Guterres: “O risco climático é um risco econômico”
Discurso do secretário-geral António Guterres no Fórum sobre Clima e Financiamento do Desenvolvimento, na Semana de Ação Climática de Londres, em 24 de junho.
Caras e caros amigos,
Este Fórum tem como objetivo abordar um dos principais desafios de nosso tempo — mobilizar o financiamento necessário para ajudar os países a se transformarem e se adaptarem à crise climática.
A adaptação climática não se trata mais de se preparar para um futuro distante.
Trata-se de gerenciar riscos em tempo real — como o calor escaldante que agora assola Londres e muito além deixa inequivocamente claro.
Nosso clima está mudando mais rápido do que nossos sistemas, nossa infraestrutura e nossas instituições conseguem lidar.
A Organização Meteorológica Mundial confirma que os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados.
Os cientistas agora esperam que o mundo ultrapasse 1,5 graus Celsius nos próximos anos.
Estamos entrando em uma nova era de risco climático.
O excesso de aquecimento não é um desvio passageiro.
Mesmo que as temperaturas venham a cair, alguns dos danos podem se revelar irreversíveis.
Os recifes de corais já estão em perigo, ameaçando os meios de subsistência de pelo menos 300 milhões de pessoas que dependem deles.
As camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental estão derretendo em um ritmo acelerado, provocando um aumento do nível do mar que remodelará as linhas costeiras e ameaçará comunidades e infraestruturas.
O aumento do calor, as mudanças nos padrões de chuva e o desmatamento podem levar a Amazônia a uma mudança irreversível, liberando vastas reservas de carbono na atmosfera.
Devemos manter esse excesso o mais curto e o menor possível, reduzindo drasticamente as emissões nesta década e acelerando a transição para longe dos combustíveis fósseis.
Em um mundo interconectado, a vulnerabilidade climática em qualquer lugar se torna um risco econômico e de segurança em todos os lugares:
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Ameaçando a segurança alimentar e hídrica.
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Interrompendo as cadeias de abastecimento.
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Provocando deslocamento e instabilidade.
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E aumentando as pressões fiscais.
Apesar do que está em jogo, a adaptação tem sido subvalorizada politicamente e cronicamente subfinanciada.
Nossos sistemas de gestão de riscos são inadequados.
Os prêmios de seguro estão subindo.
As lacunas de proteção estão se ampliando.
A infraestrutura está cada vez mais desatualizada.
E os países que enfrentam os maiores impactos climáticos são aqueles que menos contribuíram para causá-los.
Eles enfrentam as maiores barreiras financeiras — desde custos de capital mais elevados até a necessidade de direcionar recursos públicos escassos, que poderiam ser destinados à saúde, à educação e ao desenvolvimento, para responder aos choques climáticos.
Caras e caros amigos,
Precisamos de uma nova abordagem para a adaptação, que reflita as realidades atuais.
Primeiro — precisamos eliminar a lacuna financeira.
Os países desenvolvidos devem triplicar o financiamento para a adaptação…
Repor os fundos multilaterais para o clima, como o Fundo Verde para o Clima e o Fundo para Resposta a Perdas e Danos…
E priorizar o financiamento previsível e baseado em doações, especialmente para os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e os Países Menos Desenvolvidos.
Enquanto isso, os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento devem usar sua capacidade ampliada de concessão de empréstimos para ampliar vigorosamente os investimentos em resiliência.
Seus acionistas também devem lhes proporcionar um poder de ação muito maior – acelerando reformas, fornecendo capital novo, ampliando o financiamento concessionário e permitindo que assumam mais riscos onde isso é mais importante.
Cada dólar público deve atrair muito mais investimento privado – por meio de garantias, financiamento misto, financiamento em moeda local e outros instrumentos.
Precisamos abrir as portas para fontes inovadoras de financiamento – incluindo taxas de solidariedade sobre setores de alta emissão e trocas de dívida por ações climáticas.
E exorto os governos a tributar os lucros extraordinários das empresas de combustíveis fósseis para ajudar a financiar a adaptação e as perdas e danos relacionados ao clima.
As empresas que impulsionam o caos climático não podem continuar lucrando com a destruição enquanto países vulneráveis enfrentam dificuldades.
Quem polui deve pagar.
Segundo — precisamos reconhecer que o risco climático é um risco econômico.
A adaptação deve moldar as estratégias nacionais de desenvolvimento, a política fiscal, o investimento público, o planejamento de infraestrutura, a política comercial e a regulamentação financeira.
Os ministérios de finanças, os bancos centrais, os ministérios de planejamento e as autoridades de investimento público devem tratar o risco climático como uma política econômica central — e trabalhar para mobilizar mais recursos domésticos.
Isso ajudará os países a integrar as ações climáticas em suas próprias prioridades de desenvolvimento — e promoverá a sustentabilidade dos investimentos climáticos.
Terceiro — os sistemas financeiros globais devem reconhecer o valor da resiliência.
Os países que investem na redução de riscos devem ser recompensados, não punidos.
No entanto, grande parte de nossa arquitetura financeira recompensa retornos de curto prazo, ao mesmo tempo em que desconsidera o risco que agora paira sobre todas as economias.
A resiliência deve ser valorizada como um ativo.
Os bancos multilaterais de desenvolvimento, as instituições financeiras, as seguradoras, os órgãos reguladores e as agências de classificação de crédito devem trabalhar juntos para recompensar os investimentos em resiliência por meio de modelos financeiros atualizados, custos de empréstimos mais baixos, condições favoráveis de seguro e melhor acesso ao capital.
E, quarto — precisamos de uma melhor preparação antes que os desastres ocorram.
Isso significa implementar plenamente o programa “Alerta Precoce para Todas as Pessoas”.
Significa manter o seguro acessível e a preços razoáveis.
E isso significa tornar o financiamento pré-acordado a regra, e não a exceção.
Não podemos permitir que os desastres climáticos se transformem em desastres fiscais.
Bancos multilaterais de desenvolvimento, fundos climáticos, doadores, seguradoras e parceiros de desenvolvimento devem unir forças para colocar o financiamento pré-acordado ao alcance dos países em desenvolvimento.
Caras e caros amigos,
A adaptação é uma necessidade econômica.
Um imperativo de desenvolvimento.
Um imperativo de segurança.
E uma questão de justiça climática.
Juntos e juntas, garantamos que a resiliência se torne a base para um futuro mais seguro e mais sustentável. E que os recursos sejam disponibilizados para que isso seja possível.
Para saber mais, acesse a cobertura da ONU News em português e visite a página especial da ONU Brasil sobre educação ambiental.