Cumprimento o Excelentíssimo Ministro das Relações Exteriores, Sr. Mauro Vieira, e a Secretária-Geral das Relações Exteriores, Embaixadora Maria Laura da Rocha, a quem agradeço pelo honroso convite para participar deste seminário.
Igualmente saúdo a Embaixadora Vanessa Dolce de Faria, Alta-Representante de Temas de Gênero do Ministério das Relações Exteriores, e, em seu nome, parabenizo toda a equipe do Itamaraty pela organização deste evento tão relevante.
Dirijo meus cumprimentos à Excelentíssima Ministra das Mulheres, Sra. Márcia Lopes, cuja trajetória é símbolo do compromisso com os direitos das mulheres e a equidade de gênero.
Envio uma saudação especial à Ministra Mariana Moscardo, Diretora Adjunta do Instituto Rio Branco, bem como às alunas e aos alunos desta prestigiada casa que nos acompanham hoje.
Aproveito ainda para cumprimentar minhas e meus colegas das Nações Unidas aqui presentes.
Senhoras e senhores,
É uma grande satisfação estar aqui hoje, neste espaço tão emblemático para a política externa brasileira, responsável por formar o reconhecido corpo diplomático do Brasil. Sinto-me especialmente privilegiada por representar o Sistema ONU e nosso Secretário-Geral nesta celebração do Dia Internacional das Mulheres na Diplomacia.
Esta é uma data que nos convida a olhar para o passado com gratidão, para o presente com responsabilidade e para o futuro com esperança.
A Organização das Nações Unidas se aproxima de um marco histórico: em breve, completaremos 80 anos de existência. Devo confessar que acompanhei de dentro da ONU uma grande parte desses 80 anos, então posso afirmar categoricamente que este é um dos períodos mais desafiadores para nossa instituição.
Nascemos de um desejo profundo dos países fundadores, entre eles o Brasil, de impedir que o mundo tivesse que mais uma vez enfrentar as mazelas de uma grande guerra. E se por um lado podemos celebrar o fato de termos cumprido esse que é o nosso maior propósito — evitar uma terceira guerra mundial —, por outro, atravessamos, neste exato momento, um conjunto de desafios multifacetados que requerem mais união do que nunca.
O número de conflitos armados no mundo hoje é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas, seus países, suas vidas. As crises humanitárias se multiplicam. E não são apenas guerras, são também as mudanças do clima, as desigualdades crescentes, o retrocesso em direitos humanos, a insegurança alimentar e os deslocamentos forçados – dores que marcam o nosso tempo e põem em xeque nossa humanidade.
Mas, desde sua fundação, a ONU tem carregado em seu DNA o compromisso com a igualdade entre mulheres e homens. E se estamos aqui hoje, é porque mulheres corajosas – muitas vezes solitárias, quase sempre pioneiras – abriram caminho para que estivéssemos à altura desse compromisso.
Eu não quero dar spoiler porque temos especialistas aqui conosco para falar sobre esse tema, mas peço licença para lembrar e homenagear uma dessas mulheres tenazes, a brasileira Bertha Lutz.
Ela foi uma das poucas mulheres presentes na Conferência de São Francisco, em 1945, que deu origem à ONU. Ela se recusou a aceitar uma Carta das Nações Unidas que não incluísse um compromisso explícito com os direitos das mulheres. E foi graças à sua insistência – e ao apoio de outras delegadas latino-americanas – que a expressão “igualdade de direitos entre homens e mulheres” foi incluída no preâmbulo e nos artigos da Carta da ONU.
Bertha Lutz nos ensina, desde o início, que mulheres na diplomacia não apenas constrõem pontes: elas mudam os alicerces. E, com isso, elas definem rumos. Se hoje temos, dentro da ONU, paridade entre homens e mulheres em cargos de chefia, é graças à semente plantada por Bertha Lutz e suas parceiras de luta em São Francisco. É graças também à liderança do nosso Secretário-Geral que, desde que assumiu o cargo, estabeleceu esse compromisso e atingiu a paridade já em 2020. É verdade que ainda não conseguimos uma mulher no cargo mais alto da ONU, mas nossa Vice-Secretária-Geral é uma mulher, e esse exemplo mostra que a vontade política é capaz de transformar nossas instituições e abrir caminho para que as mulheres ocupem os espaços que almejam e que também são seus por direito.
A atenção cuidadosa às decisões e às consequências das disparidades de gênero sobre a vida das mulheres reflete diretamente o legado das notáveis diplomatas que, com visão muito à frente de seu tempo, lançaram as bases para transformações estruturais que hoje beneficiam toda a sociedade.
Prova disso é que, 80 anos depois, o espírito de Bertha continua vivo em outra conquista histórica das mulheres no multilateralismo: a Agenda Mulheres, Paz e Segurança, consagrada pelo Conselho de Segurança da ONU no ano 2000.
Essa agenda reconhece, de forma inequívoca, que a participação plena, igualitária e significativa das mulheres é essencial para a prevenção de conflitos, para a construção da paz e para a recuperação de sociedades afetadas por guerras.
