80º aniversário da Corte Internacional de Justiça: “A força da lei deve sempre prevalecer sobre a lei da força”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na cerimônia de comemoração do 80º aniversário da Corte Internacional de Justiça, na Cidade de Haia.
Vossa Majestade,
Senhor Presidente,
Distintos juízes,
Excelências,
Senhoras e senhores,
Momentos de crise são momentos de escolha.
Eles revelam quem somos – e o que defendemos.
Hoje, nos reunimos na dignidade serena de uma cidade que é sinônimo de justiça e direito internacional.
Mas é fácil esquecer o mundo de oitenta anos atrás.
A Europa – e muito além dela – estava em ruínas.
A própria Haia ficou marcada e abalada.
E, ainda assim, naquele momento sombrio e difícil, os líderes mundiais fizeram uma escolha decisiva:
A escolha de rejeitar um futuro governado pela coerção e pela violência – e de abraçar um futuro enraizado na Carta das Nações Unidas e no direito internacional.
A escolha de construir um Tribunal fundado em uma convicção primordial:
A força da lei deve sempre prevalecer sobre a lei da força.
Ao fazer isso, eles fizeram mais do que criar o principal órgão judicial das Nações Unidas.
Eles lançaram a pedra fundamental de um mundo mais pacífico.
Excelências,
Como afirmou o presidente da Assembleia Geral, Paul-Henri Spaak, na sessão inaugural desta Corte, há 80 anos:
“Não pode haver um mundo civilizado nem paz duradoura se não houver respeito completo e absoluto pela jurisdição internacional e seus julgamentos.”
Ao longo de oito décadas, os julgamentos e os pareceres consultivos da Corte Internacional de Justiça moldaram o mundo moderno.
Hoje, a pauta da Corte nunca esteve tão cheia – um sinal claro de confiança em sua autoridade e independência.
O aumento do número de mulheres no corpo de juízes está fortalecendo ainda mais a legitimidade da Corte. Um sinal de progresso que precisa continuar.
E a modernização dos métodos de trabalho da Corte está aumentando a eficácia e a resiliência.
Aos juízes e à toda equipe da Corte e de seu Secretariado, estendo minha profunda gratidão.
A Corte continua a ser uma garantia de que soberania e igualdade não são meras palavras no papel.
É também um lembrete de que mesmo uma força esmagadora não pode – e não deve – substituir a obrigação legal.
Excelências,
Devemos ser inequívocos:
As decisões da Corte, incluindo medidas provisórias, são vinculativas para as partes de um processo.
O respeito por essas decisões não é opcional.
É uma obrigação da Carta.
No entanto, hoje, violações do direito internacional estão ocorrendo diante de nossos olhos:
- Operações militares pisoteiam as regras básicas que regem os conflitos.
- Obrigações humanitárias são ignoradas.
- As regras do direito internacional que protegem a própria Organização das Nações Unidas estão sendo violadas.
- As instituições criadas para garantir a justiça – esta e outras – são cada vez mais questionadas e contestadas.
E essa erosão não está ocorrendo à margem do sistema internacional.
Está ocorrendo em seu cerne – inclusive por parte de Estados aos quais foram confiadas responsabilidades únicas pela manutenção da paz e da segurança internacionais.
Quando a lei da força substitui a força da lei, a instabilidade torna-se contagiosa.
Os conflitos transbordam as fronteiras.
Os choques econômicos reverberam em todo o mundo.
E as pessoas mais vulneráveis são sempre as primeiras a sofrer e as que mais sofrem.
Excelências,
Hoje, enfrentamos nosso próprio momento de crise – e nosso próprio momento de escolha:
Uma escolha entre um futuro regido pelo Estado de Direito – ou um futuro movido pelo poder bruto.
A escolha é clara.
É precisamente porque o sistema internacional está sob tanta pressão que a adesão ao direito internacional é mais importante do que nunca – especialmente nesta era de relações de poder em transformação.
Sem essa base, o risco de caos aumentará, como a história tem demonstrado.
O direito internacional oferece aos Estados a certeza de uma linguagem comum – e a previsibilidade de um quadro comum para resolver diferenças pacificamente.
Enfraquecê-lo é corroer os fundamentos da estabilidade global.
Fortalecê-lo é investir em um mundo regido pela justiça, não pelo medo.
Optemos por fortalecê-lo.
Renovemos nosso compromisso com a resolução pacífica de controvérsias.
Respeitar as decisões deste Tribunal – e dar seguimento aos pareceres consultivos do Tribunal.
E defender os propósitos e princípios da Carta que nos unem como comunidade de nações.
Neste momento de crise, essa é a única escolha certa.
Tenhamos a coragem de fazê-la.
Obrigado.
Para saber mais, visite a página da Corte Internacional de Justiça (CIJ) e acompanhe a cobertura da ONU News em português: https://news.un.org/pt/story/2026/04/1852890