O que nos une: memórias de casa
Reconstruindo suas vidas longe de casa, migrantes carregam vínculos com objetos que atravessam fronteiras e carregam memórias e lembranças.
Partir muitas vezes significa o que levar e o que deixar para trás. Ainda assim, alguns objetos, sejam pequenos, pessoais, frequentemente inesperados, atravessam fronteiras, carregando consigo o peso de um lar. Com o tempo, esses objetos passam a oferecer algo constante: um senso de familiaridade, um vínculo com aquilo que ficou para trás, uma forma de se agarrar a algo enquanto todo o resto muda.
Para Juan Iván Espinoza Varela, esse objeto era um rádio.
Aos 64 anos, ele deixou a Nicarágua, seguindo rumo ao norte pelo México em busca de um futuro melhor. Meses depois, voltou atrás, atravessando a pé a Ponte Rodolfo Robles, em Tecún Umán, entre a Guatemala e o México.
Uma história entre muitas, cada uma carregada à sua maneira.
No chiado do rádio
Durante oito meses, Juan viveu nas ruas, aceitando qualquer trabalho que conseguia encontrar, até não conseguir mais continuar. Sua casa já havia sido vendida após a morte de sua esposa, e ele havia perdido o contato com os filhos, que agora vivem nos Estados Unidos.
No caminho, alguém lhe deu um antigo rádio gravador. Ele o guardou consigo. Nas noites longas, o aparelho preenchia o silêncio. Nos dias difíceis, trazia uma sensação de companhia. Enquanto fazia o caminho de volta para casa, o rádio permaneceu ao seu lado, como um lembrete de que a gentileza existe, mesmo nos lugares mais remotos.
O que a agulha guarda na memória
Anna carrega o lar nas mãos. Em um pequeno quarto em Martin, na Eslováquia, ela passa horas bordando, costurando cenas coloridas que lhe lembram a vida que deixou para trás, na Ucrânia. É um processo lento e repetitivo, que traz uma sensação de cotidiano e familiaridade em meio a um tempo marcado pela incerteza.
O bordado tornou-se mais do que um passatempo. Cada peça guarda fragmentos de memória, de lugares, de momentos e de uma identidade que o deslocamento não conseguiu apagar. Por meio do seu trabalho, Anna cria algo estável e seu, uma pequena ponte entre onde está agora e de onde veio.
A música encontra o caminho de volta
Mohammad cresceu com a música. Quando criança, aprendeu a tocar oud e ney, e mais tarde, passou a se apresentar com o irmão. A música fazia parte da vida cotidiana, o que moldou a sua visão de mundo.
Por meio do programa Melodias Migrantes da OIM, na Turquia, ele voltou à música, desta vez aprendendo a tocar bağlama. O que retomou foi mais do que um instrumento. Tornou-se uma forma de se reconectar consigo mesmo e com os outros, transformando algo do seu passado em uma fonte de conforto, propósito e pertencimento.
Entre dois lugares
Quando Yalethe deixou a Venezuela, há sete anos, levou apenas o que conseguia carregar. Entre seus pertences estava uma rede, algo que sabia que iria precisar. Ela a acompanhou na travessia da fronteira com o Brasil, tornando-se um lugar para sentar, dormir e descansar, quando não havia mais quase nada.
Em Boa Vista (RR), Yalethe e o marido encontraram abrigo temporário na casa de um amigo, um espaço que aos poucos se transformou em acolhimento para outras pessoas que chegavam sem ter para onde ir. Anos depois, a rede ainda está lá, exatamente como ela a trouxe ao cruzar a fronteira pela primeira vez: um lugar de descanso e uma lembrança de tudo o que sustentou ao longo do caminho.
Uma amiga durante a noite
“Ela é minha amiga, e tem medo de ficar sozinha”, diz Abeer, de sete anos, deslocada na Cidade de Gaza.
Enquanto sua família fugia, Abeer segurava seu bichinho de pelúcia com força, recusando-se a deixá-lo para trás. Ela o trouxe consigo porque é sua “amiga”, a única coisa que ainda lhe parece familiar. Sua irmã, Nada, também tem um: grande, branco e fofinho.
Após mais de dois anos de deslocamento, medo e perdas, esses brinquedos se tornaram mais do que simples objetos de brincar. Eles oferecem conforto, uma sensação de segurança e algo firme a que se agarrar em um mundo que mudou ao redor delas.
