“Elas do Campo à Mesa”: a força das mulheres que sustentam a segurança alimentar no Brasil
Campanha percorre as cinco regiões do país para dar visibilidade às mulheres que protagonizam cada etapa da cadeia de abastecimento alimentar.
O ofício começou cedo, uma herança passada de geração em geração sob a sombra dos coqueiros. Em Zé Doca, no interior do Maranhão, Eronildes Souza da Silva iniciou sua jornada aos 10 anos, enquanto Maria Rita Souza da Silva começou aos 12. Elas são quebradeiras de coco babaçu, mulheres que transformam a riqueza da terra em sustento, mas que muitas vezes enfrentam a invisibilidade de uma jornada dupla.
“Agricultura é vida e aqui nós estamos inseridas”, resume Maria Rita, com a sabedoria de quem conhece o solo.
Para Eronildes, o trabalho na extração do coco se soma aos cuidados com a casa e os filhos, evidenciando um esforço que vai além do campo. Essa sobrecarga é confirmada pelo relatório global de 2023 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que aponta que as mulheres dedicam, em média, pelo menos três vezes mais tempo do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado e aos afazeres domésticos.
A realidade de persistência é o coração da campanha “Elas do Campo à Mesa: onde há alimento, há trabalho de mulheres”. A iniciativa é realizada no âmbito do acordo de cooperação entre o Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS), organismo da ONU especializado em infraestrutura, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a Itaipu Binacional. A parceria estabelece o apoio do UNOPS para a reforma e modernização de armazéns graneleiros da Conab, com olhar atento às necessidades de todas as pessoas - entre elas, as mulheres.
Com a campanha, que acontece ao longo de todo mês de março no Instagram da Conab, a proposta é percorrer o país para dar visibilidade às mulheres que fazem o alimento chegar ao prato dos brasileiros.
Cuidado nos processos
Depois do trabalho no campo, a jornada do alimento continua nos silos de armazenamento, onde a precisão é fundamental. Em Ponta Grossa, no Paraná, Juliane Aparecida Schneider de Oliveira é quem comanda esse fluxo. Com 11 anos de Conab, ela hoje opera o sistema que controla a entrada e saída de grãos, em um setor historicamente masculino.
“As mulheres trazem para o setor operacional não apenas uma melhoria nas relações interpessoais, mas também uma organização ímpar e muita agilidade”, afirma.
Juliane destaca que a presença feminina nos armazéns trouxe organização, mas também revelou a necessidade de adaptações estruturais. Ela lembra, por exemplo, de quando precisava dividir o banheiro com colegas homens e da falta de estrutura para motoristas mulheres. Como resposta a essas demandas, o projeto de modernização das Unidades Armazenadoras da Conab, apoiado pelo UNOPS, incluirá espaços adequados para o público feminino na sua próxima fase.
Resistência nas rodovias
Seguindo o caminho dos alimentos, para que o grão saia do silo e atravesse o país, o trajeto exige resistência. É na estrada que Eliziane de Barros e Regiane Oliveira, encontram seu escritório sobre rodas. Elas fazem parte de um grupo de mais de 32 mil caminhoneiras, um número que cresceu 58% na última década, segundo dados do Ministério dos Transportes.
Para Eliziane, de 26 anos, a profissão é um misto de "liberdade com responsabilidade", mas os desafios são diários: desde o preconceito até a falta de banheiros limpos e seguros nas rodovias. Regiane relata que, ao chegar para descarregar, ainda é comum ser confundida com a esposa de algum motorista.
“Já passou da hora de quebrar esse tabu”, afirma.
O destino final: a mesa
O ciclo se encerra com a solidariedade e a nutrição. Em Santa Rosa do Piauí (PI), Francisca Idelvane Muniz recebe semanalmente alimentos frescos através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Para ela, saber que sua família é nutrida pelo alimento produzido por outras mulheres traz uma garantia extra de qualidade.
“Posso garantir a segurança alimentar e nutricional da minha família com itens de qualidade, principalmente porque são produzidos por mulheres”, ressalta Francisca.
Para a diretora-executiva da Conab, Rosa Neide Sandes, dar visibilidade a essas histórias é o primeiro passo para a equidade:
“Tornar esse trabalho visível é fundamental, mas é igualmente fundamental que essas mulheres ocupem espaços de decisão e gestão em toda a cadeia produtiva.”
Para saber mais, acompanhe a campanha no Instagram da Conab (@conab_oficial) e siga @unops_official nas redes!