Ela foi fortalecida ao longo desses 25 anos por outras nove resoluções do Conselho de Segurança, que abordam temas como a proteção de mulheres em contextos de conflito, o enfrentamento à violência sexual e a promoção do papel das mulheres como mediadoras, negociadoras e líderes em processos de paz.
Sobre esse ponto, eu gostaria de compartilhar uma anedota ilustrativa da experiência de implementação da Agenda Mulheres, Paz e Segurança. Quando eu servia na Colômbia, acompanhei o processo de negociação de paz, inclusive os diálogos realizados em todo o país. Fui designada chefe da missão da ONU nas rodadas de negociação realizadas em Havana e, ao entrar na sala, notei que eu era a única mulher presente.
A essa altura, com mais de 25 anos de trabalho na ONU, esperava que esse fosse um problema superado, mas ouvi do chefe da delegação da guerrilha: “Infelizmente, representamos e reproduzimos a mesma estrutura da sociedade, mas vamos melhorar”. Na segunda rodada, já havia mulheres como parte de todas as delegações.
Então vemos que a nossa persistência é justificada e recompensada. E que essa agenda vai além dos cenários de guerra. Ela também é uma convocação para a transformação estrutural das relações de poder e para o reconhecimento de que a paz duradoura só é possível com igualdade de gênero.
Senhoras e senhores,
Ainda temos muito a avançar. Apenas um quinto das embaixadas ao redor do mundo é chefiada por mulheres. Em negociações de paz formais, elas continuam sub-representadas nas mesas de diálogo. E mesmo quando participam, suas vozes muitas vezes são marginalizadas.
A presença de mulheres na diplomacia não é apenas uma questão de justiça. É uma questão de eficácia.
Estudos demonstram que quando mulheres estão envolvidas em negociações de paz, os acordos têm 35% mais chance de durar ao menos 15 anos. Em outras palavras: a diplomacia é mais forte, mais sensata e mais duradoura quando incorpora a diversidade das experiências e perspectivas femininas.
E não falamos aqui apenas de mulheres em altos cargos. Falo da presença de mulheres jovens, mulheres indígenas, negras, quilombolas, mulheres trans e todas aquelas que, historicamente, foram silenciadas.
Incluir essas vozes é garantir que a diplomacia cumpra sua missão mais nobre: representar a humanidade em toda a sua pluralidade.
Tenho muito orgulho de ver que o Brasil tem dado passos importantes nesse sentido. O Itamaraty, com sua tradição centenária, tem se reinventado. E hoje temos mais mulheres em cargos estratégicos, mais debates sobre igualdade de gênero, mais políticas institucionais para promoção da diversidade. O caminho é longo, mas já não é solitário. Nesse percurso, a ONU é parceira, desde o início, desde sempre.
Quero também saudar o compromisso renovado do Estado brasileiro com a agenda de Mulheres, Paz e Segurança, reafirmado pelo Presidente Lula e com expressão tanto no plano interno quanto na atuação internacional. Externamente, o Brasil tem sido amplamente reconhecido, desde sua atuação como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, até o protagonismo de suas forças de paz. No plano doméstico, é um dos doze países da América Latina e Caribe que já elaboraram Planos Nacionais de Ação para a implementação da Resolução 1325. Tenho orgulho de ver as Nações Unidas contribuindo ativamente nesse processo, por meio da assessoria técnica da ONU Mulheres na elaboração dos dois PNAs brasileiros.
Com esses documentos, o Brasil reafirma sua visão alinhada com os princípios das Nações Unidas: as mulheres devem ser reconhecidas como agentes de transformação e parceiras essenciais na promoção da paz e da segurança.
Mas também no Brasil, apoiamos o governo, a sociedade civil e o setor privado na implementação da Agenda 2030, cujo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 é claro: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.
E a diplomacia tem papel central nesse esforço, porque onde há diálogo, há possibilidade de mudança. Onde há escuta, há transformação.
A igualdade de gênero, juntamente com as temáticas de raça e etnia, é um tema prioritário e transversal a todas as iniciativas da ONU no Brasil. Contamos com um grupo de agências, fundos e programas empenhados em garantir que nossos programas, projetos e ações tenham sempre a preocupação de contribuir para melhorar as vidas de mulheres e meninas, honrando o compromisso selado por Bertha Lutz.
Queridas colegas diplomatas,
A presença de vocês representa as que vieram antes, as que estão agora e as que virão depois. Representa as meninas que sonham com a política internacional, com as embaixadas, com as mesas de negociação. E que, ao verem vocês onde estão, passam a acreditar que também podem chegar aqui.
Como disse uma vez Eleanor Roosevelt, outra mulher decisiva na criação da ONU:
"O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos."
A minha mensagem final é de encorajamento e reconhecimento. Continuem sonhando. Continuem liderando. Continuem fazendo diplomacia com coragem, com sensibilidade, com excelência. O mundo precisa de vocês.
Muito obrigada.
Assista à gravação do Seminário “Mulheres na Diplomacia – da criação da ONU à Implementação da Agenda Mulheres, Paz e Segurança":
Para saber mais, siga @onubrasil nas redes e visite a página da ONU Brasil sobre os 80 anos das Nações Unidas.