“Moradia é dignidade”: Vice-secretária-geral da ONU defende habitação adequada como base para a paz e o desenvolvimento
Discurso da vice-secretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, na abertura do Diálogo de Alto Nível sobre Habitação Adequada para Todas as Pessoas.
Excelentíssima Patty Hadju, ministra de Empregos e Famílias do Canadá,
Excelentíssimo Bob Rae, presidente do ECOSOC,
Excelentíssima Beatrice Karago, representante permanente adjunta da República do Quênia para o ONU-Habitat,
Excelências,
Senhoras e senhores,
É um privilégio estar com vocês hoje neste diálogo tão importante.
Agradeço ao presidente do ECOSOC e ao ONU-Habitat por convocar este encontro em um momento tão decisivo.
Permitam-me começar com uma pergunta simples: o que foi necessário para que estivéssemos aqui hoje?
Acordamos em algum lugar seguro.
Tínhamos um endereço para onde os documentos pudessem ser enviados, onde nossas famílias sabiam nos encontrar. Tínhamos um espaço para fazer uma refeição, carregar nossos telefones e nos prepararmos para este dia.
Para quase três bilhões de pessoas em nosso planeta, nada disso é garantido.
É por isso que este diálogo — neste momento crítico do Fórum Político de Alto Nível — é tão urgente.
Habitação não é apenas um teto sobre a cabeça. É um direito humano fundamental e a base sobre a qual se constrói a paz.
Desenvolvimento sustentável e paz sustentável são inseparáveis.
Hoje, em um mundo cada vez mais urbanizado, quase 3 bilhões de pessoas vivem em condições inadequadas, em assentamentos informais, moradias superlotadas ou sem nenhum abrigo.
Entre elas, estão mais de 120 milhões de refugiados e deslocados internos — famílias expulsas de seus lares por conflitos, perseguições e violência.
Quando casas são destruídas, famílias forçadas a fugir, comunidades desarraigadas — vemos como a habitação se torna ao mesmo tempo vítima e arma de guerra.
Em Gaza, na Ucrânia, no Sudão, no Iêmen, em Mianmar e em tantos outros lugares, vimos isso repetidamente.
Não existe habitação segura em meio aos escombros. E sem abrigo, perdemos a base da coesão social e da estabilidade que torna a paz possível.
Essa crise afeta todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) aos quais nos comprometemos até 2030.
Costumamos dizer que "lar é onde o coração está".
Nosso trabalho pela habitação está no coração dos ODS — e, quando garantimos moradia adequada, criamos condições para que todos os outros objetivos prosperem.
Sabemos que, quando as pessoas têm acesso a moradia segura, adequada e acessível:
- As crianças têm melhor desempenho na escola.
- Trabalhadores são mais produtivos.
- A saúde melhora drasticamente.
- O acesso ao trabalho digno se amplia.
- As comunidades tornam-se mais resilientes às forças que alimentam o conflito e a divisão.
- E, embora a moradia não elimine a violência baseada em gênero dentro de casa, ela reduz a exposição de mulheres e meninas à violência em espaços públicos.
A realidade é que a ambição da Agenda 2030 de não deixar ninguém para trás começa com algo tão fundamental quanto um lar seguro.
Até 2030, 60% da população mundial viverá em cidades, chegando a quase 70% até 2050.
Temos as ferramentas e o compromisso necessários para construir cidades — não favelas —, guiados pela Nova Agenda Urbana e sua defesa de uma urbanização planejada e inclusiva, que assegure moradia, serviços e dignidade para todas as pessoas.
Nosso sucesso — ou fracasso — em cumprir os compromissos assumidos dependerá de nossa capacidade de agir com urgência e de forma colaborativa.
Durante a Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, os Estados-membros corretamente defenderam reformas ousadas e investimentos para fortalecer o contrato social.
Isso deve incluir a habitação — não como projeto isolado, mas como motor do desenvolvimento inclusivo.
O Pacto para o Futuro reafirmou a Agenda 2030 e nos deu um mandato claro:
- Fazer o multilateralismo funcionar na vida das pessoas e nos bairros onde elas vivem.
- Prevenir conflitos e sustentar a paz — e a habitação está no centro de ambas as agendas.
Mais adiante este ano, a Segunda Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social será uma oportunidade para reafirmar que a moradia é essencial para a proteção social, o trabalho digno, o acesso a serviços — e para a construção de uma sociedade justa e coesa.
Também será uma oportunidade para reconhecer a habitação como pilar da prevenção de conflitos e da construção da paz.
Como presidente do Grupo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, vejo como as equipes da ONU trabalham todos os dias com governos, sociedade civil, autoridades locais e regionais para promover esses objetivos.
Mas precisamos fazer mais.
Na prática, isso significa alinhar compromisso político e financiamento com a urgência e escala do desafio.
Significa investir em moradia adequada não apenas como infraestrutura de desenvolvimento, mas como infraestrutura de paz.
Também precisamos colocar no centro da discussão aqueles que costumam ser deixados às margens: mulheres, jovens, pessoas idosas, pessoas com deficiência, povos indígenas, populações deslocadas e pessoas em situação de rua.
Suas vozes e experiências devem informar políticas e soluções — porque sabem o que funciona, o que está faltando e podem contribuir com soluções que precisamos expandir.
Elas conhecem intimamente as conexões entre deslocamento, insegurança e conflito.
Sua participação é a melhor medida do nosso compromisso com a equidade, a dignidade e os direitos humanos.
Senhoras e senhores,
O primeiro lugar onde as oportunidades nascem, ou são negadas, não é na escola ou no escritório. É em casa.
Vamos garantir não apenas abrigo, mas soluções duradouras que ofereçam segurança e caminho para a prosperidade.
Não apenas quatro paredes e um teto — mas a chance de viver com dignidade.
Muito obrigada.