“Conquistas duramente conquistadas em desenvolvimento estão em sério risco”
Discurso da vice-secretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, na abertura do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, em 14 de julho.
Em 2015, o mundo assumiu um compromisso histórico com o desenvolvimento sustentável e com a promessa de que ninguém seria deixado para trás.
A Agenda 2030 se baseou em décadas de esforços de desenvolvimento e levou adiante a visão e os aprendizados dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram moldados em torno de uma mudança de paradigma que integra três dimensões centrais: crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental — com ênfase no papel vital da governança eficaz e de instituições fortes.
A Agenda 2030 trouxe uma promessa a todas as pessoas, em todos os lugares: viver com dignidade, em um planeta saudável e seguro.
Hoje, uma década depois, nos reunimos novamente enquanto o mundo enfrenta conflitos e tensões geopolíticas crescentes.
O tecido do multilateralismo está se desgastando, e os ODS parecem fora de alcance. Conquistas duramente conquistadas em desenvolvimento estão em sério risco, em meio a uma multiplicidade de desafios, agravados pela escassez crônica de financiamento adequado.
Alarmantemente, metade dos países mais pobres do mundo ainda não retornou aos níveis de renda anteriores à pandemia.
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As desigualdades aumentaram.
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As tensões comerciais estão se intensificando.
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A crise climática está se agravando.
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A democracia está sob ameaça.
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E a crise da dívida continua a restringir as possibilidades dos países mais vulneráveis.
A situação é verdadeiramente preocupante.
No entanto, os dados mais recentes mostram que, embora o progresso nos ODS tenha sido desigual e limitado, há motivos para esperança.
Os sistemas de proteção social e saúde estão se expandindo, especialmente nos países de renda média, alcançando cada vez mais pessoas. Mais mães estão sobrevivendo ao parto, e mais crianças estão ultrapassando os cinco anos de idade. O acesso à educação está se ampliando, abrindo novos caminhos para os jovens.
Nunca houve tantas meninas na escola, inclusive estudando áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).
Os países estão investindo em melhores dados e tecnologias para que as políticas públicas cheguem aos que mais precisam. Estão sendo prometidos investimentos em conectividade digital e energia limpa para alcançar as áreas mais remotas.
Enquanto isso, o mundo se uniu em torno de um ambicioso acordo global para enfrentar desafios estruturais profundos e impulsionar um progresso mais rápido e inclusivo: o Pacto para o Futuro, adotado em setembro passado. Ele amplia reformas e compromissos existentes e traça um caminho ousado para revitalizar o multilateralismo, com base na paz, solidariedade e cooperação.
A Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento renovou nosso compromisso com a Agenda de Ação de Adis Abeba, avançando em soluções para a dívida e na reforma da arquitetura financeira internacional.
A Conferência sobre o Oceano realizada em Nice gerou consensos importantes sobre áreas marinhas protegidas, poluição por plásticos, pesca ilegal e segurança marítima.
A comemoração de 30 anos da Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing+30) e os 25 anos da Agenda Mulheres, Paz e Segurança reacenderam o impulso político pela igualdade de gênero e pelo empoderamento das mulheres.
E ainda temos diversas oportunidades este ano para avançar nessa agenda:
- Segunda Avaliação de Resultados da Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU
- Segunda Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social
- Cúpula Bienal sobre Finanças
- COP30, antecedida pelas novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) de abrangência econômica para recuperar as metas climáticas
Excelências,
Devemos construir sobre essas conquistas, aproveitar o momento e transformar esse Fórum Político de Alto Nível em ação concreta.
Estamos sob pressão porque, na verdade, as expectativas são altas, a confiança está se desgastando e as crises se aprofundam, enquanto nos esforçamos para cumprir a promessa da Agenda 2030.
Este Fórum é uma oportunidade crucial para refletir, trocar experiências e corrigir rotas. É nosso espaço para ampliar o impulso, compartilhar boas práticas, fortalecer parcerias e reacender nossa ambição coletiva de alcançar os ODS.
Nos próximos dias, devemos refletir com honestidade e de forma construtiva sobre os avanços, especialmente nos seguintes objetivos:
- ODS 3 – Saúde e bem-estar
- ODS 5 – Igualdade de gênero e empoderamento das mulheres
- ODS 8 – Trabalho decente e crescimento econômico
- ODS 14 – Vida na água
- ODS 17 – Parcerias e meios de implementação
Sempre com os direitos humanos no centro de tudo o que fazemos e aspiramos alcançar.
Devemos também focar no tema deste ano: “Soluções inclusivas baseadas em ciência e evidências”, e considerar os principais achados do Relatório do Secretário-Geral sobre os ODS.
Precisamos de soluções que enfrentem desafios persistentes, que possam ser adaptadas e aplicadas em diversos contextos e que melhorem a vida das bilhões de pessoas deixadas para trás:
- 800 milhões vivendo em pobreza extrema
- 2,2 bilhões sem acesso à água potável segura
- 2,3 bilhões em situação de insegurança alimentar
- 3,4 bilhões sem saneamento básico gerenciado com segurança
- E inúmeras mulheres, povos indígenas, pequenos agricultores e grupos marginalizados sem acesso a sistemas formais de saúde e proteção
Este Fórum também receberá o décimo ciclo de Revisões Nacionais Voluntárias (RNVs). Essas revisões funcionam como um termômetro da trajetória de cada país.
Desde 2016, um total de 190 países já realizaram cerca de 400 RNVs.
Esse exercício voluntário tem sido adotado quase universalmente: um sinal encorajador de compromisso com a Agenda 2030 e os ODS, e evidência de que os ODS estão profundamente integrados nos planos, políticas e sistemas de monitoramento nacionais.
As RNVs são poderosos roteiros para alcançar os ODS e mobilizar todos os atores. Em todas as regiões, a sociedade civil tem tido um papel crescente, impulsionando o progresso em nível nacional e local.
Essas revisões vêm ajudando a gerar conhecimento, dados e caminhos práticos para superar as barreiras estruturais. Ao longo da última década, inspiraram ações com abordagens inclusivas, escaláveis e enraizadas nas realidades locais.
Aguardamos com expectativa as 37 apresentações de RNVs neste Fórum, e encorajamos outros países a se engajarem e promoverem uma troca significativa de experiências.
Excelências, amigas e amigos,
Cabe a todos nós fazer deste Fórum um momento decisivo.
Avançamos bastante. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer. E, para honrarmos a promessa dos ODS, precisamos ir ainda mais longe.
O caminho até 2030 está se estreitando.
As decisões que tomarmos agora — onde investir, o que priorizar e como reformar — moldarão os rumos do desenvolvimento pelas próximas décadas.
Com cinco anos restantes, a Iniciativa ONU80 do secretário-geral representa um passo histórico para consolidar as reformas recentes e garantir que as Nações Unidas permaneçam como um parceiro confiável, ágil e preparado para enfrentar os desafios atuais e as incertezas futuras — impulsionando, em todos os níveis, nosso esforço coletivo pela Agenda 2030.
Obrigada.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/tags/forum-politico-de-alto-nivel