Guterres: “As pessoas ganham quando canalizamos nossa energia para o desenvolvimento”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na abertura do segmento ministerial do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável.
O Fórum Político de Alto Nível deste ano acontece em um momento de profundos desafios — mas também de verdadeiras possibilidades.
Apesar dos enormes obstáculos, vimos, apenas nos últimos dois meses, o que pode ser alcançado quando os países se unem com convicção e foco.
Vimos isso em Genebra, onde a Assembleia Mundial da Saúde adotou o Acordo sobre Pandemias — um passo vital rumo a uma arquitetura global de saúde mais segura e equitativa.
Vimos isso em Nice, na Terceira Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, onde os governos se comprometeram a expandir áreas marinhas protegidas e combater a poluição plástica e a pesca ilegal.
E vimos isso em Sevilha, na Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, onde os países concordaram com uma nova visão para as finanças globais — que amplia o espaço fiscal, reduz o custo do capital e garante aos países em desenvolvimento uma voz mais forte e maior participação nas organizações que moldam seu futuro.
Essas não são vitórias isoladas.
São sinais de avanço.
Sinais de que o multilateralismo pode dar resultados.
Sinais de que a transformação não é apenas necessária — é possível.
E é com esse espírito que participamos deste Fórum.
Excelências, senhoras e senhores,
Este Fórum é sobre renovar a promessa comum — de erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir prosperidade para todas as pessoas.
Também reconhecemos os profundos vínculos entre desenvolvimento e paz.
Nos reunimos em meio a conflitos globais que afastam ainda mais os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) do nosso alcance.
Por isso, precisamos continuar trabalhando pela paz no Oriente Médio.
No último fim de semana, em Gaza, mais pessoas foram brutalmente assassinadas enquanto buscavam ajuda humanitária da ONU para suas famílias — um ato atroz e desumano que condeno veementemente.
Precisamos de um cessar-fogo imediato em Gaza, da libertação imediata de todos os reféns e de acesso humanitário irrestrito como primeiro passo rumo à solução de dois Estados.
Precisamos que o cessar-fogo entre Irã e Israel seja mantido.
Precisamos de uma paz justa e duradoura na Ucrânia, com base na Carta da ONU, no direito internacional e nas resoluções da ONU.
Precisamos de um fim ao horror e ao derramamento de sangue no Sudão.
E a lista continua — da RDC à Somália, do Sahel à Mianmar.
Em cada caso, sabemos que a paz sustentável exige desenvolvimento sustentável.
Os ODS não são um sonho.
São um plano.
Um plano para honrar nossas promessas — com as pessoas mais vulneráveis, entre nós e com as futuras gerações.
As pessoas ganham quando canalizamos nossa energia para o desenvolvimento.
Desde 2015, milhões de pessoas passaram a ter acesso à eletricidade, à internet e a métodos de cozimento limpos.
A proteção social agora alcança mais da metade da população mundial — antes, era apenas um quarto.
Mais meninas estão concluindo os estudos.
O casamento infantil está diminuindo.
A representação feminina está crescendo — nos conselhos de administração e nos espaços de poder político.
Mas é preciso encarar a dura realidade:
Apenas 35% das metas dos ODS estão no caminho certo ou fazendo progresso moderado.
Quase metade avança muito lentamente.
E 18% estão regredindo.
Enquanto isso, a economia global está desacelerando.
As tensões comerciais estão crescendo.
As desigualdades aumentam.
Orçamentos de ajuda internacional estão sendo destruídos enquanto os gastos militares disparam.
E a desconfiança, a polarização e os conflitos abertos colocam o sistema internacional sob pressão inédita.
Não podemos maquiar a verdade — mas também não podemos nos render.
Os ODS ainda são alcançáveis — se agirmos com urgência e ambição.
O Fórum deste ano tem foco em cinco ODS críticos: saúde, igualdade de gênero, trabalho decente, vida abaixo d’água e parcerias globais.
Todos são essenciais. Todos estão interconectados. Todos podem impulsionar o progresso em outras metas.
Sobre saúde, a COVID-19 expôs e aprofundou desigualdades — e hoje, muitas pessoas ainda não têm acesso ao cuidado básico.
Sabemos o que funciona.
Devemos aumentar o investimento na cobertura universal de saúde, com base em atenção primária forte, prevenção e foco nas populações mais excluídas.
Sobre igualdade de gênero, os obstáculos sistêmicos continuam — da violência e discriminação ao trabalho não remunerado e à pouca participação política.
Mas há impulso crescente, desde movimentos de base até reformas nacionais.
É hora de transformar esse impulso em políticas transformadoras — com base em direitos, responsabilização e financiamento real para programas de inclusão e igualdade.
Sobre trabalho decente, a economia global deixa bilhões para trás.
Mais de 2 bilhões de pessoas estão na informalidade.
O desemprego juvenil permanece alto.
Mas temos ferramentas para mudar esse cenário.
Aceleradores globais estão apoiando os países com proteção social, capacitação e empregos sustentáveis — inclusive em setores em crescimento como a energia limpa.
Amanhã, farei um pronunciamento sobre as enormes oportunidades da revolução das energias renováveis.
A próxima Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social pode impulsionar ainda mais avanços.
Sobre vida abaixo d’água, os oceanos e as comunidades que deles dependem pagam o preço da pesca predatória, da poluição e da mudança climática.
Devemos cumprir os compromissos firmados em Nice — protegendo ecossistemas marinhos e apoiando os milhões que deles dependem.
Por fim, sobre parcerias globais (ODS 17) — precisamos fortalecer todos os elementos que apoiam o progresso.
Isso inclui investir em ciência, dados, capacidades locais e inovação digital — inclusive inteligência artificial — para acelerar avanços e não aprofundar desigualdades.
Devemos reconhecer a necessidade de reformar o sistema financeiro internacional injusto, que já não reflete o mundo de hoje nem os desafios dos países em desenvolvimento.
Precisamos garantir reformas que deem aos países em desenvolvimento uma voz mais forte e participação real nos esforços para alcançar os ODS.
O Compromisso de Sevilha, adotado na Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, propõe passos importantes:
- Novos compromissos nacionais e globais para canalizar recursos públicos e privados para onde são mais necessários.
- Maior capacidade dos governos de mobilizar recursos internos, inclusive por meio de reforma tributária.
- Um sistema mais eficaz de alívio da dívida e triplicação da capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento.
Excelências,
No próximo ano, devemos continuar construindo.
Precisamos ampliar parcerias que geram resultados — com o setor privado, a sociedade civil e autoridades locais.
Devemos incorporar o pensamento de longo prazo em todas as decisões, como nos comprometemos na Declaração sobre as Gerações Futuras.
E continuar aprendendo uns com os outros.
As Revisões Voluntárias Nacionais — base deste Fórum — são mais que relatórios.
São atos de prestação de contas.
Jornadas de autoconhecimento nacional.
E modelos a serem seguidos e aprimorados por outros países.
Até o fim deste Fórum, teremos ultrapassado 400 revisões — com mais de 150 países apresentando pelo menos duas vezes.
É um poderoso sinal de compromisso.
Uma demonstração clara de que há soluções — e de que elas podem ser replicadas e ampliadas.
Faltando cinco anos, é hora de transformar essas fagulhas em um grande incêndio de progresso — para todos os países.
Vamos agir com determinação, justiça e direção.
E entregar desenvolvimento — para as pessoas e para o planeta.
Obrigado.