Guterres: “O Haiti está no olho do furacão”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na Reunião de Alto Nível sobre o Haiti, em 25 de setembro de 2025.
Excelentíssimo Sr. Laurent Saint Cyr, presidente do Conselho Presidencial de Transição do Haiti;
Excelentíssimo Sr. Francis Fonseca, ministro das Relações Exteriores, Comércio Exterior, Cultura e Imigração de Belize;
Excelentíssima Sra. Louise Mushikiwabo, secretária-geral da Organização Internacional da Francofonia;
Excelentíssima Sra. Carla Barnett, secretária-geral da CARICOM;
Excelências,
Gostaria de começar agradecendo à Organização Internacional da Francofonia e à CARICOM por nos reunirem hoje.
O Haiti está no olho do furacão.
Gangues armadas destruíram comunidades. Famílias foram forçadas a abandonar suas casas. A fome e o medo são comuns, enquanto mulheres e meninas enfrentam violência sexual indescritível.
Aqueles que atacam seu próprio povo, que estupram, matam e aterrorizam, devem saber que serão julgados pela justiça.
Este quadro de desespero pode ser a realidade hoje, mas estamos todos aqui para garantir que não seja a realidade amanhã.
Repetidamente, seja por meio de terremotos ou turbulências políticas, os haitianos têm demonstrado sua resiliência.
É por isso que hoje é nossa responsabilidade corresponder à coragem deles com ações, e o povo haitiano deve sentir todo o peso da solidariedade internacional.
Vimos líderes nacionais começarem a traçar um caminho a seguir.
A CARICOM e a Organização dos Estados Americanos estão totalmente empenhadas, e saudamos os seus esforços. Reconhecemos e agradecemos o apoio do Canadá.
Apesar da boa vontade, a missão multinacional de apoio à segurança no terreno ainda carece do financiamento, da logística e do pessoal necessários para cumprir verdadeiramente a sua missão.
Entretanto, nos últimos meses, a violência dos gangues ceifou mais de duas mil vidas, incluindo dezenas de crianças.
Seis milhões de haitianos precisam de ajuda urgente.
Mais de cem mil pessoas fugiram de suas casas desde junho.
Esses números exigem um aumento internacional do apoio — não apenas um gotejar.
O impacto de não agir agora se estenderá muito além do Haiti. A instabilidade se espalhará através das fronteiras e por todo o Caribe e além. O que acontece em Porto Príncipe não ficará em Porto Príncipe.
A segurança não pode esperar pelo povo do Haiti.
Escolas, hospitais e mercados não podem reabrir até que as pessoas se sintam seguras nas ruas.
Os trabalhadores humanitários não podem prestar assistência em grande escala enquanto são alvo de extorsão e sequestro.
Sem preencher as lacunas da missão, sem financiamento previsível, o povo do Haiti, e entre eles as futuras gerações de haitianos, permanecerá preso ao medo dia após dia.
No entanto, sabemos que a segurança por si só não vai quebrar o ciclo de crises do Haiti. A estabilidade só virá quando a segurança for acompanhada por progresso político e esperança econômica.
Isso significa diálogo. Diálogo profundo.
Eleições confiáveis.
Instituições públicas nas quais os haitianos possam confiar.
Significa reconstruir a confiança entre líderes e cidadãos e garantir que mulheres e jovens, que constituem a maioria da população, façam parte da construção do futuro do Haiti.
Significa também investimento. A economia do Haiti foi devastada pela instabilidade. As famílias não conseguem alimentar seus filhos, enquanto os mercados entraram em colapso e os meios de subsistência desapareceram.
É por isso que precisamos de um financiamento ousado: combinar o apoio dos doadores com investimentos privados, mobilizar recursos em grande escala e colocá-los nas mãos dos haitianos e das comunidades haitianas.
As Nações Unidas estão empenhadas em apoiar este caminho.
Desde a ajuda humanitária urgente ao reforço da governação; desde a capacitação das mulheres e dos jovens à mobilização de financiamento para empregos e meios de subsistência; desde a responsabilização pela violência até uma perspectiva política crível — estaremos ao lado do Haiti.
No entanto, a ONU não pode fazer isso sozinha e precisamos de um esforço internacional coordenado.
Projetos fragmentados não trarão estabilidade.
Se queremos que os haitianos sintam o impacto, se queremos mudar o curso desta crise, todos os atores, todos os dólares, todas as intervenções devem empurrar para a mesma direção.
Excelências,
Não caiamos na armadilha de descrever o desespero enquanto falhamos em mudá-lo.
Os fatos são graves, mas a responsabilidade é nossa.
O povo do Haiti passou por coisas inimagináveis.
Vamos apoiá-los para que recuperem a estabilidade, reconstruam seu país e alcancem o futuro de paz e prosperidade que tanto merecem.
Obrigado.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/story/2025/10/1851138