Um pequeno jardim de outro lugar
Em um abrigo temporário em El Progreso, Honduras, Elia permanece junto à janela, mantendo perto de si as plantas que trouxe. São coisas simples, mas que a fazem lembrar de casa, da vida que deixou para trás depois da Tempestade Tropical Sara.
Cuidar delas lhe dá algo familiar a que se apegar. Em um lugar que ainda parece provisório, esses pequenos cuidados a ajudam a construir um espaço que se pareça um pouco mais com seu.
O peso do orgulho
Quando Valentina deixou sua casa na Ucrânia, não sabia por quanto tempo ficaria longe nem do que iria precisar. Ficou horas diante da mala, sem conseguir decidir o que levar. No fim, colocou nela as medalhas da filha.
Elas marcavam anos de esforço e conquistas, momentos que ela acompanhou com orgulho, da escola à universidade. Valentina as levou consigo ao fugir para a Moldávia, chegando à margem esquerda do rio Nistro apenas alguns dias após o início da guerra.
“Quando cheguei e finalmente abri minha mala, as medalhas estavam logo em cima”, conta ela.
“Minha filha olhou para elas, surpresa, e perguntou: ‘Mãe, foi isso que você escolheu trazer com você?’ Então ela começou a chorar.”
Ainda estou aqui
Na vila de Sa’dah, em Anbar, no Iraque, Afif Wahesh segura uma antiga fotografia de equipe, observando rostos conhecidos de outro tempo. Encontrada entre os escombros do Fórum da Juventude de Sa’dah, antes o coração da vida comunitária, a imagem guarda memórias de uma vila que já foi vibrante e cheia de vida.
Depois de retornar em 2018, Afif ajudou a reconstruir o espaço, mantendo a fotografia como lembrança de que, mesmo após anos de conflito e deslocamento, a história da comunidade permanece.
A forma do conforto
Karina tinha 10 anos quando ganhou dos pais o brinquedo de pelúcia. Ela o chamou de Vasya. Mais de duas décadas depois, ele ainda está com ela. Quando sua família deixou a Ucrânia em 2014, à medida que a situação na região se tornava cada vez mais insegura, ela fez as malas às pressas. Entre as poucas coisas que escolheu levar, Vasya foi a primeira.
Desde então, ele viajou com ela por vários países da Europa, incluindo a Polônia, onde ela vive há 11 anos. A cada mudança, a cada novo começo, ele permaneceu como uma constante e uma lembrança de casa transportada através das fronteiras.
Uma xícara de café
Em Obock, no Djibuti, Zinach está sentada entre outras mulheres enquanto o café é preparado e servido, seu aroma se espalhando pelo ar. No centro, a cerimônia segue passos familiares: pequenas xícaras organizadas, mãos se movendo em ritmo, a jebena colocada no centro. Para Zinach, isso é mais do que uma rotina.
“Eu adoro as cerimônias do café com as mulheres daqui”, diz ela. “Isso me faz lembrar de casa.”
A ausência das coisas
Noor Ahmad passou 26 anos no Irã, onde mantinha uma pequena loja. Após perder o pai, voltou-se para a cura com cristais, uma terapia alternativa na qual acredita ser possível restaurar o equilíbrio por meio da energia das pedras.
Hoje, usa um anel com pedras incrustadas, uma das poucas coisas que conseguiu manter consigo após retornar ao Afeganistão com quase nada para reconstruir a própria vida.
“Agora não tenho nada — nem ferramentas, nem pedras, nem um lugar para morar”, diz ele.
Sobre a OIM:
Estabelecida em 1951, a OIM, Agência da ONU para as Migrações, é o principal organismo intergovernamental no campo da migração. A OIM está presente no Brasil desde 2016.
O trabalho da OIM tem como foco os seguintes três objetivos:
- Salvar vidas e proteger pessoas em movimento: para cumprir esse objetivo, a OIM coloca em primeiro lugar a segurança, dignidade e proteção das pessoas, nos contextos de resposta a crises mais desafiadores no mundo.
- Impulsionar soluções para o deslocamento: em resposta a esse objetivo, a OIM se esforça para reduzir os riscos e impactos da mudança do clima, degradação ambiental, conflitos e instabilidade de comunidades afetadas por ou em risco de deslocamento.
- Facilitar vias para a migração regular: para abordar essa meta, a OIM prioriza abordagens que abranjam de forma total o governo e a sociedade para conectar de forma segura pessoas, bens, serviços, conhecimentos e inovação.
Para saber mais, siga @oimbrasil nas redes e visite a página da OIM no Brasil: https://brazil.iom.int/pt-br