Guterres: “Quando a natureza é tratada como descartável, a humanidade paga o preço”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na Semana de Ação Climática de Londres, no Jardim Botânico Real de Kew, em 23 de junho.
Caros amigos e amigas,
Receber a Medalha Internacional de Kew é uma grande honra.
E estou profundamente, profundamente grato, e prometo fazer tudo o que puder para merecê-la.
Existem poucos lugares onde o poder silencioso do mundo vivo se manifesta tão claramente quanto aqui, no Jardim Botânico Real de Kew.
Um Patrimônio Mundial.
Um santuário da ciência.
Um tesouro da grande diversidade do nosso planeta.
Por mais de dois séculos e meio, o conhecimento se enraizou aqui – e se transformou na proteção da vida e do nosso futuro comum.
Ao levar adiante essa missão – desde conter a perda de biodiversidade até revelar as próprias soluções da natureza –, Kew é um aliado estimado das Nações Unidas.
E, por isso, aceito esta medalha não para mim, mas para as Nações Unidas e para todas as pessoas que trabalham nas Nações Unidas em prol da natureza. E para o mundo natural que juramos defender.
Porque o destino da natureza e o destino da humanidade são um e o mesmo.
E todos os dias, o planeta nos lembra dessa verdade – por meio de seu sofrimento.
Os últimos onze anos foram os onze mais quentes já registrados.
Agora, espera-se um novo El Niño este ano – pressionando um mundo já superaquecido.
O mundo está agora a caminho de ultrapassar o limite de 1,5 grau nos próximos anos.
E cada fração de grau importa – e nos aproxima cada vez mais de cruzar pontos de inflexão planetários perigosos.
Os custos humanos da inação já são insuportáveis.
E o mesmo vale para o impacto no mundo natural.
Os ecossistemas estão se desintegrando.
Espécies estão sendo levadas à extinção.
Nós mesmos vemos isso aqui.
Somente a seca de 2022 ceifou mais de quatrocentas árvores de Kew, como mencionou [diretor do Jardim Botânico Real de Kew, Richard Deverell] há alguns minutos.
E mais da metade das espécies de árvores desses jardins pode estar em risco antes do fim deste século.
Quando a crise climática atinge as grandes árvores de Kew, é um alerta para todos nós.
Essa crise tem uma raiz: nossa dependência dos combustíveis fósseis.
E o caminho a seguir é claro: precisamos acelerar a transição para a energia limpa.
As energias renováveis são hoje a fonte mais barata de energia nova na maior parte do mundo.
Elas são essenciais para o planeta – e a escolha mais inteligente para nossas economias e independência energética.
Precisamos deixar para trás a era dos combustíveis fósseis.
Mas reduzir as emissões é apenas parte da resposta.
A natureza também deve fazer parte disso.
Nossas florestas, nossos oceanos, nossas terras e rios mantêm o clima estável, abrigam a vida e sustentam milhões de pessoas.
No entanto, a natureza é mais do que algo a ser protegido – é nossa maior aliada.
Precisamos investir em soluções baseadas na natureza que reduzam as emissões de carbono, defendam as comunidades e enfrentem nossos desafios climáticos e ambientais.
Primeiro, as florestas.
Dos trópicos ao norte boreal, as florestas armazenam carbono, regulam as chuvas e nos protegem de inundações, secas e calor letal.
Para manter a meta de 1,5 grau ao nosso alcance, precisamos acabar com o desmatamento até 2030 – protegendo florestas intactas, conservando turfeiras e eliminando o desmatamento das cadeias de abastecimento.
E devemos restaurar as terras degradadas – protegendo bacias hidrográficas, reduzindo os riscos de desastres e criando empregos verdes.
Segundo, os oceanos.
Nossos oceanos absorvem um quarto de nossas emissões de carbono e a maior parte do excesso de calor retido na atmosfera.
No entanto, eles estão se aquecendo, se acidificando e subindo – ameaçando vidas, economias e a própria existência de comunidades inteiras.
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Precisamos fortalecer a proteção costeira e os sistemas de alerta precoce;
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Restaurar os recifes de corais, os leitos de ervas marinhas e os manguezais;
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Acabar com a poluição por plástico;
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Ampliar as áreas marinhas protegidas;
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E implementar rapidamente o Tratado do Alto Mar.
Acima de tudo, precisamos cumprir nossa promessa de proteger 30% da terra e do mar até 2030.
Terceiro, a ciência.
A ciência é nossa bússola.
Numa era de desinformação e ataques abertos à própria ciência, devemos manter a ação pública ancorada em evidências e na verdade.
O trabalho realizado aqui em Kew – e nas grandes instituições científicas do mundo – deve permanecer independente e livre de interferências políticas.
Porque, quando a ciência é ignorada, as pessoas sofrem.
Quando as evidências são atacadas, a ação é adiada.
E quando a natureza é tratada como descartável, a humanidade paga o preço.
Excelências, queridos amigos e amigas,
Proteger a natureza é uma responsabilidade legal e moral.
Honremos esse dever:
Protegendo os fundamentos da vida;
Investindo na recuperação da natureza;
E garantindo que as pessoas e o planeta prosperem juntos – agora e para as gerações futuras.
Obrigado.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português.