Guterres: “O PIB ignora as atividades humanas que sustentam a vida e contribuem para o bem-estar”
Discurso do secretário-geral António Guterres na sessão da Assembleia Geral para apresentação do relatório do Grupo de Especialistas sobre o tema “Além do PIB”.
O relatório que hoje aqui apresentamos constitui um passo decisivo para corrigir um ponto cego de longa data na mensuração do progresso:
A dependência excessiva do Produto Interno Bruto.
O relatório e as suas recomendações detalhadas são o resultado do trabalho focado de um Grupo de Especialistas de Alto Nível.
Convoquei o Grupo em resposta a um apelo claro dos Estados-membros no Pacto para o Futuro, no sentido de desenvolver indicadores de progresso que complementam ou vão além do PIB.
Ao longo do último ano, este Grupo multidisciplinar de acadêmicos e especialistas em políticas contribuiu com as suas ideias e conhecimentos, e consultou partes interessadas em todo o mundo.
Agradeço pelo seu valioso trabalho.
Excelências,
O PIB é o indicador mais utilizado para medir o progresso econômico e o bem-estar.
Continuará a ser um indicador importante.
Mas não pode ser o único.
Por definição, o Produto Interno Bruto oferece uma imagem clara e concisa da produção de um país baseada no mercado.
Sua abrangência é deliberadamente restrita.
Mas está sendo utilizado atualmente de uma maneira que seus formuladores nunca tiveram a intenção.
Utilizamos o PIB para avaliar o sucesso a longo prazo dos países.
No entanto, vemos uma enorme discrepância entre o que o PIB mede e o que as pessoas valorizam.
O PIB ignora as atividades humanas que sustentam a vida e contribuem para o bem-estar, ao mesmo tempo que não leva em conta aquelas que prejudicam as pessoas e esgotam o nosso planeta.
Durante o meu mandato como secretário-geral, o tamanho da economia global cresceu mais de 50 por cento, ajustado pela inflação.
Mas o nosso mundo não tem visto melhorias proporcionais em muitas das áreas que beneficiam a humanidade:
- Saúde.
- Biodiversidade.
- Geração de empregos.
- Direitos humanos.
- Igualdade.
E até mesmo a paz — com os conflitos atingindo agora níveis nunca vistos desde a Segunda Guerra Mundial.
Ao mesmo tempo, o desmatamento, a sobrepesca e a queima de combustíveis fósseis são todas contabilizadas no PIB, como nos lembrou a presidente da Assembleia Geral e a co-facilitadora.
Também tratamos as taxas de crescimento do PIB como um barômetro em tempo real da saúde de uma sociedade.
Mas o PIB nada faz para captar ou prever o mal-estar social, a frustração e a desconfiança nas instituições, nem se a prosperidade é compartilhada.
No nosso mundo de profundas desigualdades, o PIB é indiferente se os rendimentos vão para os bilionários ou para os pobres — ou se esses rendimentos são utilizados para combater a fome, a privação, ou melhorar a saúde.
E o PIB tornou-se a nossa ferramenta principal para as regras de política internacional.
Mas não distingue de maneira eficaz as vulnerabilidades, os desafios ou o potencial enfrentados pelos diferentes países.
Não podemos apenas assumir que, só porque hoje dispõem de maior renda, certos países não precisam de ajuda internacional, como demonstra o Índice de Vulnerabilidade Multidimensional.
Também não podemos apenas assumir que a sustentabilidade da dívida de um país pode ser avaliada exclusivamente com base no que esse país ganha, ignorando o valor dos seus ativos e a forma como os empréstimos estão sendo utilizados.
Excelências,
Estas discrepâncias são especialmente relevantes hoje.
Com o rápido avanço da Inteligência Artificial (IA), a humanidade está à beira de uma revolução tecnológica — [comparável] à revolução industrial.
A IA tem o potencial de impulsionar drasticamente o crescimento e a produtividade a nível global.
Mas pode igualmente eliminar milhões de trabalhos e desencadear a criação e a utilização de armas mortíferas cada vez mais sofisticadas.
Certamente, não devemos avaliar o mérito desta tecnologia apenas pelo seu efeito no PIB.
Excelências,
O nosso mundo precisa de um sistema de contabilização mais sofisticado, mais diversificado e mais humano.
Um sistema que alinhe conscientemente os indicadores com os nossos objetivos reais — e não com medidas indiretas que obscureçam ou ocultem os desafios que o nosso mundo enfrenta.
Este relatório baseia-se em décadas de pesquisa, iniciativas lideradas pelos países, e desenvolvimento de dados.
O painel sobre o tema Além do PIB que propomos tem como base a visão do desenvolvimento sustentável e nos seus 17 Objetivos.
Embora os Objetivos ofereçam uma articulação completa das nossas aspirações para as pessoas e o planeta, o painel Além do PIB nos dá uma bússola que pode ser utilizada para orientar as decisões do dia a dia.
O painel inclui um conjunto de indicadores específicos centrados no bem-estar equitativo e sustentável em quatro áreas principais:
Em primeiro lugar — indicadores relacionados com o bem-estar das pessoas e do planeta.
Trabalho, saúde, educação e segurança.
A qualidade das instituições civis e das infraestruturas.
E as condições ambientais, que sustentam o ar que respiramos, a água que bebemos e os alimentos que consumimos.
Segundo — indicadores relacionados com a equidade e a inclusão.
Não podemos continuar a aceitar a desigualdade, a pobreza e as disparidades entre grupos populacionais e regiões inteiras como uma realidade inevitável.
A equidade é a base da coesão social — e um pilar da paz.
Terceiro — indicadores relacionados com a sustentabilidade e a resiliência.
Focar exclusivamente no rendimento que geramos hoje é insuficiente.
Temos também de encontrar formas para preservar e desenvolver os ativos e vantagens existentes dos países — incluindo a natureza e o conhecimento — que podem impulsionar o progresso no futuro, ao mesmo tempo que enfrentamos desafios existenciais como a mudança climática.
E, em quarto lugar, — indicadores enraizados nos princípios fundamentais da paz, dos direitos humanos e do respeito pelo planeta, dos quais depende todo o progresso.
Estes princípios derivam diretamente da Carta das Nações Unidas.
A introdução da agenda Além do PIB na ONU responde ao apelo claro dos Estados-membros para garantir que esta questão seja orientada pelos ideais da ONU.
E reconhece que, no nosso mundo profundamente conectado, o que acontece num país pode influenciar e afetar o que acontece em outro.
Esta questão global exige a plataforma global única que a ONU proporciona.
Excelências,
O próximo passo cabe aos Estados-membros.
O processo intergovernamental começa agora.
O seu papel é considerar as recomendações deste relatório e chegar a um acordo sobre um plano para estabelecer, aperfeiçoar e institucionalizar o Painel.
Governos, sociedade civil, a mídia, especialistas em estatística, empresas e organizações internacionais precisam trabalhar em conjunto para dar vida aos indicadores nos seus países.
E as instituições financeiras internacionais devem ter estes indicadores em conta nos seus processos de tomada de decisão.
Podem contar com o apoio da ONU em cada passo do caminho.
Excelências,
O relatório de hoje é um lembrete claro:
O PIB não é suficiente.
O crescimento a qualquer custo nos torna mais pobres, não mais ricos.
O relatório é também um chamado à ação.
Vamos levar em conta o que realmente importa.
Vamos adotar estas novas métricas que complementam o PIB e revelam o panorama completo dos desafios e oportunidades que o nosso mundo enfrenta neste momento extraordinário da história.
Obrigado.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português e acesse a página do Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre o tema “Além do PIB”.