FAO e Brasil fortalecem a agricultura familiar na América Central
04 maio 2026
Produtores da Guatemala, El Salvador e Honduras fortaleceram o planejamento de seus cultivos e reduziram perdas produtivas graças à adoção do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC).
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o governo do Brasil, representado pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE), juntamente com os governos de El Salvador, Guatemala e Honduras, e o Conselho Agropecuário Centro-Americano (CAC) do Sistema da Integração Centro-Americana (SICA), apresentaram os resultados do projeto “Inovação para a redução de riscos agroambientais nos países do Corredor Seco da América Central: Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) e gestão de recursos hídricos”, durante evento realizado de 21 a 22 de abril, na Cidade da Guatemala.
A iniciativa, que faz parte do Programa de Cooperação Sul-Sul Brasil-FAO, foi implementada durante três anos em uma das regiões mais vulneráveis às mudanças e à variabilidade climática pelo governo do Brasil, por meio da ABC/MRE, em parceria com a FAO e os ministérios da Agricultura da Guatemala, El Salvador e Honduras. Contou com apoio técnico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto de Ciência e Tecnologia Agrícola da Guatemala, da Direção de Ciência e Tecnologia Agropecuária de Honduras e do Centro Nacional de Tecnologia Agropecuária e Florestal (CENTA) de El Salvador.
O projeto contribuiu para fortalecer a resiliência da agricultura familiar por meio do uso de ferramentas baseadas em ciência, dados e cooperação técnica entre Brasil e os três países da América Central, beneficiando produtores que enfrentam de forma recorrente perdas associadas à seca e à irregularidade das chuvas.
Sobre o projeto ZARC, o representante da FAO na Guatemala, Rafael Zavala, afirmou:
“Este foi um processo de construção conjunta, baseado na troca de conhecimentos e na adaptação aos contextos locais. A cooperação Sul-Sul triangular demonstrou que as soluções mais eficazes não são impostas, mas construídas entre países que compartilham desafios semelhantes, integrando experiência técnica, liderança institucional e compromisso territorial para fortalecer a resiliência agrícola.”
Durante sua implementação, a iniciativa articulou mais de 20 instituições nos três países participantes, fortalecendo capacidades técnicas e a governança em torno da gestão de risco climático. Por meio de oficinas, intercâmbios técnicos e ações de comunicação, promoveu-se o uso da ferramenta ZARC, desenvolvida pela Embrapa.
“Em apenas três anos de implementação, a ferramenta ZARC já conta com informações que podem ser compartilhadas com produtores e produtoras para que ajustem suas decisões, reduzam perdas e melhorem a eficiência no uso da água”, explicou Julián Carrazón, Oficial de Agricultura do Escritório Sub-regional da FAO para a América Central.
Um avanço significativo foi a incorporação da ferramenta ZARC ao planejamento agrícola dos ministérios da Agricultura dos três países do Corredor Seco da América Central, avançando em sua adoção como referência técnica para o planejamento agrícola e orientação à tomada de decisões nos níveis governamental, territorial e produtivo. Além disso, o projeto facilitou a articulação com 13 instituições financeiras e seguradoras, principalmente em processos de sensibilização, intercâmbio técnico e análise do uso potencial do ZARC, promovendo o vínculo entre tecnologia, financiamento e produção.
O ministro Alexandre Siqueira, encarregado de negócios da Embaixada do Brasil na Guatemala, destacou que a contribuição do Brasil para o projeto foi além da transferência de uma ferramenta técnica, incorporando uma experiência institucional consolidada e o conhecimento científico desenvolvido pela Embrapa para apoiar a gestão de risco climático na agricultura regional.
Por sua vez, representando o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAGA) da Guatemala, Rafael López, diretor de Informação Geográfica, Estratégica e Gestão de Riscos (DIGEGR), ressaltou que atualmente os países contam com ferramentas que permitem antecipar impactos climáticos, melhorar o planejamento agrícola e reduzir riscos para produtores e produtoras. A região passou de reagir às crises para se preparar para evitá-las por meio de decisões baseadas em evidências e conhecimento.
Ricardo Peña, vice-ministro da Secretaria de Agricultura e Pecuária (SAG) de Honduras, afirmou que a ferramenta ZARC será muito útil para a tomada de decisões no setor público, formulação de políticas agrícolas e articulação com outros atores, incluindo o setor privado.
Ao longo de sua implementação, mais de 130 técnicos foram capacitados e agora contam com ferramentas para melhorar a gestão de risco climático nos cultivos. Além disso, foram desenvolvidos mais de 190 mapas ZARC nos três países, integrando dados climáticos, de solo e cultivos, além de incorporar mecanismos inovadores, como o uso de dados climáticos satelitais para enfrentar a escassez ou inconsistência de informações climáticas.
A ferramenta de Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) é uma das cinco propostas de investimento impulsionadas pela Iniciativa Mão na Mão “Construindo resiliência no corredor seco e zonas áridas da região do SICA”, liderada pela Secretaria-Geral do SICA, juntamente com a FAO, a Secretaria Executiva do CAC (SECAC), a Secretaria Executiva da Comissão Centro-Americana de Ambiente e Desenvolvimento (CCAD) e o Centro Regional de Promoção da Micro, Pequena e Média Empresa (CENPROMYPE).
Veja neste vídeo os resultados do Projeto de Zoneamento Agrícola para a Redução de Riscos Climáticos (ZARC):
Plantio planejado reduzindo perdas
A validação da ferramenta ZARC em condições reais de campo foi realizada por meio da implementação de 120 parcelas piloto em 30 municípios da Guatemala, El Salvador e Honduras, onde famílias agricultoras adotaram práticas mais resilientes, incluindo o uso de pluviômetros, sementes melhoradas e sementes crioulas. Essas ações contribuíram para melhorar o planejamento dos cultivos, reduzir perdas e fortalecer a renda das famílias rurais.
A principal mudança observada nos cultivos após o uso da ferramenta ZARC foi o ajuste das datas de plantio de grãos básicos — principalmente milho, feijão e sorgo, e em alguns territórios de Honduras, gergelim — para janelas de menor risco climático. Essa prática melhorou a sobrevivência, o desenvolvimento fenológico e os rendimentos dos cultivos em comparação com plantios realizados fora do período recomendado, reduzindo perdas associadas à seca e à variabilidade das chuvas.
Durante o evento, Ricardo Ramírez, produtor de agricultura familiar que participou do processo de validação do ZARC na Guatemala, compartilhou sua experiência sobre os resultados obtidos em sua parcela, destacando que o ajuste da janela de plantio com base nas informações fornecidas pela ferramenta, juntamente com o acompanhamento técnico recebido, permitiu alcançar melhores resultados produtivos em comparação com plantios realizados fora do período recomendado.
As mulheres rurais tiveram participação de destaque no projeto, por meio de atividades de fortalecimento de capacidades relacionadas ao ZARC e sua vinculação com a segurança alimentar. Na Guatemala, participaram 112 mulheres; em Honduras, outras 167. Em El Salvador, mais de 80 participantes, entre lideranças femininas e técnicas do CENTA, também participaram de cursos e outras capacitações.
Por meio da adaptação da metodologia ZARC aos contextos nacionais, os países conseguiram identificar cultivos, variedades, territórios e períodos de plantio mais adequados, estabelecendo bases técnicas e institucionais para a ampliação e sustentabilidade da ferramenta como instrumento-chave de gestão de risco climático agrícola na região do Corredor Seco.
Contato para imprensa:
- Palova Brito, palova.souzabrito@fao.org